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Colunista

Mercados sofrerão impactos do novo jogo das alianças globais

Geopolítica mundial polarizada traz à tona riscos de conflitos armados, sanções e espionagem. Entenda

Por Thiago de Aragão

10/04/2024 | 14:56 Atualização: 10/04/2024 | 21:33

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Mapa mundi fragmentado (Foto: Adobe Stock)
Mapa mundi fragmentado (Foto: Adobe Stock)

A dinâmica geopolítica mundial está cada vez mais polarizada, polarização essa evidenciada por uma divisão clara entre um bloco liderado pelos Estados Unidos, que inclui nações como Japão e Filipinas, e outro encabeçado pela China, com aliados como Rússia, Coreia do Norte, Paquistão e Venezuela. Essa dicotomia reflete não apenas tensões ideológicas e políticas, mas também implicações profundas para os mercados financeiros globais.

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A Guerra Fria do século XX estabeleceu um mundo dividido e categorizado por ideologias, em que cada lado buscava se sobressair economicamente para expandir sua influência, incentivando alianças econômicas e parcerias comerciais. A China desempenhava um papel importante, porém não central, alinhada ao bloco oriental, mas trazendo uma perspectiva, principalmente frente aos EUA, de que seria o exemplo máximo da transição espontânea do comunismo para a democracia capitalista.

  • Leia também: “Ritmo de corte de juros diminuiu devido ao cenário externo”, diz UBS

Na atual “nova” Guerra Fria, os contornos são mais complexos, os objetivos menos claros e os conflitos, indefinidos e frequentemente resultam em prejuízos compartilhados, impactando negativamente o crescimento econômico de todos os envolvidos.

Na era atual, a China emergiu como uma potência de influência e tamanho significativos, buscando posicionar-se estrategicamente entre a Rússia e o Ocidente, enquanto o próprio Ocidente, embora unido sob a bandeira humanitária, mostra-se cindido em seus interesses econômicos e com graves problemas de unidade doméstica entre seus próprios cidadãos.

Alianças rivais

Recentemente, a visita do primeiro-ministro japonês aos Estados Unidos destacou a crescente cooperação entre esses países, fortalecendo uma aliança que visa contrapor a ascendência chinesa na região Indo-Pacífico. Nesse encontro, foram discutidos assuntos como segurança regional, comércio e investimentos, assim como o compromisso conjunto em manter um Indo-Pacífico livre e aberto.

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Esta visita não é um evento isolado, mas parte de uma estratégia mais ampla que visa consolidar um bloco robusto capaz de contrabalançar as ambições territoriais e econômicas da China.

  • Confira ainda: Como você pode ganhar dinheiro apostando no sobe e desce da Selic

A aliança entre EUA, Japão e Filipinas é emblemática dessa estratégia. Este trio, reforçado por laços históricos e preocupações de segurança comuns, está engajado em uma colaboração militar e econômica profunda. Exercícios militares conjuntos, acordos de defesa e cooperação em tecnologias emergentes são aspectos dessa aliança que visa proteger seus interesses estratégicos contra a influência chinesa, especialmente em questões como a soberania de Taiwan e as disputas no Mar do Sul da China.

Em contrapartida, a reunião entre a China e a Rússia simboliza um esforço concertado para desafiar a hegemonia ocidental e estabelecer um contrapeso ao poderio americano. Nesta reunião, os líderes chineses e russos expressaram seu apoio mútuo e criticaram as sanções e políticas ocidentais, buscando fortalecer suas relações econômicas, militares e tecnológicas. Essa colaboração representa uma tentativa de criar uma frente unificada que possa influenciar a ordem mundial e redefinir o equilíbrio de poder global.

Riscos geopolíticos

Essas dinâmicas complexas introduzem riscos geopolíticos significativos para os mercados financeiros, incluindo:

Risco de conflitos armados

O perigo de um conflito armado, particularmente na região do Indo-Pacífico, possui o potencial de desestabilizar gravemente as rotas logísticas e a produção de bens manufaturados devido a interrupções na distribuição de matérias-primas. A tensão na região não só ameaça a segurança global, mas também tem implicações diretas para a economia mundial.

