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Investimentos

ISE da B3: como o índice funciona e o que muda quando uma empresa entra ou sai do índice de sustentabilidade

Mais do que uma vitrine ESG, indicador atua como filtro de qualidade e muda a forma como o mercado enxerga risco e governança nas companhias

Por Igor Markevich

10/04/2026 | 15:57 Atualização: 10/04/2026 | 15:57

Entenda os critérios, a lógica por trás da seleção e como a movimentação anual afeta percepção, fluxo de capital e decisões de investimento. | Imagem: Adobe Stock
Entenda os critérios, a lógica por trás da seleção e como a movimentação anual afeta percepção, fluxo de capital e decisões de investimento. | Imagem: Adobe Stock

A cada ano, a nova carteira do ISE B3, índice da Bolsa que reúne empresas com melhores práticas em sustentabilidade, chama atenção pelo entra e sai de companhias. Mas, para além da lista, o movimento levanta uma pergunta mais relevante para o investidor: o que realmente muda quando uma empresa passa a integrar, ou deixa, o principal indicador ESG da B3?

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A resposta passa por entender o que o índice é — e, mais importante, o que ele não é.

Criado em 2005, o ISE surgiu quando o mercado começava a incorporar o ESG, sigla em inglês para ambiental, social e governança, três dos principais critérios de avaliação de sustentabilidade. A proposta é avaliar empresas não apenas pelos resultados financeiros, mas também pela forma como lidam com temas como impacto ambiental, relações de trabalho, transparência e gestão de riscos.

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O índice é uma carteira teórica que seleciona companhias a partir de um processo anual baseado em questionários, envio de evidências e critérios objetivos. O modelo considera diferentes dimensões, como meio ambiente, clima, capital humano, capital social, governança e inovação. Ao longo do ano, há monitoramento de riscos reputacionais e revisões periódicas de liquidez.

A carteira reúne empresas de diferentes setores, de bancos como Itaú Unibanco (ITUB4) e Banco do Brasil (BBAS3) a grupos industriais como WEG (WEGE3) e companhias de energia como Engie Brasil Energia (EGIE3) e CPFL Energia (CPFE3), além de nomes do varejo e consumo, como Natura (NTCO3) e Lojas Renner (LREN3).

“O ISE B3 se consolida como uma ferramenta adaptada às especificidades do mercado brasileiro”, afirma Jéssica Rosani, gerente de sustentabilidade da B3. “Um dos diferenciais é a aderência ao contexto local, tanto em termos de práticas quanto de conexão com a agenda regulatória.”

Em duas décadas, o índice, baseado em uma pontuação de 0 a 100, acompanhou a evolução dessa agenda. Engajou 399 empresas, somou mais de 1.500 avaliações e chegou a superar o Ibovespa em 13 de seus 21 anos.

Filtro ou selo?

Apesar da leitura comum de que o ISE funciona como um selo ESG, a interpretação mais útil para o investidor é outra.

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“Ele funciona como os dois (filtro e selo), mas mais como filtro”, diz Eliana Camejo, vice-presidente do conselho da Sustentalli. “Ele ajuda a separar quem tem uma agenda mais estruturada de quem ainda está mais no discurso.”

Estar no índice não significa que a empresa atingiu um padrão ideal ou que está livre de riscos. Significa que ela passou por uma régua mínima em temas que hoje influenciam diretamente risco e confiança.

O índice funciona como um atalho de leitura para o investidor. Diante de empresas com números semelhantes, a presença no ISE tende a sugerir maior preparo para lidar com pressão regulatória, temas climáticos e governança.

O que muda ao entrar ou sair

A entrada no índice não altera automaticamente fundamentos ou resultados. O que muda primeiro é com quais olhos a empresa passa a ser lida pelo mercado.

“Quando uma empresa entra no ISE, ela transmite a ideia de que existe mais método, mais organização e mais capacidade de tratar sustentabilidade como gestão”, afirma Eliana Camejo. “O efeito inicial é de percepção.”

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Essa mudança pode, ao longo do tempo, influenciar interesse de investidores, valuation e até custo de capital. Mas não há efeito mecânico.

