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Colunista

O custo por trás da indústria da moda é maior do que você pensa

Para que um setor consolidado se transforme, a mudança do lado de quem consome é necessária e urgente

Por Fernanda Camargo

17/07/2021 | 7:00 Atualização: 16/07/2021 | 11:41

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Galpão Logístico. Foto: JF Diorio /AE
Galpão Logístico. Foto: JF Diorio /AE

(Fernanda Camargo e Camilla Reichmann) – “A gente vem da terra e volta para a Terra. A gente é Natureza.” Flavia Aranha.

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O mundo consumista em que vivemos hoje nos cegou. Aquilo que não vemos ou não sabemos, não sentimos. Não queremos saber de onde veio ou como foi feito, queremos apenas saber qual é o preço. Todo processo produtivo consome recursos naturais e humanos de maneira extraordinária.

Com o aumento da concorrência, o preço se tornou cada vez mais relevante e para conseguir manter um preço baixo, alguém em algum lugar do mundo está trabalhando por muito pouco ou existe alguma tecnologia substituindo o ser humano.

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Quem não quer estar “na moda”, bem-vestido, chique e por um preço acessível? O baixo custo para o consumidor tem um grande impacto sobre a sustentabilidade, tem impacto em mudanças climáticas, efeitos adversos sobre a água e seus ciclos, poluição química, perda de biodiversidade, uso excessivo ou inadequado de recursos não renováveis, geração de resíduos, efeitos negativos sobre a saúde humana, efeitos nocivos para comunidades produtoras.

Impacto ambiental

O conceito de fast fashion surgiu na década de 90, visando suprir a necessidade de um consumidor impaciente, ágil e conectado. Em uma economia em expansão, impulsionada pelo consumo excessivo e individual, o modelo fast fashion reproduz coleções de grandes marcas de forma rápida, constante e com baixo custo.

Segundo a Forbes, em média, peças fast fashion são utilizadas menos de cinco vezes e geram 400% mais emissões de carbono do que roupas de marcas slow fashion, usadas aproximadamente cinquenta vezes.

De acordo com o report da Ellen MacArthur Foundation, além do carbono emitido no processo de produção, o descarte da indústria, dado o ciclo de vida curto das coleções, é imenso e anualmente em torno de US$ 500 bilhões são perdidos com o descarte de roupas nos aterros. Para se ter uma ideia, na criação de peças, 25% de tudo que é produzido vira lixo, isso sem falar no seu descarte, onde praticamente nada tem sido reaproveitado.

A indústria da moda é responsável por 8% da emissão de gás carbônico na atmosfera, ficando atrás apenas do setor petrolífero. O poliéster, uma das fibras mais utilizadas no mercado fashion, é responsável pela emissão anual de 32 das 57 milhões de toneladas globais.

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O que poucos sabem é que são necessários mais de 200 anos para que essa fibra se decomponha. Atualmente, o mercado utiliza apenas 14% de fibras recicladas, que possuem uma pegada de carbono significativamente menor do que as convencionais.

A Plastic Insights reportou que em 2016 o poliéster respondeu por 55% do mercado global de fibra, seguido pelo algodão com pouco mais de um quarto. A Ocean Conservancy afirma que a cada ano oito milhões de toneladas de resíduos plásticos entram nos oceanos. Dizem que nós que consumimos peixes e frutos do mar ingerimos o equivalente a um cartão de crédito por semana em plástico.

Outra fibra conhecida é a viscose, que é produzida principalmente por meio da extração da celulose encontrada na madeira de árvores de rápido crescimento, onde cerca de 30% é proveniente de florestas nativas e ameaçadas de extinção. Segundo entrevista de Nicole Rycroft da Canoply, organização que luta pelas florestas, para o The Guardian, “As florestas tropicais antigas e ameaçadas de extinção estão sendo invadidas, desmatadas e transformadas em camisetas e vestidos”.

A Indonésia, o Brasil e o Canadá são os grandes exportadores de polpa de viscose para a China. Além disso, a fabricação de viscose implica o uso de vários produtos químicos que acabam sendo despejados no meio ambiente sem tratamento prévio.

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Segundo a Associação Brasileira de Indústria Têxtil (ABIT), no Brasil a indústria da moda gera 175 mil toneladas de resíduos têxteis por ano. Em 2020, 178 mulheres foram resgatadas de oficinas em São Paulo exercendo trabalho escravo. Há uma grande concentração de imigrantes e refugiados, principalmente latino-americanas nesta etapa da produção.

