Liderança feminina na era da IA exige resiliência, networking e adaptação, dizem executivas (Foto: Igor Markevich)
Dupla jornada, maternidade e transição de carreira ganharam novas camadas na era da inteligência artificial — mas velhos entraves persistem. No São Paulo Innovation Week, executivas do mercado financeiro afirmaram que, apesar de avanços, mulheres ainda ocupam apenas 5,4% dos cargos de CEO e seguem enfrentando barreiras estruturais, agora combinadas a novos riscos trazidos pela tecnologia.
O debate no maior festival global de tecnologia e inovação, realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap, reuniu Luiza Lage, conselheira da Evoltz e ex-Citi; Carolina Cavenagui, CEO da Fin4she; e Fabiana Raulino, diretora executiva da Trampolean. Elas discutiram liderança feminina, mudança de carreira e os impactos da IA sobre o mercado de trabalho.
A participação feminina no setor ainda é limitada: mulheres representam 35,4% da força de trabalho no mercado financeiro e apenas 5,4% chegam ao topo das companhias.
Com três décadas de carreira, Lage relatou ter sido frequentemente “a única mulher na sala” e disse que a trajetória foi marcada por sucessivas adaptações. “Foram várias crises e mudanças. Isso cria musculatura, mas chega um momento em que não há mais para onde ir”, afirmou.
“Para a mulher, primeira percepção costuma ser ‘que linda’, e não ‘que garra’”, relembra Fabiana Raulino.
“Minha trajetória no mundo corporativo durou 30 anos, então você imagina tudo o que vivi. Foram várias crises financeiras, políticas e regulatórias – no total, tive 27 chefes. Isso foi importante para que eu criasse musculatura profissional, mas chegou um momento em que não havia mais para onde ir”, compartilha Lage.
Diante desse cenário, a transição de carreira aparece como alternativa — mas não sem custo. Para as executivas, o networking ainda é o principal ativo para reposicionamento profissional.
“Meu networking foi o que mais me ajudou a ser reconhecida como Luiza Lage, e não como ‘Luiza do Citi’”, disse a conselheira.
IA pode promover distorções
Se por um lado a tecnologia promete eficiência, por outro pode reforçar distorções. Segundo Raulino, ferramentas de inteligência artificial usadas em recrutamento ainda apresentam limitações técnicas e podem excluir candidatos sem critérios claros.
“A IA que analisa currículos, por exemplo, não lê documentos em duas colunas. Precisamos entender a tecnologia para não sermos prejudicados por ela”, afirmou.
Autonomia e gestão do próprio tempo
Para Cavenagui, o avanço na carreira também passa por autonomia e gestão do próprio tempo, especialmente fora dos modelos tradicionais de trabalho.
“É importante pararmos de viver calendários que não são nossos”, disse a executiva.
Raulino acrescentou que redes de apoio e comunidades são essenciais para sustentar essa trajetória. “O futuro feminino está nas comunidades, porque o senso de pertencimento entre mulheres é muito forte.”