Executivos de Itaú, Bradesco e Ripple discutem tokenização, blockchain e o futuro dos bancos no São Paulo Innovation Week. Especialistas defendem que nem tudo deve ser tokenizado. (Foto: Isabela Ortiz)
O que acontece quando o código se torna a lei e o mercado global uma rede única de tokens? Os reguladores enfrentam as complicações de um sistema financeiro descentralizado e o avanço da tecnologia blockchain — mesmo assim, executivos orientam que nem tudo deve ou pode ser tokenizado.
“Queremos trazer agilidade, segurança e melhoria de custos; caso contrário, não faz sentido”, explicou Isabel Longhi, diretora de políticas públicas e regulação LatAm da Ripple, durante painel no São Paulo Innovation Week (SPIW), maior festival global de tecnologia e inovação, realizado pelo Estadão.
O evento conta com a parceria da Base Eventos e acontece no Pacaembu e na Faap até sexta-feira (15). Entre os mais de 2 mil palestrantes convidados, estão especialistas brasileiros e estrangeiros em áreas como ciência, saúde, educação, agronegócio, finanças, mobilidade, geopolítica, esportes, sustentabilidade, arte, música e filosofia, entre outros assuntos.
Mediado por Rodrigoh Henriques, diretor de inovação e estratégia da Fenasbac, o painel contou com os executivos Eric Altafim, diretor de produtos e mesas corporate do banco Itaú; Isabel Longhi, da Ripple; e Renata Petrovic, head de inovação do Bradesco. Segundo os especialistas, o mercado financeiro é um bom termômetro do que pode, e deve, ser tokenizado.
Com as stablecoins liderando esse segmento — apenas no ano passado, a Ripple contabilizou US$ 33 trilhões investidos nesse modelo — Isabel orienta que as stablecoinsde energia se tornarão um projeto do futuro. “Um exemplo de tokenização que ainda falta, mas que já fizemos no Brasil, envolve R$ 2,3 bilhões em energia. Quando você tokeniza, garante ao investidor que a energia é limpa. Então, para empresas que precisam seguir critérios ESG, isso é essencial”, diz.
Produto “escalável”
Altafim confessa que o Itaú busca operar em escala. O executivo identifica iniciativas em capital market justamente por existirem várias redes e modelos de tokenização — “mas isso não é escalável”.
“Mais do que discutir qual é o produto, devemos entender qual pode ganhar escala quando tokenizado. Ou todo mundo ganha, ou todo mundo perde. Não existe ser só do Itaú ou do Bradesco”, defendeu o diretor.
A head do Bradesco, logo em seguida, concordou e ainda acrescentou que faltam casos de benefício claro. “Se formos na linha da tokenização de CDB como garantia, isso mostra um benefício real para o cliente?”, provocou a especialista o público. “Precisamos começar por algum lugar para provar a tese. Ainda falta um caso de benefício claro, até na linha da educação, para então podermos partir para outras coisas”, enfatizou.
Segundo Renata, são necessários órgãos que assegurem que o local e o global estarão falando a mesma língua. “O Brasil está equipado para esse desafio, mas depende de muita articulação política para sair da fragmentação da liquidez local e entrar em uma escala global”, afirmou.
De fato, todos concordam que a tecnologia blockchain ajuda muito, mas não resolve tudo. A questão burocrática ainda pesa para as instituições financeiras mesmo depois do modelo 24 horas e 7 dias por semana, que ajuda a presença global. “Há passos regulatórios que precisam ser dados para termos maior flexibilização”, adiciona o diretor do Itaú.
“Não é só a tecnologia que precisa ser discutida em escala global. A regulação também precisa”, enfatizou Henriques.
Qual o papel dos bancos na tokenização?
“Estamos caminhando para um mundo em que as instituições financeiras serão mais camadas de confiança do que de eficiência transacional”, disse Renata. Os palestrantes concordaram que o valor de um incumbente será garantir confiança, seja com cibersegurança, autenticação, responsabilidade pela validade e credibilidade do token ou compliance das regras.
“Precisamos de agentes que tragam essa segurança operacional para que o negócio escale. Sem isso, será muito mais difícil”, acrescentou.
O mediador instigou os convidados a elaborarem sobre o papel dos bancos na tokenização e se existe a possibilidade de redução, ou eliminação, dos intermediários. “Muda o papel e a forma de operar, mas não elimina o participante”, respondeu Isabel, da Ripple.
“A blockchain oferece segurança digital, mas a proposta e a definição de em quem confiar são diferentes. É aí que entra o papel do banco”, pontuou o diretor da Fenasbac. Para o executivo do Itaú, os bancos devem entender a inovação e como ela pode trazer mais segurança de forma escalável para o mercado, influenciando-o positivamente. O intuito dele é “construir a infraestrutura para garantir escala e melhorar a experiência” para o cliente.