Homem preocupado: FIDCs costumam ter mais salvaguardas do que fundos de crédito tradicionais na crise (Foto: Adobe Stock)
Assim como nos fundos de crédito privado, o cenário econômico pressionado por altas taxas de juros tem gerado impacto nos Fundos de Direitos Creditórios (FIDCs). Entre 59 recuperações judiciais anunciadas entre março e maio deste ano, analisadas por Rafael Nogueira, gestor de crédito da Chimera Capital, 15 delas têm FIDCs entre credores.
As reestruturações somam R$ 8,1 bilhões, enquanto o patrimônio dos 87 FIDCs comprometidos com elas totalizam R$ 750 milhões, o equivalente a 9,3% do total. Nogueira conseguiu confirmar que 54 deles têm créditos concursais, o que significa que são diretamente afetados pela reestruturação das empresas.
O FIDC é um fundo que compra dívidas a receber de empresas, como duplicatas, boletos, parcelas de cartão, financiamentos ou mensalidades, e transforma isso em investimento para os cotistas. Antes restrito a investidores qualificados (com mais de R$ 1 milhão para investir), o acesso aos FIDCs foi ampliado ao investidor de varejo após a entrada em vigor da Resolução 175 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), em outubro de 2023. Segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) de março, 63 mil cotistas já pertencem ao varejo.
Com o avanço do mercado de capitais no financiamento corporativo, esse produto passou a ocupar espaço como alternativa ao crédito bancário para médias empresas brasileiras, segmento antes dominado pelos bancos. Por isso, é natural que comecem a ganhar força, ter garantias mais fortes e atrair a atenção de gestoras acostumadas a lidarem com ativos problemáticos e que auxiliem na recuperação da empresa em troca de um rendimento maior.
Em média, as operações dos FIDCs representam apenas 2,88% do total da dívida de cada empresa em recuperação judicial(RJ). Ou seja, eles costumam ser diversificados, assim como os fundos de crédito tradicionais. Mas existe uma grande variação.
Essa variação é puxada principalmente pelos FIDCs especializados em ativos problemáticos, conhecidos no mercado como special sits. Voltados a investidores profissionais, esses fundos — cerca de 25 no levantamento — podem concentrar até 30% da dívida de uma empresa em recuperação judicial.
Entre eles, por exemplo, está o ASA, presente na RJ da Rumos Distribuidora. Com uma operação de R$ 11,2 milhões, a dívida corresponde a 6% do valor total. Procurada pelo E-Investidor, a empresa não comentou.
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Já o Cupertino, presente na RJ da Provider, é credor de R$ 9 milhões, equivalente a 5% da dívida da empresa. Procurado, Roberto Halpern, CEO da Cupertino Capital, aponta que seu fundo, que tem 40 cotistas, comprou créditos da Provider com desconto após a primeira recuperação judicial da empresa de telemarketing. O objetivo era resolver a crise da empresa com dinheiro novo e ajudando a gestão com expertise. A empresa pagou tudo em dia, mas posteriormente perdeu dois contratos importantes.
“Não entramos na operação para enfrentar uma recuperação judicial e perder dinheiro. Nessas situações, os fundos precisam fazer provisionamento, o que é ruim. Mas não é necessariamente o fim da linha”, conta o executivo.
O impacto entre os FIDCs menores pode ser maior quando um fundo começa a ser listado como credor em mais de uma recuperação judicial. É o caso do One7, listado em três recuperações judiciais: do Grupo Alpha/Nova Noiva (R$ 2,6 milhões), Autem (R$ 1 milhão) e Brinquedos Estrela (R$ 271 mil).
Já o Premium da Solis, presente na reestruturação da Root Agronegócio (R$ 2,5 milhões) e da Provider (R$ 1,9 milhão), e o Aurum, da M8, presente na recuperação judicial da Autem (R$ 151 mil) e do Grupo Alpha/Nova Noiva (R$ 397 mil), aparecem em dois casos.
O Credit Partners, Lotus Performance, Opera e Evolut são outros exemplos que aparecem em ao menos dois casos.
A One7 aponta que, em função da pulverização dos seus ativos, os valores afetados pelas três recuperações judiciais não representaram impacto na carteira do fundo. O fundo Evolut diz que está tomando as medidas necessárias para a recuperação de crédito da Brinquedos Estrela e diz que o valor do débito não afeta suas operações.
