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Empréstimo consignado para CLT: alívio ou armadilha para o Brasil que trabalha?

Uma política criada para aliviar o bolso do trabalhador pode estar abrindo caminho para o endividamento crônico, a perda de saúde mental e um colapso silencioso no mundo do trabalho

Por Ana Paula Hornos

17/05/2025 | 5:00 Atualização: 17/05/2025 | 17:12

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Finanças (Foto: Adobe Stock)
Finanças (Foto: Adobe Stock)

Milhões de brasileiros com carteira assinada correram para pegar o “Crédito do Trabalhador”, popularmente conhecido como o consignado para CLT. Em poucos dias, R$10 bilhões foram liberados — com parcelas acessíveis, promessa de fôlego financeiro e a ilusão de que agora, sim, o Brasil está cuidando de quem produz. Mas o que parece socorro pode ser armadilha: juros que viram bola de neve, apostas online como destino final dos recursos, e uma população cada vez mais doente e endividada. Estamos ajudando… ou acelerando a queda?

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De boas intenções, o caminho do endividamento está cheio. O novo programa parece, à primeira vista, uma mão estendida para quem precisa — empréstimos rápidos, com garantia do FGTS, para milhões de brasileiros com carteira assinada. Mas quem olha só para a mão que entrega, e não para o bolso que recebe, pode cair na ilusão de que crédito é presente. Não é. É cilada.

Promessas de taxas em torno de 2,80% a 6% ao mês podem soar convidativas à primeira vista. Mas faça as contas: isso significa algo entre 50% e 100% ao ano. É como explico em um vídeo meu no TikTok que viralizou: cada real emprestado, com juros de 100% ao ano, pode virar R$1 milhão em 20 anos. Parece absurdo, mas é apenas a matemática exponencial fazendo seu trabalho — e uma dívida que cresce assim é, simplesmente, impagável.

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O FGTS, usado como garantia nesse crédito, sempre funcionou como um nudge — uma estratégia de arquitetura de escolhas que ajuda a população a poupar sem perceber. Um empurrãozinho invisível rumo ao futuro.

Agora, estamos desmontando esse seguro silencioso, trocando o longo prazo pelo imediatismo. Deveríamos estar fortalecendo essas ajudas comportamentais, não desmontando o que ainda funciona para proteger quem não consegue poupar sozinho.

Mais grave ainda: liberar crédito dessa forma é, na prática, expandir a base monetária. Parece técnico, mas é simples: mais dinheiro circulando, sem aumento proporcional na produção ou produtividade, gera inflação.

A roda gira mais rápido, mas não leva ninguém mais longe. Com isso, a tão sonhada redução dos juros pode virar miragem — e não apenas para quem pegou o crédito, mas para todo o país. Na verdade, gerando mais inflação através da expansão de crédito, a tendência da taxa de juros Selic é só aumentar.

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E o destino desse dinheiro? Não está indo para melhorar a casa, investir na formação ou resolver uma emergência médica. Boa parte está escorrendo pelas apostas online — tigrinhos, cassinos digitais, promessas de dinheiro fácil.

Um combustível explosivo: impulsividade, compulsão e endividamento. A saúde mental dos trabalhadores — já em crise — sofre mais um golpe. O resultado? Afastamentos, alcoolismo, burnout, improdutividade. Um ciclo cruel em que a dívida mina não só a renda, mas o propósito.

Estamos falando de um crédito que atinge diretamente a força de trabalho. E, ao contrário de fomentar dignidade, ele pode estar contaminando o sentido de realização que o trabalho deveria trazer. Quando o salário some antes de cair, o emprego vira prisão. Quando a dívida vira rotina, a motivação vira desânimo.

A NR01 já reconhece que saúde mental é obrigação legal das empresas. Mas como promover bem-estar se há incentivo ao descontrole financeiro?

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Precisamos olhar com mais coragem para o que estamos normalizando. Um país que endivida sua força de trabalho para girar a economia está cavando um buraco mais profundo do que o que deseja tapar. A boa intenção só vira boa política quando anda junto com educação, proteção e visão de longo prazo. Caso contrário, venderemos amanhã para pagar o ontem — e chamando isso de progresso.

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