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Comportamento

Movimento Black Lives Matter perde dinheiro e é alvo de críticas

Membros do grupo pedem mais transparência e um maior protagonismo na tomada de decisões

Por E-Investidor

27/05/2022 | 17:33 Atualização: 27/05/2022 | 17:35

Movimento varreu as ruas dos Estados Unidos em meados de 2020 após a morte de George Floyd – Foto: REUTERS/Brian Snyder
Movimento varreu as ruas dos Estados Unidos em meados de 2020 após a morte de George Floyd – Foto: REUTERS/Brian Snyder

(Nicholas Kulish, The New York Times) – No trágico e turbulento ano de 2020, com protestos reivindicando justiça racial motivados pelo assassinato de negros por policiais, a Fundação Black Lives Matter Global Network arrecadou US$ 90 milhões, em grande parte com pequenas doações de cidadãos comuns.

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Uma declaração fiscal recente do grupo mostra que, em meados do ano passado, mais da metade desse dinheiro havia sido doada para organizações menores ou gasto com consultores e imóveis, deixando a fundação com US$ 42 milhões em ativos.

As finanças da fundação têm recebido críticas tanto dos participantes do movimento Black Lives Matter como de seus opositores. Muitos grupos locais que fazem parte do movimento pediram mais transparência e um maior protagonismo na tomada de decisões, assim como mais dinheiro para as organizações lideradas por ativistas em que se está de fato fazendo algo.

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Ao mesmo tempo, os opositores do Black Lives Matter tentaram retratar os gastos de um dos fundadores do grupo como prova de má gestão generalizada de uma maneira que parece destinada a contestar a validade da causa da justiça racial e do grupo.

“Ninguém esperava que a fundação crescesse nesse ritmo e nessa escala”, disse Cicley Gay, presidente do conselho de administração, em um comunicado. “Agora, estamos dedicando tempo para construir uma infraestrutura eficiente para administrar a maior organização negra, abolicionista e filantrópica que já existiu nos Estados Unidos.”

Cicley é um dos três novos integrantes do conselho que o grupo anunciou no mês passado. Em uma entrevista, Shalomyah Bowers, outro novo participante do conselho, disse que a forma como os documentos foram descritos revelam uma organização se reorganizando para o longo prazo.

“Como um novo conselho, estamos criando políticas que não existiam, infraestrutura operacional e administrativa que não existiam. Estamos deixando claro para o povo negro que somos uma instituição e que estamos aqui para ficar”, disse Bowers. “Para fazer isso, precisamos demonstrar que nossa situação financeira está em ordem.”

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Durante o ano fiscal coberto pela declaração fiscal, o único membro do conselho com poder de voto era Patrisse Cullors, uma das fundadoras do Black Lives Matter. Embora essa estrutura seja legal em Delaware, onde o grupo está registrado, especialistas em instituições de caridade dizem que ela está bem distante da prática recomendada, sobretudo para um grupo com dezenas de milhões de dólares em seus cofres.

“Imagine que você tem o equivalente a um navio de cruzeiro sem ninguém no comando. Você tem uma organização enorme, quantias enormes de dinheiro, nenhuma estrutura, nenhuma responsabilidade, nenhuma equipe”, disse Ashley Yates, ativista nascida em St. Louis e que participou do Black Lives Matter nos primeiros anos da fundação, mas desde então tem feito críticas a respeito da falta de transparência dentro do grupo. “Quem toma a decisão sobre quem assina os cheques?”

Patrisse, que deixou o cargo de diretora-executiva em maio de 2021, disse em entrevista à Associated Press que, dentro do grupo, eles costumavam se referir à experiência dos últimos anos como “construir um avião enquanto se pilotava ele”.

“O único arrependimento que tenho com o Black Lives Matter é desejar que pudéssemos ter parado por um ou dois anos, apenas para não fazer nenhum trabalho e focar apenas na infraestrutura”, disse ela na entrevista. Grande parte das críticas externas ao grupo se concentram na atuação dela.