Impacto social

O impacto negativo do setor da moda não atinge apenas o meio ambiente, sendo profundo na esfera social. Grande parte das empresas terceirizam sua produção e as terceirizadas também “quarteirizam” o trabalho, buscando minimizar os custos de mão de obra. Segundo a World Trade Statistical Review, a Ásia é a principal exportadora e produtora do mercado têxtil, com destaque à China, Índia, Taiwan e Paquistão.

O crescimento da China gerou um pequeno aumento no nível salarial e isso fez com que algumas marcas mudassem o foco rapidamente para países como Bangladesh, Vietnã e Camboja, onde a competição por trabalho mantinha os salários baixos e as margens de lucro mais altas. Resultado? Milhares de pessoas em países subdesenvolvidos expostas a condições subumanas de trabalho.

Um estudo conduzido pela Boston Consulting Group chamado Pulse of the Fashion Industry, de 2019, mostra que até 2030 a indústria global de vestuário e calçados terá crescido 81%, chegando a 102 milhões de toneladas de roupas e acessórios, exercendo uma pressão sem precedentes sobre os recursos do planeta. A indústria da moda precisa reagir e trazer soluções sustentáveis com rapidez.

Bons exemplos

Um dos bons exemplos que vai na contramão da indústria é a Patagônia, fundada na Califórnia pelo escalador, surfista e ambientalista Yvon Chouinard. A Patagônia tem um olhar de sustentabilidade para a cadeia toda. A preocupação vai desde a plantação nos campos de algodão até o bem-estar dos funcionários e com toda a cadeia de produção.

A Patagônia foi a primeira empresa dos Estados Unidos a vender casacos sustentáveis. No início, muitos achavam que a ideia de vender peças sustentáveis e mais caras não daria certo, mas a conscientização das novas gerações e o pedido por produtos com propósito era o que a empresa precisava para deslanchar. A história começou nos anos 50 com a fabricação e venda de equipamentos de escaladas e hoje a empresa vende roupas e acessórios para esportes radicais, emprega mais 2.200 pessoas, possui escritórios em 6 países e fatura em média US$1 bilhão anualmente.

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Yvon Chouinard, seu fundador, ficou amplamente conhecido em 2011, depois de uma campanha pedindo para que as pessoas não comprassem seus produtos. A ideia era mostrar que o consumo exagerado é nefasto para o planeta.

Com a repercussão da antipropaganda, a empresa cresceu 30% naquele ano. Yvon escreveu sobre a história e a cultura da empresa nos livros The Responsible Company e Let My People Go Surfing, onde detalha a política da empresa perante seus funcionários e conta sobre a paixão dos fundadores pela natureza, respeito às pessoas, e como vender roupas virou uma maneira de potencializar o ativismo da companhia.

O fato de as lavouras de algodão estarem entre as mais agressivas para o meio ambiente sempre foi uma preocupação para Yvon. Assim, mesmo com prejuízo financeiro nos primeiros dois anos, a empresa decidiu que a partir de 1996 iria usar 100% de algodão orgânico em suas roupas, ainda que custasse o triplo do preço em relação ao algodão tradicional. O orgânico agride menos o planeta, mas ainda não é o ideal, então, a empresa começou a cultivar o algodão de forma regenerativa. A produção regenerativa ocupa o mínimo espaço possível, reveza culturas para que o solo se mantenha rico e promove parcerias com comunidades locais.

Outro exemplo de uma grande marca é a Adidas que em 2020 passou a utilizar poliéster reciclado em 50% de seus produtos. Até 2024 pretende chegar a 100%. A empresa também se comprometeu a reduzir 30% da emissão de carbono em 2030 (em comparação a 2017). Em 2050 a Adidas pretende alcançar a neutralidade em impactos climáticos.

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A Stella McCartney também acordou. Já usa algodão orgânico, náilon reciclado e viscose sustentável. Recentemente lançou um jeans 100% biodegradável em parceria com a italiana Candiani Denim.

Mas não precisamos cruzar o oceano para encontrar marcas com impacto positivo no planeta e na sociedade. Aqui no Brasil, a Renner passou a utilizar o algodão com certificação BCI (Better Cotton Initiative). A BCI é uma organização global sem fins lucrativos que avalia e certifica o processo produtivo do algodão, atentando para práticas como o uso eficiente da água, a saúde do solo, a manutenção do habitat e a qualidade final da fibra, além de prezar pelas relações justas de trabalho.

