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Mercado

Mercado vê BC sem sinalizar próximos passos após redução da Selic; veja primeiras impressões

Analistas veem mudança no tom do Copom, que abandona sinalizações mais claras e passa a condicionar próximos passos ao cenário de inflação e ao ambiente externo

Por Beatriz Rocha

18/03/2026 | 20:36 Atualização: 18/03/2026 | 20:56

Investidores estavam divididos sobre decisão do Copom. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
Investidores estavam divididos sobre decisão do Copom. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

O Banco Central cortou nesta quarta-feira (18) a Selic em 0,25 ponto percentual para o patamar de 14,75% ao ano. A decisão, que veio unânime, levantava dúvidas no mercado, especialmente diante dos conflitos no Oriente Médio, que fizeram os preços do petróleo disparar e alteraram as expectativas para a inflação brasileira.

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Um levantamento do BTG Pactual com 52 participantes já mostrava que 88% dos agentes do mercado esperavam o primeiro corte de juros nesta reunião, com predomínio do cenário de redução de 0,25 ponto percentual. Mas ainda existiam aqueles que previam um movimento mais agressivo e outros que projetavam manutenção da Selic em 15%.

Em sua justificativa para a decisão, o Comitê de Política Monetária (Copom) afirmou que o período prolongado de Selic estável evidenciou a “transmissão da política monetária sobre a desaceleração da atividade econômica”. Esse cenário, segundo o Copom, criou condições para ajustes no ritmo da calibração dos juros, em nível compatível com a convergência da inflação à meta.

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No comunicado de janeiro, o comitê já havia indicado que esperava iniciar os cortes da Selic em março, reforçando, no entanto, que o compromisso com a meta de inflação exigia “serenidade” quanto ao ritmo e à magnitude do ciclo de redução dos juros.

No texto de março, o Copom voltou a destacar a necessidade de “serenidade” e “cautela” na condução da Selic, de forma que os passos futuros possam incorporar novas informações mais claras sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio.

Para o mercado, o comunicado desta quarta-feira veio mais prudente. Especialistas apontam que o comitê não trouxe projeção para as decisões futuras e indicou postura mais dependente de dados. Ainda assim, novos cortes na Selic são possíveis, a depender dos rumos do conflito no Irã.

Outro ponto observado por economistas: os números do cenário de referência pioraram em relação a janeiro. A projeção da inflação para 2026 avançou de 3,4% para 3,9%, enquanto a do horizonte relevante – terceiro trimestre de 2027 – subiu de 3,2% para 3,3%.

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Veja as primeiras impressões do mercado sobre a decisão do Copom:

Beto Saadia, economista-chefe da Nomos

Houve mudança na linguagem. Em janeiro, o Copom falava em “flexibilização” dos juros, termo que sugere direção definida. Em março, substituiu por “calibração”, conceito mais neutro e dependente de dados. O conflito no Oriente Médio adicionou uma camada adicional de incerteza que o comitê não pretende antecipar.

Bruno Fratelli, economista da Journey Capital

No geral, o comunicado é compatível com a continuidade de um processo de flexibilização, ainda que com elevada incerteza quanto ao seu ritmo. Nosso cenário-base passa a contemplar um corte de 0,25 ponto percentual na próxima reunião, com risco para 50 ponto percentual, caso haja melhora mais clara no ambiente externo.

Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos

O comunicado veio mais conservador, sinalizando preocupação com a inflação corrente, atenção ao fiscal e um tom mais explícito de cautela com o ambiente internacional, com destaque para os impactos da situação no Oriente Médio sobre as expectativas de inflação.

Caio Megale, economista-chefe da XP

O Copom parece ter atribuído importância limitada ao recente choque nos preços do petróleo (até o momento) e permaneceu confiante de que a inflação está convergindo para a meta. Assim, a “barra” parece alta para que o Comitê deixe de cortar a taxa Selic novamente em abril.

Cristiano Oliveira, diretor de pesquisa econômica do Banco Pine

A decisão merece destaque, pois sinaliza uma economia doméstica mais resiliente a choques externos e reforça a credibilidade conquistada pelo Banco Central na condução da política monetária.