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No mês passado, a revista New York informou que os fundos arrecadados pela fundação foram usados para comprar uma casa na Califórnia por aproximadamente US$ 6 milhões em dinheiro vivo em outubro de 2020. A declaração fiscal mostra uma propriedade no valor de US$ 5,9 milhões, mantida por uma empresa de Delaware. A casa deveria ser usada, entre outras coisas, como um retiro de artistas, segundo o documento, mas os dados de identificação “não estão sendo divulgados aqui devido a preocupações de segurança e ameaças à liderança, à equipe e aos criadores da Fundação Black Lives Matter Global Network”, dizia o documento.

A declaração fiscal indicava que Patrisse não recebeu nenhum pagamento durante o ano fiscal, mas “atuou como voluntária não remunerada”. Um familiar dela, Paul Cullors, estava listado no documento e havia a indicação de pagamento a ele por “serviços de segurança profissional” no total de US$ 840.993.

De acordo com a declaração de impostos, Patrisse Cullors também reembolsou a organização por “viagens fretadas”, dizendo que ela “fez o reembolso de forma voluntária após o final do ano”. Ela também reembolsou a organização sem fins lucrativos pelo uso pessoal de seus imóveis, o que parecia se referir a uma festa de aniversário de seu filho realizada na casa de US$ 6 milhões.

“Acho que eles estão fazendo o que um advogado nesta situação os aconselharia a fazer, que é ser o mais sincero possível e ser o mais preciso possível”, disse Lloyd Hitoshi Mayer, professor de direito da Universidade de Notre Dame, especialista em organizações sem fins lucrativos. “Eles estão tentando ser transparentes. Eles estão tentando dar um jeito no rumo do navio. Ainda há trabalho a ser feito.”

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A divulgação da declaração fiscal, o formulário 990 da receita federal dos EUA para a Fundação Black Lives Matter Global Network, representou a primeira vez que o grupo apresentou uma contabilidade oficial de suas finanças. É também um retrato atrasado delas. O formulário cobre o ano fiscal que terminou em 30 de junho de 2021, quase um ano atrás.

Em 2021, a fundação divulgou seu próprio relatório, e não uma declaração fiscal obrigatória pelo governo, mas uma contabilidade voluntária de seus fundos, na qual disse que arrecadou US$ 90 milhões em 2020, com a doação média de US$ 30,64. Naquela época, o grupo disse que gastou US$ 8,4 milhões em despesas operacionais ao mesmo tempo em que desembolsou US$ 21,7 milhões em doações para cerca de 30 organizações e 11 comitês do movimento Black Lives Matter em todo o país.

Na declaração fiscal, a fundação disse que, para o ano fiscal encerrado em 30 de junho de 2021, ela recebeu contribuições e doações que totalizaram US$ 76,9 milhões, com despesas totais de US$ 37,7 milhões. Esses gastos incluíam doações de US$ 500 mil para cada grupo do Black Lives Matter em Boston, Filadélfia, Detroit e outros lugares.

Jacob Harold, especialista em organizações sem fins lucrativos, disse que ficou particularmente impressionado com o número de funcionários pagos listados no documento, que eram apenas dois, enquanto o número de voluntários era de 49.275. “Essa proporção praticamente conta por si só a história”, disse Harold. Dois funcionários pagos dificilmente seriam suficientes para administrar uma organização de US$ 90 milhões. “Este formulário 990 apresenta um relato de uma governança sem fins lucrativos fraca”, disse ele.

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Justin Hansford, professor da Faculdade de Direito da Universidade Howard, disse que as apostas eram altas porque o público nem sempre conseguia diferenciar entre o movimento Black Lives Matter e uma organização específica. “É extremamente importante ter transparência e boa governança em qualquer organização com esse nível de fama global”, disse Hansford, que também é diretor-executivo do Centro de Direitos Civis Thurgood Marshall. “A credibilidade de todo o movimento está em risco com base nessas escolhas, para o bem ou para o mal.”

Porém, ele acrescentou: “Eles merecem um pouco de compaixão. Como manifestantes que de repente receberam esse dinheiro inesperado, eles tiveram de aprender a administrar uma grande organização sem fins lucrativos depressa, e isso não é nada fácil”./TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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