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Comportamento

Por que as mulheres ganham menos em aplicativos de entrega de comida

Desde o início da pandemia, as mulheres sofrem desproporcionalmente com a perda de empregos

Por E-Investidor

18/04/2021 | 7:00 Atualização: 16/04/2021 | 15:44

Entregadora da DoorDash fotografada em Nova York (Foto: Carlo Allegri/Reuters)
Entregadora da DoorDash fotografada em Nova York (Foto: Carlo Allegri/Reuters)

(Sharon Goldman/Washington Post) – Quando Jennifer Cartlidge perdeu seu emprego em uma pet shop depois que a covid-19 começou a fechar negócios em março de 2020, ela correu para encontrar um trabalho que minimizasse o contato presencial. Cartlidge, 40 anos, é uma sobrevivente do câncer renal com problemas auto-imunes, então ela é considerada grupo de risco.

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Inscrever-se para dirigir para o aplicativo de entrega de comida DoorDash perto de sua casa em St. Louis parecia sua melhor aposta. “Foi um salva-vidas”, disse Cartlidge, que é mãe de quatro filhos em idade escolar. “Posso tirar uma folga quando meus filhos estão doentes e ajudá-los com as aulas on-line.”

Cartlidge disse que não aceita pedidos que ofereçam menos de US$ 1 por milha (1,6 km) e raramente entrega além de um raio de 10 milhas (16 km). “Eu gostaria de um salário-base mais alto, mas faço funcionar”, acrescentou ela.

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Desde o início da pandemia, as mulheres sofrem desproporcionalmente com a perda de empregos; áreas dominadas por mulheres, como serviços de varejo, encolheram; e muitas mulheres tiveram de abandonar seus empregos tradicionais (das 9h às 17h) para cuidar dos filhos. Para algumas mulheres como Cartlidge, voltar para o trabalho na gig economy [conceito que resume o trabalho alternativo e temporário; no Brasil, ficou conhecido como ‘uberização’ da economia], em plataformas e aplicativos, como DoorDash, Instacart e Uber, é a melhor solução.

As mulheres são o coração do trabalho temporário há muito tempo; em 2019, a Instacart disse à NPR que mais de 50%o das pessoas que compram pelo aplicativo são mulheres, enquanto a DoorDash disse que as mulheres representam mais de 50% de seus entregadores nas zonas rurais e áreas suburbanas e mais de 60% nas áreas urbanas.

Mas elas estão sendo pagas tanto quanto os homens por seus esforços? A resposta é não, de acordo com um estudo recente que descobriu que, mesmo em um ambiente de trabalho on-line que não considera o gênero, as diferenças de ganhos entre mulheres e homens persistem.

Os autores estudaram as discrepâncias salariais de gênero em plataformas de microtarefa online – um mercado anônimo que oferece trabalho homogêneo e flexível. Entre 22.271 trabalhadores que escolheram e participaram de quase 5 milhões de microtarefas, os ganhos das mulheres por hora eram 10,5% mais baixos do que os dos homens, descobriu o estudo.

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Leia também: Os três pilares da independência da mulher no século XXI

A diferença salarial na gig economy é mais estreita do que nos locais de trabalho tradicionais, onde a mulher ganha, em média, 82 centavos para cada dólar que um homem ganha. Essa diferença é muito maior para as mulheres de cor, incluindo mulheres negras e latinas, que ganham 63 centavos e 55 centavos, respectivamente, para cada dólar que um homem ganha.

Mas mesmo em uma plataforma onde as oportunidades de discriminação, segregação de trabalho e indicações são removidas – e mesmo depois que a experiência, a educação e outros fatores capitais são contabilizados – uma disparidade salarial teimosamente permanece, disse Leib Litman, um dos autores do estudo, um cientista social e comportamental que é professor assistente de psicologia no Touro College e co-CEO e diretor de pesquisa da Cloud Research.

A razão? O novo estudo de acompanhamento dos autores descobriu que as mulheres esperam receber menos do que os homens, o que pode levá-las a fazer escolhas de empregos com salários mais baixos.

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Estudos anteriores já haviam destacado as disparidades salariais de gênero em plataformas de emprego temporário. Por exemplo, um estudo de 2018 com mais de 1 milhão de motoristas do Uber descobriu que, embora o aplicativo não esteja estruturalmente configurado para discriminar, ainda havia uma diferença salarial de 7% por gênero por três principais motivos: os homens tendiam a dirigir mais rápido, tinham mais experiência na plataforma e tinham menos restrições sobre onde poderiam dirigir.

No entanto, mesmo em uma plataforma de trabalho alternativo em que todos os fatores estruturais específicos poderiam ser eliminados, ainda há uma diferença salarial. “Descobrimos que, em média, as mulheres tendem a escolher tarefas que pagam menos”, disse Litman. E embora cada aplicativo seja estruturado de maneira diferente, o modelo previa os mesmos resultados em qualquer plataforma.

