Especialistas abordam o futuro da tokenização e quais produtos valem a pena no mundo cripto, durante o evento SPIW (Foto: Igor Markevich)
Nem tudo que reluz é token. Na corrida frenética para transformar ativos em código, é necessário diferenciar o que de fato faz sentido econômico e o que é apenas ruído tecnológico — como os caso dos NFTs, por exemplo, que entraram no hype (quando a expectativa excede a entrega) e hoje costumam dar prejuízo aos investidores.
Nesta quarta-feira (13), no São Paulo Innovation Week (SPIW), maior festival global de tecnologia e inovação, realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap, o especialista da Fenasbac Miguel Faria mediou uma conversa entre o CTO da Pods, Robson Silva, o superintendente da Anbima Marcelo Billi, além do diretor de digital assets da VERT Capital, Gabriel Braga.
Com programação até sexta-feira (15), são mais de 2 mil palestrantes convidados para os três dias do evento. Dentre eles, estão especialistas brasileiros e estrangeiros em áreas como ciência, saúde, educação, agronegócio, finanças, mobilidade, geopolítica, esportes, sustentabilidade, arte, música e filosofia, entre outros assuntos.
Apesar de controversa e incompreendida por algumas instituições do mercado, tokenizar um produto pode ajudar ou complementar alguma função, reduzindo os custos totais de determinado ativo. A grande diferença que a blockchain trouxe é a “programabilidade”, que tem como premissa o output como programa de saldo. A questão é poder ter interação entre diferentes tipos de ativos em um denominador comum. Mas “isso não significa ausência de segurança jurídica”, afirmou Braga.
“Você traz uma tecnologia com uma capacidade muito maior de expressão do que aquelas de propósito único”, defendeu o diretor da VERT.
Os palestrantes concordaram que o conceito não apenas dificulta a entrada de novos players, mas a compreensão dos próprios investidores. “A verdade é que ninguém entende completamente essa tecnologia. É difícil dizer que existe um especialista nisso. Então, o ambiente experimental serve justamente para entender os requisitos e os princípios das regras”, acrescentou Braga.
Tokenizar facilita para entrar na “corrida” do mercado
Billi explicou que hoje “o mercado de capitais não é tão acessível para as empresas”. Com a tokenização, é possível reduzir o custo de emissão mantendo a segurança e a tecnologia.
“No limite, essa tecnologia, em um futuro não muito distante, permitirá um mercado de capitais realmente global, possibilitando o acesso à poupança em qualquer região e jurisdição”, afirmou o superintendente da Anbima.
O especialista aproveitou a palestra para contextualizar o avanço da Anbima na tokenização de novos produtos. “Tentamos fazer o exercício de entender quais mudanças regulatórias poderiam incentivar esse processo — não conseguimos evoluir de verdade sem testar as inovações”, explicou. “Queremos entender como esses papéis podem ser executados na rede e se realmente é necessário um agente intermediário. Depois discutimos os papéis e a necessidade desses agentes.”
A Pods foi responsável por tokenizar o Tesouro, determinados investimentos imobiliários, um CRI e um TFI. Além disso, também foram contratados para desenvolver a privacidade do Drex, tudo graças aos laboratórios e testes. “Vejo a tokenização como o futuro, entrando em mercados caros e exóticos, com distribuição difícil”, disse Robson Silva, CTO da Pods.
“A tokenização reduz o custo do lado da emissão e vai democratizando a distribuição. Um FIDC [Fundo de Investimento em Direitos Creditórios] criado é interessante, mas ainda precisa de uma XP para distribuir”, acrescentou o especialista sobre como a mudança pode baratear a distribuição no futuro.
“Vejo muito hype em torno do uso da tecnologia, e não da tecnologia inserida no mercado em si”, disse o diretor da VERT. O maior desafio entre agentes e intermediários é fazer com que as regras sejam aceitas por todos. Braga acredita que em breve as infraestruturas de mercado irão conviver ao lado das blockchains, com espaço para migrar e expandir o mercado até que sua otimização seja viável “regulatoriamente” além do que já existe.
“A blockchain traz uma questão de comunidade, com iniciativas sobre novos modelos de operação. Isso constrói um ecossistema”, reiterou o especialista da Fenasbac.
Para finalizar o painel, o mediador levantou a questão sobre qual empresa e blockchain realmente funciona e carrega confiabilidade — a percepção impacta a aceleração do que pode ser tokenizado. “Acredito que blockchains privadas não funcionam, enquanto blockchains públicas têm um histórico de mais de 10 anos e empresas bilionárias criadas nesse ecossistema. Infraestruturas de redes privadas não funcionam”, finalizou Braga.