Com sede na Suíça, eles buscam melhorar a produção mundial do algodão para quem o produz. E ainda contam com um sistema online que controla o percurso dessa matéria-prima até a chegada à confecção. Até 2025 a Renner pretende usar este algodão em toda sua produção. A Renner também é membro do movimento Sou de Algodão, iniciativa da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), voltada à conscientização do consumidor final para as vantagens da fibra natural.

No final de 2019 a Arezzo anunciou a nova plataforma Arezzo Futuro, que contempla uma série de mudanças, transformando desde o sistema de gestão ambiental do grupo, até produtos com atributos sustentáveis e desafios de embalagem. O primeiro passo para essa transformação foi o lançamento do tênis ZZ Bio, feito com fio de poliamida biodegradável, que ao contrário das fibras sintéticas, é totalmente eliminado em menos de três anos, quando descartado de forma correta em aterros sanitários. O projeto tem como objetivo posicionar o grupo como porta-voz da nova agenda de sustentabilidade no mercado de calçados.

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Pequenas empresas vêm se destacando no cenário nacional e mundial, com destaque, também no Brasil, a marca de roupas Flavia Aranha, que é um exemplo incrível de sustentabilidade, utilizando matérias primas naturais e tingimento por meio de tinturas extraídas de cascas de árvores, frutos, folhas e raízes. Antigamente, muitos povos usavam recursos naturais para tingimento têxtil até identificarem que plantas davam cor aos tecidos, porém com o surgimento dos corantes sintéticos, muito desse conhecimento ficou esquecido.

Atenta aos detalhes, a marca propõe o encontro entre os conhecimentos ancestrais e inovações tecnológicas visando promover impacto positivo em todos os pontos da cadeia. A marca mapeia materiais usualmente descartados e promove a incorporação destes itens na criação de novos produtos, utilizando um olhar de design circular.

Outro exemplo com foco no social é o Movimento Eu Visto o Bem, que nasceu de uma empreendedora chamada Roberta Negrini. Seu sonho era criar um negócio que gerasse lucro e ao mesmo tempo fosse uma máquina de transformação de pessoas com o mínimo impacto possível no meio ambiente. A empresa produz roupas e artigos têxteis a partir de rejeitos de tecidos e usa somente mão de obra de mulheres encarceradas no sistema prisional ou em situação de vulnerabilidade social, “invisíveis” aos olhos da sociedade.

O movimento oferece treinamento, condições de trabalho, geração de renda e um salário justo pelo trabalho realizado. Resultado: 70% das mulheres que integram o programa não voltaram a praticar crimes, sem falar na geração de renda familiar e nos demais benefícios sociais e ambientais gerados.

Em tempos marcados pela busca obsessiva por redução de custos, e crescimento exponencial, é incomum encontrar empresas que entendam que é necessário pagar mais para agredir menos o planeta e as pessoas e que, se para existir de maneira sustentável é preciso crescer menos, isso não deveria ser um problema, e sim uma oportunidade.

É inegável que o principal agente na transformação da indústria da moda é o próprio consumidor, cego pelas vitrines, promoções e tendências, deixa de lado todo o impacto negativo em troca do glamour. Para que uma indústria consolidada se transforme, a mudança do lado de quem consome é necessária e urgente.

A verdadeira sustentabilidade esta em pensar em soluções menos baratas e que sejam atemporais, para além da estética e que empregam a sustentabilidade para além do discurso. Ser chique é cuidar do planeta e das pessoas.

____________________________________________________________________________________________________

Referências bibliográficas utilizadas para este artigo:

Making climate change fashionable the garment industry takes on global warming. Forbes. Dezembro 2015.
A new textiles economy: Redesigning fashion´s future, Ellen MacArthur Foundation. 2017. 
In the textile industry, old is increasingly becoming new. UN Enviroment Programme. Fevereiro 2021.
Preferred Fiber & Materials Market Report. Textile Exchange. 2020
Polyester Properties, Production, Price, Market, and Uses. Plastics Insights. 2016.
The Problem with Plastics. Ocean Conservancy. 2020
Deforestation for fashion: getting unsustainable fabrics out of the closet. The Guardian. 2014.
Trabalho escravo e gênero: quem são as trabalhadoras escravizadas no Brasil? Escravo nem pensar. 2020.
Highlights of world trade in 2019. World Trade Statistical Review. 
Pulse of Fashon Industry. 2019. 

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