“Nenhuma recuperação judicial é bem vinda. Investimos cada vez mais em tecnologia e estrutura para evitarmos isso. Temos na nossa política de crédito regras de concentração que evitam exposições relevantes e preservam o bom andamento do fundo.”
Apesar de estar listado na recuperação judicial do grupo varejista Alpha/Nova Noiva como credor de R$ 397 mil da empresa, o Aurum Multisetorial da M8 já recebeu quase a totalidade dos recebíveis da empresa: faltam apenas R$ 2 mil, dizem os sócios da gestora. Ou seja, a recuperação judicial não teve praticamente nenhum impacto sobre o fundo, segundo Michel Rubin, gestor de crédito da M8.
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Rubin aponta que ainda que fosse afetado, o fundo tem outras proteções: sua carteira é composta por 6 mil empresas tomadoras de crédito, sua estrutura de subordinação, ou seja, dinheiro dos originadores do crédito investido com o intuito de garantir um esforço maior para recuperar eventualmente os créditos, é equivalente a 30% do seu patrimônio (padrão máximo do mercado, que oscila entre 10% e 30%). Por fim, a empresa trabalha apenas com recebíveis performados (cedidos pela empresa ao fundo) – em uma recuperação judicial, eles continuam sendo recebidos.
Na reestruturação da Brinquedos Estrela, a M8 tem três fundos com operações de recebíveis com um patrimônio líquido de R$ 1,5 bilhão, sendo que os recebíveis dos três FIDCs somam R$ 8,1 milhões e, portanto, representa 0,5% do PL. Também destacam que R$ 7,1 milhões possuem garantia de alienação fiduciária, que não é atingida pela recuperação judicial. Dessa forma, o valor em risco cai para R$ 1,1 milhão, representando 0,07% do patrimônio líquido dos fundos. “O impacto é quase zero”, afirma.
Procurados, os fundos da Solis, Credit Partners, Lotus Performance e Opera não enviaram um posicionamento.
Cautela maior
Se os portfólios dos fundos continuam majoritariamente saudáveis é porque há uma postura mais cautelosa do lado das gestoras. Neste ano, os portfólios não vêm se expandindo como no ano passado. Delano Macedo, sócio da Solis, aponta que a casa tem negado mais operações.
“Existe muita demanda do produto pelos investidores, e muitas empresas buscam dinheiro emprestado com os fundos. Quando vemos que a empresa já tem 15 FIDCs em sua estrutura, não entramos”, diz Macedo.
Na recuperação judicial da Brinquedos Estrela, chamou a atenção que 25 FIDCs são protagonistas da lista de credores. Juntos, os FIDCs respondem por mais de 50% da dívida da empresa (R$ 112 milhões), segundo um levantamento feito pela consultoria de reestruturação Excellance. Não é um caso isolado. Na reestruturação da Provider Soluções, FIDCs somam 58% do passivo financeiro identificado.
Nogueira, da Chimera, aponta que quando existe uma “dezena de FIDCs” na estrutura de capital da empresa ela indica capitalização via cessão de recebíveis como última linha antes da insolvência. Na definição de Max Mustrangi, da Excellance, é como se os FIDCs atuassem, nesses casos, como um “cheque especial” quando as outras alternativas de empréstimos já não deram certo.
Rubin, da M8, aponta que esse é um problema estrutural. A gestora vem evitando conceder crédito para empresas que já pediram crédito para outro FIDC da casa, mas não consegue saber se já pediu crédito para outros fundos. “Não conseguimos ter todas as informações.”
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Na M8, a inadimplência dos recebíveis dos fundos aumentou de 3% no segundo semestre do ano passado para 4,2% neste ano. “Monitoramos a qualidade do crédito de forma intensa e evitamos dar crédito para quem conhecemos menos”.
Macedo, da Solis, pondera que os fundos costumavam estar mais envolvidos em recuperações judiciais há três anos, quando ainda não eram abertos para o pequeno investidor.
“É perceptível o aumento da profissionalização do mercado. Não existe uma profusão de recuperações judiciais e não estamos sentindo isso nas carteiras dos nossos fundos”, diz Macedo, da Solis
Ou seja, a inadimplência, assim como o número de reestruturações, não está fugindo do que estava previsto na modelagem dos fundos, completa o executivo, e “faz parte do jogo”.