Os autores descobriram que esse é o motivo pelo qual as mulheres têm “salários de reserva” mais baixos do que os homens. Ou seja, quando as mulheres foram questionadas sobre a quantia mínima que precisavam ser pagas para fazer qualquer tipo de tarefa, em qualquer plataforma, elas responderam consistentemente com um número que era 10% a 15% menor do que os homens – independentemente de sua demografia, idade ou status familiar.

“Encontramos uma correlação clara entre a renda das pessoas, ou quanto as pessoas ganhavam em empregos tradicionais, e seus ‘salários de reserva’”, explicou Litman. “Uma vez que as mulheres tendem a ganhar menos dinheiro em ambientes de trabalho tradicionais, acreditamos que inconscientemente trazem essa ‘bagagem’ para a gig economy, influenciando o tipo de comportamento e as oportunidades que procuram.”

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Katy Williams, uma estudante de enfermagem em tempo integral de 27 anos, começou a trabalhar meio período para a DoorDash e a Instacart dois anos atrás, depois que seu emprego em uma empresa privada de serviços médicos de emergência não lhe ofereceu um horário flexível para assistir às aulas. Ela disse que “não ficaria surpresa se os homens fizessem mais.”

De acordo com Williams, não se sentir totalmente segura ao dirigir como mulher limitou sua capacidade de trabalhar tanto quanto seus colegas homens. Ela disse que o máximo que ganhou foram US$ 110, trabalhando entre 16h e meia-noite.

“Não estamos ganhando o suficiente para ir para locais onde não nos sentimos seguras”, disse ela.

O que diz o DoorDash

Em um comunicado, um porta-voz do DoorDash disse: “Este é um tópico importante e continuamos focados em garantir que nossa plataforma seja igualitária e inclusiva para todos. Estamos orgulhosos de que o DoorDash oferece oportunidades flexíveis para os ‘Dashers’ ganharem com seu próprio cronograma mais de US$ 22 por hora de trabalho para atingir seus próprios objetivos servindo como  complemento para a maioria que entra em nossa plataforma. Com as mulheres representando mais da metade dos ‘Dashers’, elas são pais, aposentadas, veteranas, empreendedoras, estudantes e outras que escolhem quando, onde e por quanto tempo desejam trabalhar. Continuaremos a nos envolver de perto com a comunidade Dasher, incluindo as mulheres que ganham em nossa plataforma, para melhorar constantemente e aprender a melhor forma de servi-las.”

As descobertas do estudo parecem replicar estudos anteriores sobre disparidades salariais de gênero, disse Laurie O’Brien, professora associada de psicologia da Universidade de Tulane. “Suas experiências anteriores têm uma grande influência em como você faz escolhas”, disse ela

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Por exemplo, no final dos anos 1970, os estudos da psicóloga social Faye Crosby sobre “privação relativa” mostraram que as mulheres recebem em geral menos do que os homens, explicou O’Brien, o que levou à pesquisa de Brenda Major nos anos 80 e 90 sobre se as mulheres se sentem com direito a uma remuneração menor. “Mulheres e homens foram levados a um laboratório, solicitados a fazer tarefas e pagaram a si mesmos o que achavam que mereciam”, disse ela. O resultado? Os homens tendem a trabalhar menos e a receber mais dinheiro do que as mulheres.

Litman disse que os autores de seu estudo planejam dar seguimento a outras pesquisas sobre se diferentes intervenções informativas e psicológicas poderiam ajudar a reduzir a disparidade salarial entre gêneros na gig economy. No entanto, O’Brien enfatizou que a responsabilidade não deve ser simplesmente colocada sobre as mulheres: “Garantir que as mulheres tenham as informações certas é realmente importante, mas idealmente a estrutura da plataforma deve mudar para refletir isso”, disse ela.

Mikki Hebl, professor de psicologia aplicada na Rice University, cuja pesquisa se concentra em questões relacionadas à diversidade e discriminação, concorda. “Eu realmente acho que se as mulheres experimentaram um nível de discriminação salarial ao longo da vida, provavelmente aprenderam a valorizar menos seu trabalho”, disse ela. “No entanto, não se trata apenas de mudar as mulheres – você também poderia dizer que os homens têm que mudar seus hábitos. Por que os homens estão sempre maximizando?”

Ainda assim, para algumas mulheres, o trabalho temporário é sua única opção no momento. A flexibilidade que ele permite é uma obrigação para Amie Story, de 37 anos, que tem trabalhado para o DoorDash, juntamente com o aplicativo de mercearia Instacart, nos últimos dois meses. Mãe de três filhos na região metropolitana de Atlanta, ela precisa sair do trabalho quando seus filhos estão doentes e desligar quando o marido chega em casa do trabalho, disse ela.

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“Minha média é entre US$ 18-22 por hora, então acredito que é um bom pagamento, especialmente para quem apenas pega e entrega os itens”, disse ela. “Minha sogra trabalha em turnos de 12 horas em uma fábrica ganhando menos do que isso.”

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