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Se o governo não fosse o maior sócio das empresas, seria possível dobrar a remuneração dos colaboradores?

Empresas brasileiras gastam mais de 1.500 horas por ano apenas para cumprir obrigações tributárias. É tempo que não gera receita, não melhora produto, não atende cliente

Por Fabrizio Gueratto

16/04/2026 | 14:53 Atualização: 16/04/2026 | 15:04

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Por trás do estereótipo, empreender no Brasil é enfrentar custos elevados, incertezas e responsabilidades diárias para manter uma empresa de pé. (Imagem: Adobe Stock)
Por trás do estereótipo, empreender no Brasil é enfrentar custos elevados, incertezas e responsabilidades diárias para manter uma empresa de pé. (Imagem: Adobe Stock)

Do lado de fora, a narrativa é confortável. O empresário seria aquele sujeito que “manda”, “ganha” e “explora”. Um personagem quase folclórico, que lucra dormindo enquanto outros trabalham. A realidade, no entanto, costuma ser menos romântica e mais próxima de um campo de batalha, onde cada passo exige cálculo, e cada erro cobra um preço imediato. Abrir uma empresa no Brasil pode custar pouco. Em muitos casos, menos de R$ 1.000 para formalizar um CNPJ.

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Isso virou quase um argumento de que empreender é simples. Não é. Esse é só o ingresso para um jogo que começa de verdade no dia seguinte ao cadastro na junto comercial. Cerca de 60% das empresas encerram as atividades antes de completar 5 anos. Não falta vontade. Falta fôlego para sobreviver ao ambiente.

Contratar um colaborador, por exemplo, não significa apenas pagar uma remuneração. Significa assumir um compromisso que vai muito além do valor acordado. O custo total de um colaborador CLT pode superar em 80% o salário, somando INSS, FGTS, férias, 13º, encargos indiretos e obrigações acessórias. É uma equação pesada para quem ainda está tentando equilibrar receita e despesa.

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Qualquer falha, um cálculo errado, um processo mal conduzido, um desligamento mal estruturado, pode se transformar em uma ação trabalhista que consome tempo, dinheiro e energia. E não se trata de exceção. O Brasil segue como o país com maior volume de ações trabalhistas no mundo, reflexo de uma legislação complexa e, muitas vezes, interpretativa.

Enquanto isso, o empresário opera em um ambiente onde previsibilidade é quase ficção. De um lado, a obrigação inegociável de pagar salários em dia. Do outro, a realidade da inadimplência. Mais de 80% das famílias brasileiras estão inadimplentes. Na prática, isso significa que uma parcela relevante dos clientes simplesmente não paga.

O dinheiro que deveria entrar para cobrir a folha desaparece. O fluxo de caixa quebra. A operação trava. Mas a folha continua lá. O aluguel continua lá. Os fornecedores continuam cobrando. E o governo, naturalmente, também. Aliás, há um detalhe que resume bem a lógica do sistema. No Brasil, o imposto não espera o faturamento virar caixa. A nota fiscal foi emitida, o tributo já é devido. Pouco importa se o cliente pagou, atrasou ou sumiu. O governo não divide o risco, mas cobra participação no lucro.

O custo invisível que corrói produtividade e competitividade

Empresas brasileiras gastam mais de 1.500 horas por ano apenas para cumprir obrigações tributárias. É tempo que não gera receita, não melhora produto, não atende cliente. É tempo gasto para evitar problemas. Uma espécie de custo invisível que corrói produtividade e competitividade. O custo do crédito para empresas no Brasil segue entre os mais altos do mundo, pressionado por juros elevados e risco estrutural. Ou seja, quando a empresa precisa de fôlego, o financiamento vem caro. Muitas vezes, caro demais. O que deveria ser solução vira mais uma camada de pressão.

No meio disso tudo, existem pessoas. Colaboradores com expectativas legítimas, necessidades reais e dependência direta daquela operação. Gerir equipe não é apenas distribuir tarefas. É lidar com atrasos, faltas, licenças, afastamentos, produtividade irregular, fofoca, conflitos internos e decisões difíceis que, na maioria das vezes, não agradam ninguém.

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Há também o lado que raramente aparece. O empresário que deixa de retirar pró-labore para manter a folha em dia. Que cobre prejuízo com recursos próprios. Que assume risco pessoal para preservar o emprego de terceiros. Pequenas empresas respondem por mais de 80% das vagas de emprego criadas no país. Isso significa que, na prática, são elas que sustentam grande parte da renda da população.

Pressão tributária elevada, ambiente regulatório complexo, custo de capital alto, insegurança jurídica e um mercado consumidor que oscila entre retração e inadimplência. Tudo isso ao mesmo tempo. Responder pelo cliente que não paga, pelo fornecedor que pressiona, pelo colaborador que depende, pelo banco que cobra e pelo governo que não espera. É administrar risco em tempo integral, com margem curta e erro caro. Ainda assim, o debate público insiste em simplificar essa equação. Como se o empresário estivesse sempre do lado confortável. Como se o lucro fosse garantido e o risco, opcional.

O empresário brasileiro funciona, na prática, como um amortecedor da economia. Ele absorve inadimplência, antecipa impostos, financia a própria operação e sustenta empregos em um ambiente que, muitas vezes, trabalha contra ele. Quando tudo dá certo, a empresa segue. Quando dá errado, a conta não é dividida. Ela tem nome, CPF e endereço.

Reclamar do empresário é fácil. Difícil é entender o que significa manter uma empresa de pé no Brasil. Mais difícil ainda é fazer isso todos os meses, sem margem para erro, sem previsibilidade e, na maioria das vezes, sem reconhecimento. Mas é exatamente isso que mantém a economia funcionando. Na verdade, queria fazer um desafio para todos aqueles que enxergam o empresário como vilão. Por favor, abram uma empresa e vejam como não é fácil empreender.

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