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3 incertezas rondam a Vale (VALE3) e ameaçam seus dividendos

Para analistas, mineradora deve entregar bons dividendos no curto prazo. Mas e para quem pensa em uma carteira previdenciária?

3 incertezas rondam a Vale (VALE3) e ameaçam seus dividendos
Vale, VALE3. (Foto: Michael Turner/Wirestock em Adobe Stock)
  • A Vale só é recomendada para os próximos 12 meses por um analista
  • Analistas estimam um pagamento de 9% a 11% do valor de mercado da Vale em dividendos
  • A Vale é vista como uma boa ação para a carteira previdenciária

A Vale (VALE3) passa por três incertezas que fazem o investidor questionar se a empresa tende a continuar com uma distribuição de dividendos robusta.

A primeira envolve a escolha do novo presidente da companhia, já que o governo tenta emplacar um nome para comandar a mineradora, mesmo a empresa sendo uma organização privada. A segunda diz respeito ao acordo de Mariana (MG), no qual a Vale se propôs a pagar R$ 140 bilhões em conjunto com a BHP e a Samarco. Por fim, o preço do minério de ferro também vem testando a tese de investimentos na empresa.

O minério de ferro encerrou o pregão de terça-feira (18) em US$ 107,05 por tonelada. A commodity chegou a US$ 122,49 por tonelada em 26 de janeiro de 2023 – recuo de 12,6% de lá para cá, segundo dados de levantamento de Einar Rivero, CEO da Elos Ayta Consultoria.

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O papel da Vale atingiu sua máxima histórica em valores ajustados por proventos no mesmo dia, a R$ 88,43. Desde então, a ação da companhia recua 31,4% após encerrar o pregão da última terça-feira (18) em R$ 60,66. Parte dessa queda vem da variação do preço do minério de ferro no período.

O recuo no preço da commodity ocorre devido à desaceleração da economia chinesa, o principal cliente da Vale. O mercado estava acostumado a ver a China crescer por volta de 10% ao ano nos últimos anos. No entanto, o país desacelerou.

Em 2023, o Produto Interno Bruto (PIB) da China cresceu 5,2% em relação a 2022. Já no primeiro trimestre de 2024, o PIB chinês avançou 5,3% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Esses fatores acabam pesando sobre a ação da Vale, que leva o investidor a se perguntar se o papel da companhia seguirá atrativo para uma estratégia de dividendos, principalmente para o longo prazo, como uma carteira previdenciária com foco em renda para os próximos 30 anos.

VALE3 na carteira previdenciária de dividendos

Na visão de João Abdouni, analista da Levante Inside Corp, a Vale sofre da desconfiança do mercado principalmente devido à queda do preço do minério de ferro.

Ainda assim, ele comenta que a companhia deve entregar um resultado interessante no ponto de vista de dividendos no curto prazo, com dividend yield (rendimento de dividendos) anual de 9%, o equivalente ao pagamento entre R$ 25 e R$ 30 bilhões em proventos.

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“Atualmente, VALE3 está sendo negociada a cerca de 4 vezes EV/EBITDA (valor da empresa sobre lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) e apresenta um retorno aos acionistas de cerca de 17% ao ano, pensando em um minério de ferro de médio longo prazo de US$ 90. Neste sentido, seguimos com recomendação de compra para as ações da Vale”, diz Abdouni.

No entanto, para o longo prazo, o especialista diz que o investidor deve ser mais cauteloso. Ele diz ser muito difícil estimar o volume de produção de aço global para os próximos 30 anos com a expectativa de queda populacional global. Com isso, o preço médio do minério de ferro pode se manter nos atuais patamares, subir ou até mesmo cair.

Na visão do especialista, para a Vale compor uma carteira previdenciária, o investidor precisará avaliar a presença da empresa no portfólio ano a ano, visto que no decorrer desse tempo a empresa tende a passar por transformações, positivas ou negativas, que podem aumentar ou reduzir a distribuição de proventos.

Paulo Luives, especialista da Valor Investimentos, comenta que o setor oferece o risco da volatilidade do preço do minério no longo prazo. A variação no preço da commodity atrapalha o investidor que busca uma renda contínua e previsível, características de uma carteira de ações previdenciárias. “Se o investidor tiver perfil mais conservador, a Vale não é a empresa ideal para formar um patrimônio que faça renda de aposentadoria via dividendos, porque a volatilidade da commodity provoca variação nas receitas da empresa. O setor elétrico, por exemplo, traz essa previsibilidade, sendo ele o melhor para esse perfil conservador”, diz.

