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Educação Financeira

Alta do Petróleo já encarece alimentos, voos e frete no Brasil; veja os impactos no seu bolso

Guerra no Oriente Médio pressiona custos em cadeia e tende a chegar ao orçamento do consumidor por diferentes vias; IPCA-15 de março sobe acima do esperado

Por Beatriz Rocha

26/03/2026 | 9:26 Atualização: 26/03/2026 | 9:46

Reflexos da guerra no Oriente Médio podem ser sentidos em diversas indústrias, de passagens aéreas aos alimentos; alta do petróleo é gatilho para a inflação. (Imagem: luciano em Adobe Stock)
Reflexos da guerra no Oriente Médio podem ser sentidos em diversas indústrias, de passagens aéreas aos alimentos; alta do petróleo é gatilho para a inflação. (Imagem: luciano em Adobe Stock)

Os preços do petróleo têm disparado desde o início da guerra no Oriente Médio. O tombo da commodity na última segunda-feira (23) não foi suficiente para apagar a alta observada ao longo do mês: em março, o Brent acumula valorização de 33,14%, enquanto o WTI sobe 33,41%. Esse salto afeta o bolso do consumidor brasileiro por múltiplos canais, ainda que de forma não linear – como mostra o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) de março.

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O impacto mais visível ocorre nos combustíveis, que afetam diretamente o custo de mobilidade. Carlos Honorato, economista e professor da FIA Business School, destaca que o Brasil ainda é muito dependente do transporte rodoviário, o que gera uma reação em cadeia. “O efeito da alta do petróleo começa nos combustíveis e seus derivados, mas rapidamente chega ao transporte, aos custos com logística e aos insumos industriais“, diz.

Como mostramos aqui, o salto da commodity também já pode ser observado no preço do combustível de aviação, o que, consequentemente, mexe com as passagens aéreas. Dados do buscador de voos Viajala registraram aumento de 15%, em média, no preço dos bilhetes nacionais nos últimos 10 dias. A plataforma analisou cerca de 400 mil buscas de voos com origem nos principais aeroportos brasileiros entre 18 de fevereiro e 15 de março, com o objetivo de comparar as variações no preço médio antes e depois do início do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã.

Entre 5 e 15 de março, as viagens de ida e volta para São Paulo passaram a apresentar preço médio de R$ 1.338, um aumento de 36% em relação ao intervalo de 18 a 28 de fevereiro (antes do conflito). Já as viagens de ida e volta para Recife estavam custando, em média, R$ 1.497, 22% a mais do que antes da guerra.

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Os demais destinos mais buscados tiveram comportamento semelhante.

  • Rio de Janeiro (RJ): preço médio de R$ 1.232 na viagem de ida e volta, 11% mais alto que nos 10 dias anteriores à guerra;
  • Fortaleza (CE): preço médio de R$ 1.710 na viagem de ida e volta, 14% mais alto que nos 10 dias anteriores à guerra;
  • Salvador (BA): preço médio de R$ 1.338 na viagem de ida e volta, 14% mais alto que nos 10 dias anteriores à guerra.

Impacto da alta do petróleo pode chegar nos alimentos

Segundo João Alfredo Lopes Nyegray, professor dos cursos de Negócios Internacionais e Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), a alta do petróleo também afeta a indústria petroquímica e os custos para embalagens plásticas, fertilizantes, defensivos agrícolas, tecidos sintéticos e produtos de limpeza.

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“Em um País com forte peso do agronegócio, o encarecimento de fertilizantes – muitos derivados de hidrocarbonetos – pode pressionar preços de alimentos com alguma defasagem”, acrescenta o professor.

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Segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), a valorização do diesel gerou altas de até 20% nos fretes rodoviários para o setor, em relação ao anteriormente praticado, incluindo desde o transporte de insumos até a distribuição do produto no mercado interno. Embalagens plásticas já estão até 30% mais altas. “Frente a esse quadro, é possível que ocorram nos próximos dias repasses aos preços para o consumidor tanto de ovos, como de carne de frango e carne suína“, alerta a ABPA, em nota.

