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Colunista

Caso Madoff: o que aprendemos com a maior fraude financeira da história

Em conversa com Bernie Madoff em 2004, sócios da BPW/Arsenal não saíram convencidos da legalidade dos negócios

Por Fernando Barrozo do Amaral, sócio da Legend Wealth Management

31/01/2023 | 7:57 Atualização: 31/01/2023 | 7:57

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Bernie Madoff criou o maior esquema de pirâmide do mundo, em nível global. Foto: Michael Appleton/The New York Times
Bernie Madoff criou o maior esquema de pirâmide do mundo, em nível global. Foto: Michael Appleton/The New York Times

“Estou vendo que não estão convencidos. Façam o seguinte: falem com um sujeito que escreve mensalmente uma carta sobre o que eu faço. Ele fica em Boulder, no Colorado, e vai lhes receber com prazer.” Acabou assim a conversa que meus sócios à época, Roger Wright e Piers Playfair, tiveram com Bernie Madoff em 2004.

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Nós, na BPW, Bassini Playfair & Wright, posteriormente Arsenal Investimentos, uma das primeiras empresas de gestão de patrimônio do Brasil, sofríamos com a contrariedade dos clientes quando não indicávamos o investimento num fundo de Madoff ou, pior ainda, recomendávamos o resgate para aqueles que tinham.

Era raro sermos contratados para gerir o patrimônio de algum cliente e não encontrarmos em seu portfólio cotas do Fairfield Sentry, o mais conhecido veículo (feeder fund) através dos quais se podia acessar a estratégia supostamente desenvolvida por Madoff. Recomendar seu resgate era um problema recorrente para nós. Como justificar substituir um fundo que rende acima de 1% ao mês, praticamente sem volatilidade, por outro que rendia menos e balançava mais? Em qualquer comparação, o Sentry ganhava de lavada. Ficávamos com cara de bobo e o cliente desconfiava de nossa capacidade.

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O mundo financeiro se dividia em dois. De um lado, aqueles que achavam que tinha algo de errado nos resultados e nas práticas de Madoff e preferiam ficar longe. Do outro, os que podiam até desconfiar de que havia algo esquisito, mas se escudavam na ideia de que tinha muita gente boa no mesmo barco e que portanto não deveria ter nenhum problema. (É verdade que havia um terceiro grupo, dos que conheciam a fraude e compactuavam com ela, mas por tudo que se soube até agora, era um círculo bastante restrito.)

A estratégia que dizia utilizar, que chamava pomposamente de Split Strike Conversion, era relativamente simples. Envolvia a compra de ações, a compra de uma put fora do dinheiro para proteção contra quedas e uma venda de uma call, também fora do dinheiro, para baratear a estrutura. Não é necessária grande genialidade para se implementá-la, o que ninguém nunca conseguiu foi executá-la com resultados tão extraordinariamente bons.

(Num argumento muito usado por quem tinha conforto de investir ou distribuir algum dos fundos de Madoff, por ele ser o maior market maker da Bolsa de Nova York, responsável por entre 7 e 10% do volume negociado no mercado, enxergava o que era comprado e vendido na bolsa diariamente. Com isso, conseguia acertar mais do que os demais gestores que adotavam a mesma estratégia. Algo que sempre me pareceu um colossal conflito de interesses e altamente improvável de acontecer num mercado como o americano, ainda mais dessa forma aberta e conhecida por todos.)

Falar com Bernard L. Madoff não era tarefa fácil. Havia criado uma aura de inacessível e recebia somente os maiores clientes. Se investir com ele já era considerado um privilégio, obter uma conversa era coisa para poucos. Conseguimos, através de contatos que tínhamos, uma reunião em seu escritório em Nova York, da qual, Roger e Piers, como o próprio percebeu, não saíram convencidos.

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Aceitando a sugestão de Madoff, Piers ainda pegou um avião e foi até Boulder encontrar o tal sujeito. Esse falou bastante, tentou explicar o que era feito, mas também não conseguiu persuadir seu interlocutor de que havia ali algo diferente, que justificasse aqueles retornos.

Quem dispuser de 4 horas de seu tempo para assistir à série da Netflix “Madoff: o Monstro de Wall Street” entenderá como os resultados foram obtidos. Ou melhor, não foram. Era tudo um gigante esquema de pirâmide (ou Ponzi scheme). Madoff nunca investiu um centavo de seus clientes em nada, somente pagou os que saíam com o dinheiro dos que entravam, como em qualquer esquema do gênero. O que ele teve de único foi a escala, global, a duração, por décadas, e a extensão dos estragos e prejuízos provocados, de U$ 19,1 bilhões, algo sem precedentes. A série, extremamente bem documentada, traz uma descrição primorosa do caso e das tragédias que provocou.

Do nosso lado, na BPW/Arsenal, após as reuniões em Nova York e no Colorado, continuamos não investindo no Fairfield Sentry ou em veículos semelhantes e seguimos tendo que aplacar a insatisfação de clientes. Convencemos, no entanto, vários a resgatar posições que detinham no fundo e salvamos valores relevantes.

A lição que fica é que nada substitui o due diligence feito de forma cuidadosa, profunda e independente. Era difícil chegar à conclusão de que Madoff administrava um grande esquema de pirâmide, mas era razoavelmente fácil levantar uma série de pontos de conflitos de interesse (como a contabilidade e custódia próprias), fraquezas operacionais (como ausência de auditoria) e inconsistências (resultados excepcionais sem explicação). Para muitos, foi o suficiente para não investir. Para outros, não fez a diferença que deveria. O que parece bom demais para ser verdade, normalmente não é.

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* Fernando Barrozo do Amaral é sócio da Legend Wealth Management

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