Ilan Arbetman, analista da Ativa Investimentos, argumenta que para evitar qualquer volatilidade na renda passiva durante a aposentadoria, o investidor deve diversificar os investimentos. Ele recomenda, no mínimo, dez ações na carteira, cada uma delas com 10% de participação.

Todavia, vale lembrar que essa é a diversificação mínima sugerida, sendo possível o investidor comprar mais ações ao ponto da carteira ficar com um peso médio de 4% ou menos por papel – nível de diversificação considerado o ideal pelo analista.

Em suas projeções, Arbetman calcula que a Vale deve lucrar R$ 46,2 bilhões em 2024 e entregar um payout (porcentagem do lucro distribuído na forma de dividendos) de 66,2%. Em números absolutos, tal porcentagem deve representar um pagamento de R$ 6,74 por ação, ou 11% do valor de mercado da companhia em 2024.

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Para 2025, ele acredita que a empresa tende a ter um lucro maior, por volta de R$ 52,9 bilhões, mas distribuir menos dividendos. “Isso deve acontecer por causa do acordo de Mariana, que deve tirar parte do lucro que seria destinado aos dividendos para pagar a indenização relacionada à questão ambiental e humana”, diz Arbetman, que estima um payout de 60,1%, ou R$ 7 por ação, para 2025. Sobre este tema, a grande questão é que a Advocacia-Geral da União (AGU) entrou com recurso para tentar bloquear R$ 79,6 bilhões das mineradoras Vale, BHP e Samarco em ação relativa ao desastre ocorrido em novembro de 2015.

Como o dólar impacta a Vale?

Arbetman diz que a alta do dólar também deve influenciar os números da empresa nos próximos trimestres. O especialista da Ativa reforça que a Vale é uma grande exportadora de minério de ferro e de outros metais e, por isso, tende a se beneficiar da alta da moeda americana em relação ao real. O dólar sobe 10,95% no acumulado de 2024 – até o fechamento do pregão da terça-feira (18). No período, a moeda americana foi de R$ 4,85 para R$ 5,43.

“A moeda americana, no entanto, tem se mostrado muito volátil devido às questões fiscais e ao adiamento do corte de juros do banco central americano e, no meu ponto de vista, essa volatilidade é complicada para o investidor que tem em vista o papel para formar a carteira previdenciária. Se o dólar variar em grandes amplitudes em um trimestre, a empresa pode ter variação de receitas e lucro, deixando o ativo mais arriscado”, aponta Arbetman.

No começo do ano, analistas do mercado financeiro estimavam que o dólar fosse encerrar 2024 em R$ 5, segundo o primeiro Boletim Focus de 2024. Na mais recente pesquisa com o mercado, publicado na segunda-feira (17), a média aponta o dólar cotado a R$ 5,13 ao final do ano. O número significa alta de 2,6% em relação à projeção inicial.

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Mesmo com o aumento da expectativa, a estimativa final mostra que o mercado espera uma queda de 5,52% na cotação do dólar em relação ao preço desta última terça-feira (18), quando a moeda atingiu R$ 5,43. É justamente esse sobe e desce que retira a previsibilidade da companhia e afeta a estabilidade de dividendos para o investidor.

Paulo Luives, da Valor Investimentos, também reforça essa ideia. “O dólar alto é bom para a empresa devido às exportações, mas tende a atrapalhar a Vale se ficar instável. É importante ter em mente que o dólar pode impactar o resultado nas linhas receita e lucro. Isso porque essas empresas fazem proteção em dólar, conhecido como head cambial, e a depender de como for, o dólar pode ajudar ou atrapalhar o desempenho”, diz.

No head cambial, a empresa compra contratos de dólar no mercado de derivativos para uma data específica, que dará o direito a ela de vender moeda ao preço acordado na data da compra do contrato. A operação serve como uma proteção, mas caso o valor especificado no início fique muito acima do valor final no vencimento do contrato, em um rali de baixa na cotação, a empresa terá prejuízo na operação.

A Vale é a empresa certa?

Se a perspectiva para uma companhia mostra intensa volatilidade, o investidor deve procurar outro setor para garantir a sua aposentadoria?