Países como o Brasil se tornariam extremamente vulneráveis, visto que suas economias, fortemente dependentes de exportações e importações, poderiam sofrer com a disrupção das cadeias de suprimento. Esse cenário desencadearia uma série de eventos que afetariam negativamente as trocas comerciais globais, intensificando a incerteza econômica e a instabilidade.

Fragmentação econômica

A fragmentação econômica já se manifesta de forma constante no cenário global. Enquanto países “menos relevantes”, como o Brasil, ainda não percebem significativamente esse impacto, não sendo vistos como estratégicos na dinâmica geopolítica, a realidade é diferente para nações sem alternativas, como o Irã e a Venezuela, ou para aquelas que buscam liderar o processo, como EUA, Europa e China.

Para estes últimos, a fragmentação econômica representa um desafio imediato, pois estão na vanguarda das tensões geopolíticas, o que tende a impactá-los diretamente e mais rapidamente.

Guerra comercial e sanções

A expectativa é que a guerra comercial se intensifique no futuro próximo, com as sanções tornando-se um mecanismo comum nas relações internacionais. Será cada vez mais usual observar acordos bilaterais que excluem interações com terceiros países. Essas sanções, transformando-se em armas universais, prejudicarão principalmente os países menores, que se veem enredados em um jogo global em que são mais afetados pelas decisões e pelos conflitos das grandes potências.

Instabilidade em países em desenvolvimento

A instabilidade já existente em países em desenvolvimento tende a se agravar, pois essas nações estão cada vez mais atreladas às decisões políticas e econômicas das grandes potências, como EUA, China, Rússia e União Europeia. Essa dependência os torna suscetíveis às oscilações e direcionamentos dos países “matrizes”, levando a uma instabilidade e incerteza crescentes.

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A vulnerabilidade na cadeia de suprimentos e distribuição, que pode ser interrompida com maior facilidade e frequência, afetará particularmente nações com gestão frágil e maturidade política limitada.

Espionagem e cibersegurança

A espionagem, tanto física quanto cibernética, está em ascensão, caracterizando-se atualmente como uma fase de “colheita” de informações. Esses dados, ainda não utilizados em sua plena capacidade desestabilizadora, preveem um cenário futuro com aplicação de tecnologias avançadas, como computação quântica, inteligência artificial e redes de satélites.

Além disso, tais informações podem ser usadas em extorsões e tentativas de chantagear indivíduos, revelando uma dimensão estratégica e perigosa da coleta de dados em massa.

Novo realinhamento global

A atual dinâmica geopolítica está recalibrando o mercado financeiro, destacando uma vulnerabilidade negligenciada nas cadeias globais de suprimento energético. A era da Guerra Fria 2.0 nos empurra para um cenário no qual as commodities ressurgem como peças-chave no tabuleiro econômico, limitando a eficácia das ferramentas convencionais dos bancos centrais contra choques externos.

Este contexto reavalia o conceito de refúgios seguros, prejudicando os ativos de mercados emergentes e reposicionando o dólar americano, que já supera moedas europeias e o iene japonês.

Para os mercados emergentes, a força do dólar e o decréscimo na disposição global ao risco desenham um futuro desafiador. Países dependentes de importação de alimentos e combustíveis estão na linha de frente da vulnerabilidade.

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A Guerra Fria 2.0 propõe uma fragmentação que, paradoxalmente, pode melhorar as oportunidades de diversificação, mas com uma advertência crítica: a alta dos riscos políticos. Nações alinhadas com a China, como Rússia e outros, correm o risco de serem atingidas por sanções secundárias. Portanto, apesar das vantagens inerentes à diversificação internacional, o atual cenário geopolítico exige uma abordagem meticulosa e cautelosa na reavaliação das oportunidades de investimento.

  • Petrobras (PETR3;PETR4): com possíveis riscos políticos, vale a pena ter a ação?

Assim, a visita do primeiro-ministro japonês aos Estados Unidos e o encontro sino-russo não são meros atos diplomáticos; eles marcam o início de uma nova era de realinhamento global, uma mudança tectônica na ordem mundial que desafia os paradigmas estabelecidos. Este panorama transformado vai exigir uma vigilância rigorosa e uma abordagem estratégica arguta dos principais atores globais.

No xadrez geopolítico e financeiro atual, navegar com perspicácia e determinação pelas águas turbulentas deste novo mundo não é apenas necessário, mas uma questão de sobrevivência estratégica e de influência no cenário internacional.

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