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Lavagem de dinheiro com cripto: nada mais (in)discreto do que lavar dinheiro em público

Rastro público das blockchains desafia o mito do anonimato e expõe o papel — ainda minoritário — das criptomoedas na lavagem global

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Lavagem de dinheiro com cripto está longe de ser invisível: o rastro público das blockchains expõe transações e desafia o mito do anonimato no crime financeiro. (Imagem: Adobe Stock)
Lavagem de dinheiro com cripto está longe de ser invisível: o rastro público das blockchains expõe transações e desafia o mito do anonimato no crime financeiro. (Imagem: Adobe Stock)

Se a meta fosse esconder patrimônio, eu começaria longe de um sistema que registra endereços, saldos, horários e encadeamentos de transações de forma permanente. Ainda assim, bitcoin e criptoativos seguem tratados no debate público como esconderijo natural da lavagem de dinheiro. A frase rende manchete. Engaja. Gera cliques. Mas erra o alvo.

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Em redes públicas, o rastro não depende de boa vontade do emissor, do gerente ou de um pedido de quebra de sigilo: ele fica ali, disponível para ser analisado agora, daqui a um mês e daqui a cinco anos. Foi justamente essa característica que ajudou investigações, apreensões e congelamentos em alguns dos casos mais emblemáticos do setor.

Crime organizado não tem compromisso com tecnologia. Tem compromisso com eficiência. A bandidagem se move rápido, sem esperar parecer jurídico, sem montar comitê de inovação. Corre para o trilho que entrega liquidez, velocidade, capilaridade e chance de ocultação de imediato.

Foi isso que a Operação Narco Fluxo escancarou em abril de 2026: um esquema de mais de R$ 1,6 bilhão descrito por PF e MPF com transporte de dinheiro em espécie, transferências bancárias, empresas de fachada, aquisição de bens e criptoativos. Quem procura um vilão único para a lavagem está ignorando o verdadeiro modus operandi do crime.

Os números tiram a discussão do folclore. A UNODC, Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, estima a lavagem global entre 2% e 5% do PIB mundial por ano, algo entre US$ 800 bilhões e US$ 2 trilhões. A Chainalysis, uma das maiores empresas do mundo especializada em análise e rastreamento de dados em blockchain, estimou que endereços ilícitos enviaram US$ 22,2 bilhões em cripto para serviços usados no processo de lavagem em 2023.

A comparação não é perfeita, porque as metodologias medem coisas diferentes. Mas a ordem de grandeza continua contundente. O volume cripto equivale a algo como 1,1% a 2,8% da estimativa global anual de lavagem. Cripto participa do problema, mas está longe de dominar o problema.

Dinheiro em espécie continua resolvendo quatro problemas que qualquer lavador precisa resolver: esconder a origem, embaralhar a titularidade, manter controle direto e romper o vínculo visível com o crime antecedente. A Europol, Agência da União Europeia para a Cooperação Policial, trata o cash como peça central da lavagem.

O FATF, organização intergovernamental criada para desenvolver e promover políticas nacionais e internacionais de prevenção e combate à lavagem de dinheiro, mantém o setor imobiliário sob vigilância específica há anos.

No Brasil, a própria Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro (ENCCLA), ligada ao Ministério da Justiça, abriu em 2026 uma ação dedicada a fortalecer a prevenção e a repressão à lavagem e à inserção do crime organizado no setor imobiliário.

Ninguém criminaliza os apartamentos. As construtoras não viram as grandes vilãs que viabilizam crimes financeiros. O risco continua ali, firme, mas bem mais silencioso do que a gritaria em torno do bitcoin e do mundo cripto.

Vale lembrar o óbvio quase que esquecido: um dos maiores roubos bancários da história do país aconteceu em 2011, numa agência bancária na Avenida Paulista. A quadrilha arrombou 161 cofres, passou horas dentro da agência e levou joias, relógios, pedras preciosas, documentos e um valor estimado em cerca de R$ 500 milhões. Nada ali era onchain. Era o crime em sua forma mais clássica, física, paciente e milionária.

Com o Pix, a lógica se repetiu em escala muito maior. O sistema virou a infraestrutura de pagamentos do país. O Banco Central informou que, em 2025, o Pix movimentou R$ 35 trilhões em quase 80 bilhões de transações. Em estatísticas divulgadas em seu site, o próprio BC mostrou que o Pix já é usado por 80% da população e superou o dinheiro como forma de pagamento mais utilizada. Onde há volume, há atratividade para fraude. E onde há velocidade, há corrida para dispersar valor.

O BC reconheceu isso ao explicar o MED 2.0, Mecanismo Especial de Devolução: em 2025, foi recuperada em média apenas 9,3% do valor contestado, porque o dinheiro de golpe e fraude é rapidamente pulverizado. O ponto central é cristalino: o crime procura o trilho mais eficiente. O volume de perdas em fraudes no Pix apenas em 2025 assusta: foram R$ 6,5 bilhões, um crescimento de 80% em relação ao ano anterior.

