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Educação Financeira

Quanto o dólar ainda pode cair?

Especialistas comentam se valeria a pena voltar a parear o real ao dólar como nos anos 1990

Por E-Investidor

30/05/2022 | 12:13 Atualização: 30/05/2022 | 12:13

Dólar chegou a valer R$ 1, no início dos anos 1990, quando a moeda brasileira foi criada. (Fonte: Shutterstock)
Dólar chegou a valer R$ 1, no início dos anos 1990, quando a moeda brasileira foi criada. (Fonte: Shutterstock)

Se você acordasse e visse o dólar pareado com o real (US$ 1 para R$ 1), provavelmente iria “se beliscar” para ver se é verdade. Mas isso acontecia cotidianamente nos anos 1990.

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No início do Plano Real, mais especificamente de 1994 a 1996, a moeda brasileira comprava US$ 1 ou mais. Somente nos anos 2000 o dólar atingiu a casa dos R$ 2.

Mas o que aconteceu no período para isso ser possível? O que o País fez para garantir essa estabilidade? Ela foi benéfica? Seria possível isso se repetir?

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Conversamos com especialistas para entender isso.

Entenda por que o real foi pareado ao dólar

Entrada de produtos no Brasil, na década de 1990, auxiliou no combate à inflação. (Shutterstock/Reprodução)

Para entender por que, em 1994, o Brasil optou por parear sua nova moeda ao dólar, é preciso lembrar do que foi a economia na virada dos anos 1980 para 1990: uma inflação galopante, medida na casa dos milhares. Apenas no 1T1990, atingiu 223%.

Antes do real, houve outras tentativas de estabilizar o cenário. Para controlar a inflação e modernizar a economia brasileira, o então presidente Fernando Collor lançou, em 1990, o chamado Plano Collor.

Além do congelamento da poupança, o projeto eliminou muitas barreiras tarifárias para elevar o grau de importação. No entanto, o congelamento da poupança gerou uma recessão interna, além de ter um custo político.

“O desdobramento gerado pelo congelamento dos depósitos bancários causou forte recessão na indústria doméstica e também no comércio exterior, o que tornou a política comercial inócua“, afirma Rodolfo Coelho Prates, professor do curso de Ciências Econômicas da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

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Daí veio a ideia da criação de uma nova moeda, que seria capaz de se sustentar de modo estável. O real foi um sucesso, em grande medida por conta da produção de uma paridade com o dólar, pois a lógica era utilizar o ingresso dos importados para frear o aumento dos preços dos bens domésticos. Assim, a viabilidade em consumir bens importados reduziria a inflação.

Veja os prós e os contras da medida

Prates diz que a queda da inflação foi quase imediata, graças ao poder de compra em moeda estrangeira já em meados de 1994. A receita, que já havia sido testada em países como a Argentina, também obteve êxito no controle dos preços no Brasil.

Houve também benefícios políticos. O então Ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, foi eleito presidente da República por dois mandatos consecutivos.

Veja a cotação do dólar no acumulado de janeiro de cada ano durante a presidência de FHC:

  • 1995: 0,847.
  • 1996: 0,97827.
  • 1997: 1,0426.
  • 1998: 1,1206.
  • 1999: 1,4659.
  • 2000: 1,7997.
  • 2001: 1,9475.
  • 2002: 2,3705.

Mas houve um preço a ser pago. Embora o remédio tenha se mostrado eficiente, os efeitos colaterais foram amargos, a exemplo da queda das reservas de moedas internacionais. Isso agravou a vulnerabilidade externa a tal ponto que, apenas quatro anos após o lançamento do Plano Real, em 1998, o Brasil “pediu socorro” ao Fundo Monetário Internacional (FMI).

“Houve um consenso entre economistas de que a paridade da moeda nacional ao dólar foi exagerada do ponto de vista temporal, agravando as contas externas, principalmente a balança comercial e a conta de transações correntes”, salienta Prates.

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Como medida de contenção, o governo elevou a taxa de juros, que atraía capitais de curto prazo para investir em títulos do governo ou outras opções financeiras.

Em 1998, a taxa do Sistema Especial de Liquidação de Custódia (Selic) chegou à marca de quase 28% ao ano, o que afastou investimentos industriais e comprometeu o desenvolvimento dos setores produtivos.

É possível ter paridade entre o real e o dólar novamente?

O real se aproxima do aniversário de 30 anos. Em suas duas primeiras décadas, a estabilidade cambial desejada se cumpriu: até 2014, US$ 1 era trocado por um valor entre R$ 1,5 e R$ 3.

Desde então, por conta da crise política gerada pelo impeachment de Dilma Rousseff, subiu e, com a covid-19, aproximou-se dos R$ 6 por várias vezes.

Esse cenário compromete a solidez da moeda, dificulta a industrialização e eleva a inflação. Diante disso, fica uma questão: por que não voltar a criar paridade por meio de uma política monetária semelhante? Afinal, o Banco Central não deixa de reagir à dinâmica cambial.

Prates explica que isso não é desejável por conta dos efeitos colaterais: “A excessiva valorização do real poderia agravar ainda mais esse processo, deixando a economia brasileira sem ‘musculatura’ industrial, apenas apoiada no agronegócio e na prestação de serviços pouco qualificados”.

Equilíbrio

Se a paridade não é desejável, um dólar muito elevado também não. Ele abafa a economia doméstica e diminui o poder de compra, a exemplo do que ocorre com gasolina e commodities direcionadas ao exterior, agravando o desabastecimento no País.

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Prates acredita que a médio prazo é possível esperar um cenário um pouco mais equilibrado. No Brasil, o governo tem elevado a taxa básica de juros para reagir contra a inflação, que cresce por motivos internos, mas também em razão de uma retração econômica global.

“A taxa de juros no Brasil deve permanecer alta por mais um período, pelo menos um ano. Isso vai manter o ingresso de divisas e, consequentemente, pressionará para ocorrer a queda no preço do dólar“, observa Prates.

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