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A resposta para esta pergunta não está nos números, mas na reação da empresa frente às mudanças. Arbetman, da Ativa, lembra que o investidor deve olhar para a companhia e ver o que ela está fazendo para atualizar seu modelo de negócios de forma a manter uma boa lucratividade ao longo dos próximos anos.

Ele aponta que a Vale se encontra em uma situação um pouco complicada, principalmente em relação à dependência da China, visto que a mineradora tem 50% de suas exportações voltadas para o país asiático, hoje em desaceleração. “A empresa precisaria encontrar novos mercados para absorver sua demanda de minério de ferro, uma tarefa complicada.”

O CFO da Vale, Gustavo Pimenta, disse nos bastidores do evento Esfera Brasil, no dia 7 de junho, que a chegada do carro elétrico e a demanda por minério de ferro vinda de outros países pode suprir a redução do mercado chinês, assolado por uma crise imobiliária. Para ele, a Vale pode manter ou até elevar os patamares de lucratividade, trazendo bons dividendos para o investidor.

O mercado imobiliário chinês, que foi fundamental para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do país nos últimos anos, está desacelerando. No entanto, Pimenta destacou que a fabricação do carro elétrico na segunda maior economia do planeta tende a manter o consumo de metais em patamares interessantes. “A China continua com uma boa demanda por aço por causa do carro elétrico. A fabricação de componentes para esse produto exige o aço, o qual possui o minério de ferro como matéria-prima”, disse o executivo, na ocasião.

Para superar o momento atual, Pimenta aponta a possibilidade de a demanda de outros mercados alavancar o preço do minério de ferro. Segundo ele, a redução do consumo de minério de ferro pela China tende a ser mais que compensada por países do Oriente Médio e do Sudeste Asiático. “A Índia pode absorver esse consumo chinês. Nos últimos dez anos, o mercado estimou uma queda no preço do minério de ferro por uma desaceleração da China, eles erraram em 100% dos anos. Todos os anos, o preço seguinte sempre foi mais alto que o do ano anterior”, afirmou.

Melhorias no modelo de negócios da Vale

Os analistas do mercado financeiro apontam que a companhia está se empenhando em diversificar clientes. Um exemplo vem do Oriente Médio, que tende a aumentar a demanda devido à construção de cidades futurísticas na região.

Arbetman, da Ativa Investimentos, lembra que o próprio CEO da Vale disse na quinta-feira (13) que a empresa já vendeu 27 milhões de toneladas de minério de ferro para a região e a meta da companhia é chegar a 67 milhões de toneladas no curto e no médio prazos.

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O analista também cita o carro elétrico. “A Vale vem buscando se atualizar e pode aproveitar as novas indústrias e exportar outros metais, como o níquel e o cobre. Hoje, a maioria da produção da empresa está no minério de ferro, mas a companhia tem apresentado planos de diversificação de receitas, seja pelo minério extraído seja pela região que ela exportará”, aponta.

André Vasconcellos, professor da Trevisan Escola de Negócios, avalia que a Vale vem trazendo melhorias e transformações no seu modelo de negócios para se manter entre as maiores mineradoras do mundo há mais de 20 anos. A empresa planeja expandir sua produção de outros metais ao longo da década: estima crescer a produção de cobre em 181% até 2030, de 320 quilotoneladas (kt, medida equivalente a 1.000 toneladas) em 2024 para 900 kt.

Essa produção deve crescer devido ao projeto Hu’u, na Indonésia, um ativo de classe mundial. Além disso, a Vale segue investindo na exploração de ativos em regiões da América Andina e do leste europeu. Além do cobre, o níquel se tornou outra aposta da Vale para expansão. Para 2024, a empresa tem uma projeção de produção de 160 kt de níquel a até 175 kt, relativamente em linha com a produção de 2023.

Em seu planejamento de perspectivas de negócio para 2024, a companhia diz que busca se tornar líder no fornecimento de níquel na transição para uma matriz energética sustentável. “O principal produto, o níquel Classe 1, nos coloca em uma posição única na medida em que as operações, ambientalmente responsáveis no Atlântico Norte, são consistentes com a transição para uma economia de baixo carbono”, diz a mineradora.