A associação explica que os ajustes ocorrem porque o setor enfrenta alta demanda logística, com o transporte de ração e a redistribuição dos produtos no mercado doméstico. No caso das exportações, há aumento no tempo de trânsito dos navios e maior consumo de energia por causa da guerra.

Os efeitos na inflação do País

Barris de petróleo em frente à ilustração com gráfico e aviões
A alta do petróleo se transmite ao consumidor brasileiro por múltiplos canais. Foto: Adobe Stock

Nesta quinta-feira (26), foi divulgado o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) de março, que registrou alta de 0,44%, acima do esperado pelo consenso do mercado financeiro. Com o resultado, o indicador acumula avanço de 3,90% em 12 meses.

O grupo de Alimentação e Bebidas voltou a ganhar força, com alta de 0,88% no mês, após avanço mais moderado de 0,20% em fevereiro. Dentro do segmento, a alimentação no domicílio acelerou para 1,10% em março, enquanto a alimentação fora do domicílio subiu 0,35%, desacelerando em relação à alta de 0,46% observada no mês anterior.

Em Transportes, onde o impacto do petróleo é mais aguardado, os preços subiram 0,21%, após alta de 1,72% em fevereiro, o que significa uma contribuição de 0,04 ponto porcentual do segmento para o IPCA-15 de março. Os preços dos combustíveis até caíram na apuração do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 0,03%, na sequência do avanço de 1,38% na medição anterior. A gasolina recuou 0,08% e o etanol, 0,61%.

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Nyegray, da PUC-PR, explica que os choques de commodities tendem a aparecer primeiro como pressões nos custos das empresas e nas expectativas inflacionárias, antes de se materializarem plenamente nos índices ao consumidor. “Se o conflito persistir e os preços internacionais permanecerem elevados, o impacto mais claro deve surgir nos índices de abril e maio, quando os reajustes ao longo da cadeia produtiva começarem a ser repassados de forma mais consistente”, afirma.

Volatilidade dá o tom durante a guerra

Nesta semana, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse, por meio de sua conta na rede Truth Social, que houve avanço nas negociações com o Irã para o fim das hostilidades no Oriente Médio e, com isso, determinou a suspensão dos ataques à infraestrutura civil do país.

A chancelaria iraniana, no entanto, adotou um tom mais cético em relação às declarações do republicano norte-americano. O Ministério das Relações Exteriores do Irã sugeriu que o país não estava dialogando com os EUA sobre o fim da guerra e afirmou que a declaração de Trump fazia parte de um esforço para reduzir os preços da energia e ganhar tempo para implementar seus planos militares.

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Após as declarações do presidente dos EUA na rede social, o petróleo WTI para maio fechou em queda de 10,28% a US$ 88,13 o barril no pregão da última segunda-feira (23). Já o Brent para junho recuou 9,86% a US$ 95,92 o barril, na Intercontinental Exchange de Londres (ICE). Na terça-feira (24), a commodity subiu e, na quarta-feira (25), voltou a ceder.

Quando os preços vão voltar à normalidade?

José Faria Júnior, planejador financeiro CFP pela Planejar, comenta que o mercado está agindo com “fúria” em relação às notícias sobre o conflito, tanto as positivas quanto as negativas, mas ainda fica complicado projetar o futuro do petróleo. “Não sabemos o tamanho e a extensão dos danos causados pela guerra, então é muito difícil estimar quando os preços vão retornar a uma normalidade“, diz.

Mais do que discursos, especialistas apontam que o alívio nos preços da commodity depende de evidências concretas de estabilização do conflito, com acordos formais ou cessar-fogo. Sem isso, qualquer queda tende a ser pontual.

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Caso o arrefecimento das tensões de fato se confirme, o advogado especializado em Negócios Internacionais e Direito Internacional, Daniel Toledo, avalia que o ajuste do petróleo no mercado financeiro internacional pode ser relativamente rápido, por se tratar de um ativo líquido e sensível ao noticiário.

Já o impacto no bolso do consumidor tende a demorar mais para aparecer. “Há uma inércia na economia: as empresas não reduzem preços imediatamente, especialmente após um período de alta. Além disso, fatores internos no Brasil, como a política de preços da Petrobras (PETR3; PETR4), o câmbio e os custos logísticos, também influenciam nesse repasse”, afirma.

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