No que ficou público sobre a perna cripto desses casos, o número divulgado ficou muito abaixo do tamanho do rombo. Na primeira fase da operação Magna Fraus, que desarticulou um grupo especializado em fraudes bancárias em 2025, a PF falou em R$ 5,5 milhões em cripto apreendidos e R$ 32 milhões bloqueados desde o início da investigação.

No balanço parcial da segunda fase, mais de R$ 1 milhão em cripto apareceu entre os bens localizados. O valor total convertido em cripto não foi detalhado nas notas oficiais. O valor total do desvio, sim. É uma distinção importante.

O que realmente acontece nos crimes com cripto

A história de Ross Ulbricht continua sendo a melhor aula sobre a fantasia da invisibilidade. O operador do Silk Road caiu em 1º de outubro de 2013, em San Francisco, especificamente na seção de ficção científica da biblioteca pública de Glen Park, com o laptop aberto.

A operação foi desenhada para pegá-lo logado, enquanto usava seu dispositivo, e impedir que tivesse tempo de criptografar ou fechar a máquina. Investigadores já o tinham conectado ao site por registros de rede e outras evidências digitais; no momento decisivo, um agente infiltrado falou com ele no chat interno da plataforma de compra e venda de bens ilícitos que Ross operava para confirmar que ele estava ali, administrando a operação ao vivo.

Depois vieram os bitcoins: o DOJ, Departamento de Justiça dos EUA, informou a apreensão de aproximadamente 144.336 BTC em seu hardware, dentro de um total de 173.991 BTC já apreendidos no caso, avaliados então em mais de US$ 33,6 milhões.

O mesmo DOJ afirmou que o Silk Road havia gerado mais de 9,5 milhões de BTC em vendas e mais de 600 mil BTC em comissões, equivalentes a cerca de US$ 1,2 bilhão em vendas e US$ 80 milhões em comissões à taxa de câmbio usada na época da apreensão. É um final didático demais para ignorar: o suposto esconderijo terminou em prisão, confisco e posterior condenação de Ross a duas penas de prisão perpétua.

Já o caso do hack da corretora de criptomoedas Bitfinex é o Bonnie and Clyde dos nossos tempos. Em agosto de 2016, Ilya Lichtenstein hackeou a exchange e levou aproximadamente 120 mil BTC. A prisão veio somente em fevereiro de 2022, quase cinco anos e meio depois. Nesse intervalo, o casal tentou lavar os fundos com camadas de transações, mixers, mercados ilegais na deep web, contas abertas com identidade falsa e muito teatro digital.

Enquanto o dinheiro seguia deixando rastro, Heather Morgan, sua namorada, construía na web a persona Razzlekhan, uma suposta empreendedora, escritora e rapper, em vídeos e textos espalhados nas redes sociais. Um erro custou caro: a conversão, pouco a pouco, de valores apreendidos em vales-presente comprados em lojas de conveniência. A blockchain teve mais paciência do que eles. Prisão, confisco e condenação vieram, nessa ordem.

Há ainda um caso delicado, em que seguir o rastro do bitcoin ajudou a desmontar um horror. A investigação da Welcome to Video começou em agosto de 2017 olhando transações ilícitas de bitcoin na dark web. Ao seguir os fundos na blockchain, agentes americanos disseram ter conseguido medir a dimensão do site, localizar o servidor, identificar seu operador e acionar uma cooperação internacional que resultou no desmonte anunciado em outubro de 2019.

O site, que distribuía pornografia infantil, operou de junho de 2015 a março de 2018. O DOJ falou em 337 usuários presos ou identificados em 38 países e no resgate de ao menos 23 vítimas menores de idade, exploradas por parte dos usuários. Em um tema como esse, o ponto continua firme: trilha financeira também pode resgatar vidas e punir monstros.

É por isso que os gatekeepers importam tanto. Corretoras de criptomoedas, emissores de stablecoins e bancos: cada um deles decide se a ponte entre onchain e offchain vira ponto de controle ou apenas um corredor de passagem. No mercado sério, isso se traduz em rotina chata. E ainda bem. No MB, a maior plataforma de ativos digitais da América Latina, essa rotina atende pelos nomes de KYC, KYT, PLD/FT, monitoramento de operações atípicas, comunicação ao Coaf e reporte à Receita Federal. Mercado sério cria fricção. Fricção reduz impunidade.

Por vezes, a cobertura jornalística preguiçosa escolhe o ativo que rende manchete e esquece a arquitetura do crime. O dinheiro sujo continua correndo em cash, passando por laranjas, empresas de fachada, imóveis e carros de luxo. Às vezes passa por cripto. Quando passa, deixa um rastro melhor do que o resto. Nada disso absolve o setor. Só obriga a discussão a sair do clichê. Quem ainda descreve blockchain como esconderijo mágico está confundindo ficção com investigação.

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