No sentido oposto, a saída tende a gerar mais ruído.

“Ela nunca é totalmente neutra”, diz a executiva. “O investidor passa a perguntar o que aconteceu.”

Quando o índice reage a crises

Em dezembro de 2023, por exemplo, a petroquímica Braskem (BRKM5) foi excluída da carteira após o agravamento da crise em Maceió, ligada ao risco de colapso de minas de sal-gema. A decisão foi tomada com base no Plano de Resposta a Eventos ESG, mecanismo acionado pela B3 para avaliar se empresas envolvidas em incidentes relevantes ainda são compatíveis com o índice.

Para muito além do movimento das ações, o episódio desempenhou papel de alerta de risco e a exclusão sinalizou ao mercado que eventos ambientais graves têm peso direto na permanência no índice.

No início do mesmo ano, o caso da Americanas (AMER3) seguiu lógica semelhante, desta vez no campo da governança. Após a revelação de inconsistências contábeis bilionárias, a companhia foi retirada do ISE.

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Há precedentes. Em 2019, a Vale (VALE3) também foi excluída após o rompimento da barragem de Brumadinho. À época, o entendimento foi de que o desempenho em sustentabilidade havia sido significativamente alterado, o que exigia a retirada da carteira.

Impacto no mercado

Não existe uma relação direta entre entrada no ISE e valorização das ações. Tampouco a saída implica queda automática. O impacto depende de fatores como liquidez, base de investidores e contexto da empresa.

Ainda assim, não é incomum que investidores baseiem nessas métricas suas decisões de investimento.

“Ele é amplamente utilizado por gestores e investidores institucionais como referência de qualidade ESG e como critério de screening”, afirma Jéssica Rosani, da B3, ao se referir à triagem inicial que filtra empresas com padrões mínimos de sustentabilidade e governança.

Na prática, isso significa que o ISE pode determinar quais empresas entram no radar de determinados fundos. Há também produtos que replicam o índice, como o ETF ISUS11, o que reforça sua conexão com fluxo de capital.

O que o ISE revela sobre o ESG

Mais do que classificar empresas, a carteira indica a maturidade do ESG no Brasil.

“O ISE B3 sempre buscou atuar como um mobilizador de boas práticas no mercado”, afirma Jéssica Rosani, da B3

Entre 2022 e 2025, a média das notas das empresas da carteira avançou cerca de 2 pontos, mesmo com o aumento da exigência nos critérios, indicando evolução nas práticas avaliadas.

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Ao mesmo tempo, ainda há lacunas. Parte das companhias não integra plenamente sustentabilidade ao modelo de negócio ou não mede seus impactos de forma consistente.

Esse estágio ainda desigual ajuda a explicar por que o índice não funciona apenas como um retrato estático. “Ele ajuda empresas de diferentes setores, portes e níveis de maturidade a evoluírem em sua jornada ESG”, afirma Jéssica Rosani.

Em termos práticos, significa que o ISE não separa apenas quem está dentro ou fora, mas também expõe diferentes graus de desenvolvimento dentro da própria carteira. Há empresas mais avançadas, com métricas consolidadas e integração ao negócio, e outras ainda em processo de amadurecimento.

“O índice está passando por um processo de revisão de metodologia. Estamos ouvindo o mercado para identificar oportunidades de avanço”, afirma Jéssica Rosani, da B3. “Nosso principal objetivo é reduzir o esforço das empresas para participação, tornando o questionário mais objetivo, simples e ágil. Também buscamos aumentar o valor analítico do índice, de modo a possibilitar uma melhor análise de performance comparativa.”

A nova metodologia deve ser divulgada em julho de 2026 e passa a valer no processo de seleção do mesmo ano, com efeitos na carteira a ser publicada em 2027.

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Para Eliana, especialista em sustentabilidade, isso indica uma mudança de fase. “O ESG no Brasil está ficando mais sério e menos decorativo”, afirma. “O investidor começa a olhar menos para promessas e mais para a capacidade de lidar com risco, clima e governança.”

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