Enrico Gazola, economista pelo Insper e sócio-fundador da Nero Consultoria

Esse primeiro movimento de 0,25 ponto percentual é mais simbólico do que expansionista. Ele inaugura o ciclo, mas preserva opcionalidade para o Banco Central reagir aos dados ao longo dos próximos meses.

Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos

Prospectivamente, a autoridade valeu-se da incerteza gerada pelo conflito para não sinalizar a magnitude do próximo ajuste. Diante das atuais condições de estresse, o Banco Central julgou prudente reduzir a taxa em 0,25 ponto percentual. Assim, consideramos que este ritmo de afrouxamento representa o “piso” deste ciclo.

Felipe Izac, sócio da Nexgen Capital

Fica claro que, para termos um ambiente saudável de corte de juros de forma confortável e significativa pela frente, é necessária uma melhora no cenário de conflito internacional, além das questões fiscais brasileiras que sempre giraram no centro dessa manutenção da Selic tão alta por tanto tempo.

Flávio Serrano, economista-chefe do Banco BMG

Se o cenário se mantiver volátil, o Banco Central deverá manter o conservadorismo e seguir com esse ritmo. Caso as tensões diminuam e os preços do petróleo voltem a cair, a autoridade monetária poderá ajustar o ritmo de cortes.

Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research

Houve fatores propícios para o Banco Central, de fato, ter realizado o corte hoje. Eu gostei do comunicado, acho que o Copom adotou uma postura cautelosa e trouxe pontos importantes, como a incerteza existente no cenário internacional.

Ian Lima, gestor de renda fixa da Inter Asset

No horizonte relevante, que é o terceiro trimestre de 2027, a inflação subiu de 3,2% para 3,3%, uma elevação menor que a esperada. O plano de voo do Banco Central parece ser uma recalibração lenta para ganhar tempo e permitir ajustar o ritmo de afrouxamento de acordo com as novas informações.

José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos

A decisão foi absolutamente esperada, sem nenhuma surpresa, e foi importante para manter a credibilidade do Banco Central.

Leonardo Costa, economista do ASA

O conflito no Oriente Médio e seus efeitos sobre o preço dos ativos dominaram o comunicado. O balanço de riscos para inflação, que já estava mais elevado que o usual, intensificou-se adicionalmente após o início dos conflitos.

Lucas Sigu, sócio-fundador da Ciano Investimentos

Vejo a decisão como um sinal importante de que o Banco Central está mais confortável com a trajetória da inflação, mas ainda caminha de forma muito cautelosa, de olho no exterior.

Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset

O Copom deu início a um ciclo de afrouxamento monetário caracterizado principalmente pela “calibragem” da taxa de juros para um patamar menos contracionista. À frente, o ritmo de cortes e o ajuste total do ciclo ficam dependentes dos dados e principalmente do desenrolar do conflito no Oriente Médio.

Rafael Cardoso, economista-chefe do Daycoval

Quando vislumbramos o próximo corte, com o conflito ainda acirrado e o preço de petróleo pressionado, a probabilidade é de o Banco Central seguir com o ritmo de redução de 0,25 ponto percentual. Agora, se tiver uma melhora do cenário e o preço do petróleo voltar a cair para patamares anteriores ao do conflito, eventualmente o Banco Central pode vir com corte de 0,5 ponto percentual.

Raphael Vieira, co-head de investimentos da Arton Advisors

A leitura é de que o Banco Central deu início a uma recalibração técnica dos juros, e não a um ciclo de afrouxamento acelerado. A ausência de forward guidance (projeção futura) reforça que os próximos passos dependerão da evolução dos dados.

Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital

O Banco Central acertou no tom. Cortou, honrando a projeção, mas não se precipitou. Num ambiente em que o barril de petróleo pode ir a US$ 120 se o conflito escalar, com inflação implícita já ajustada para cima, entregar uma redução de 0,5 ponto percentual na Selic seria imprudente e comprometeria a credibilidade conquistada nos últimos trimestres.

Robson Pereira, economista-chefe da Brasilprev

É um cenário muito desafiador, mas o Banco Central fez, a meu ver, o que era recomendável: agir com cautela diante de um nível elevado de incerteza. Funciona como dirigir sob neblina – quanto mais densa ela fica, maior deve ser o cuidado. E foi exatamente essa postura que o BC adotou.

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