O avanço da regulação de ativos digitais no Brasil abriu uma nova fase para o mercado cripto e, ao mesmo tempo, escancarou um dilema de como institucionalizar a inovação sem sufocar a velocidade que marcou a ascensão da economia “on-chain”. O debate pautou o painel “O Futuro On-chain: Conectando Inovação e Novos Mercados”, realizado durante o São Paulo Innovation Week (SPIW).
A líder de inovação aberta da Fenasbac, Danielle Teixeira, conduziu a conversa com Fabrício Tota, VP de Negócios Cripto do MB (Mercado Bitcoin), sobre os próximos passos da infraestrutura financeira baseada em blockchain.
Para Tota, o Brasil já ocupou uma posição mais avançada na corrida regulatória global, mas perdeu parte do protagonismo nos últimos anos. “Acho que a gente esteve melhor”, resumiu. Segundo ele, a pressão regulatória enfrentada pelo mercado cripto nos Estados Unidos durante o governo Joe Biden contaminou outras jurisdições e desacelerou iniciativas ao redor do mundo.
Ainda assim, o executivo destacou que as stablecoins já alteraram silenciosamente o mercado internacional de pagamentos. “Elas chacoalham totalmente as transações internacionais”, afirmou.
Segundo Tota, empresas do setor passaram anos operando em uma “zona cinzenta”, recorrendo a estruturas improvisadas para viabilizar transferências globais com ativos digitais atrelados ao dólar. Agora, porém, a chegada de regras mais claras obriga o mercado a migrar para um modelo mais institucionalizado. “Eu preciso encaixar isso em algum lugar”, disse.
Stablecoins pressionam fronteiras do sistema financeiro
O executivo também comentou o recuo regulatório em torno dos mercados de previsão no Brasil, classificado por ele como um “aborto” de uma indústria que não chegou a nascer, nem sequer desenvolver e já foi cessado. Danielle ponderou que o próprio amadurecimento do setor torna inviável simplesmente interromper as operações ligadas ao universo cripto. “Bloquear esse mercado seria bastante difícil”, afirmou. Segundo ela, o processo regulatório ainda deve passar por um período de maturação antes de ganhar escala prática.
O colunista do E-investidor ainda tabalhou a ideia de “componabilidade”, conceito que descreve a capacidade de criar novas soluções financeiras a partir de tecnologias já existentes. Tota definiu a ideia como uma das engrenagens centrais do universo cripto. Para ele, essa lógica ajuda a explicar por que grandes empresas passaram a apostar em inovação aberta, integração entre plataformas e parcerias estratégicas, em vez de tentar concentrar todo o desenvolvimento internamente.
A tokenização apareceu como uma das apostas mais promissoras para os próximos anos. Segundo Tota, o MB já tokeniza ativos em oito redes distintas e trabalha em projetos ligados à tokenização de títulos públicos e crédito com garantias digitais. Na visão do executivo, a blockchain tende a reduzir intermediários, custos e fricções operacionais, embora ainda dependa de adaptações regulatórias para atingir escala.
“A tecnologia não resolve todos os problemas”, afirmou. “Mas ela reduz atrito, aumenta transparência e simplifica muita coisa.”
Blockchain reduz atrito, mas ainda depende da regulação
Ao fim do painel, os participantes defenderam que o futuro “on-chain” não representa apenas uma nova classe de ativos, mas uma mudança estrutural na própria infraestrutura financeira. A aposta do setor é que, aos poucos, contratos, ativos e operações financeiras migrem para sistemas digitais interoperáveis, capazes de funcionar além das fronteiras tradicionais do sistema bancário.
O São Paulo Innovation Week (SPIW), maior festival global de tecnologia e inovação, é realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap, entre esta quarta-feira (13) e sexta-feira (15). Entre os mais de 2 mil palestrantes convidados para os três dias de evento, estão especialistas brasileiros e estrangeiros em áreas como ciência, saúde, educação, agronegócio, finanças, mobilidade, geopolítica, esportes, sustentabilidade, arte, música e filosofia, entre outros assuntos.