Estima-se que, em 2026, a produção de níquel da Vale fique entre 210 kt e 230 kt, reflexo dos projetos de reposição no Canadá e na Indonésia (Pomalaa e Morowali) e do segundo forno de Onça Puma, no Pará. A partir de 2030, a produção de níquel deverá ficar acima de 300 kt com entrada de projetos como Thompson Ultramafics (Canadá) e Sorowako HPAL (Indonésia).

“A Vale é uma empresa que não fica para trás, a companhia consegue acompanhar e antecipar movimentos no mercado. Nos últimos anos, ela tem feito transformações e aquisições com foco em inovação e melhorias de sua capacidade de produção e vendas”, diz Vasconcellos, da Trevisan.

Na última sexta-feira (14), a Vale reiterou que busca potenciais parceiros para sua plataforma de energia após aquisição de fatia de 45% da Cemig (CMIG4) na Aliança Energia. A Vale afirmou que busca potenciais parceiros para essa plataforma. “O aumento da participação na Aliança Energia é um passo importante para a criação de uma plataforma de energia, que potencialmente contemplará outros ativos do portfólio da Vale”, detalhou a empresa. Para Vasconcellos, a mineradora demonstrou interesse na expansão em novos negócios, justamente para se manter atualizada em um mercado global competitivo.

Investidor deve comprar a ação da Vale?

O consenso dos analistas para saber se o investidor deve ou não comprar a ação da Vale dependerá de três fatores. O primeiro diz respeito ao objetivo do investimento, se a compra serve para buscar lucro no curto e no médio prazos (até um ano). Se esse for o intuito, somente o analista da Levante, João Abdouni, recomenda compra, por achar o dividendo da empresa atrativo.

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Mas para o investidor garantir um dividendo yield (rendimento de dividendos) de pelo menos 9%, o valor limite de preço para a ação fica em R$ 61,50 – o cálculo leva em conta o pagamento de R$ 25 bilhões de dividendos. Já se o valor em proventos chegar a R$ 30 bilhões, o preço-teto vai a R$ 73,20.

Por outro lado, os analistas do BTG Pactual estão com recomendação neutra para a Vale em até 12 meses. Eles dizem preferir esperar os resultados dos próximos trimestres para terem uma melhor visão de que a ação “deixou as suas saliências para trás”. Entretanto, confirmam que a dinâmica de lucro da empresa melhorou e que as expectativas dos investidores com a ação no curto prazo parecem melhores. “Ainda temos dificuldade em ver grandes vantagens, mas acreditamos que as ações permanecem descontadas em 4 vezes o Ebitda de 2024 e a empresa deve entregar rendimentos de dividendos mais próximos de 9%”, dizem Leonardo Correa e Caio Greiner, que assinam o relatório do banco.

O BTG estima lucro de US$ 10,38 bilhões para a Vale em 2024, outro de US$ 8,65 bilhões em 2025 e mais um de US$ 8,53 bilhões em 2026. Devido à queda do preço do minério de ferro e à menor demanda da China, o BTG tem recomendação neutra para a Vale nos próximos 12 meses. O preço-alvo para a American Depositary Receipt (ADR, recibos que permitem negociar nos EUA ações de empresas não americanas) cotada em Nova York é de US$ 16, alta de 43,11% na comparação com o fechamento de terça-feira (18), quando a ADR encerrou o pregão cotado a US$ 11,18.

A Ativa também tem recomendação neutra nos próximos 12 meses, com preço-alvo de R$ 75 para a ação negociada na B3 (B3SA3), no Brasil. O preço-alvo equivale a uma potencial alta de 23,63% na comparação com o fechamento de segunda-feira (17), quando a ação encerrou o pregão a R$ 60,66.

Arbetman diz que a empresa não está interessante para o investidor nos próximos 12 meses, visto que há incertezas sobre a sucessão da companhia e as questões de Mariana, que devem reduzir os dividendos em 2025. Por outro lado, para o longo prazo de uma carteira previdenciária, os analistas dizem que a empresa serve para o investidor, desde que ele não tenha medo da volatilidade das commodities.

“Para o longo prazo, a Vale é uma empresa muito interessante. A companhia demonstra que está se atualizando e buscando vender novos produtos para novos clientes. Hoje temos recomendação neutra para os próximos 12 meses, mas se for para uma carteira previdenciária em que há a diversificação e aceitação da volatilidade das commodities, a Vale é uma ótima opção para o investidor”, salienta Arbetman.

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