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Vale (VALE3), Usiminas (USIM5) ou CSN (CSNA3): quem pagará mais dividendos?

Todas as companhias do setor recebem recomendação neutra, mas só uma serve para ganhar com dividendos, dizem analistas

Vale (VALE3), Usiminas (USIM5) ou CSN (CSNA3): quem pagará mais dividendos?
(Imagem: Sunshine Seeds em Adobe Stock)

As empresas de siderurgia e mineração amargam perdas em março, puxadas pela forte baixa do minério de ferro no mercado internacional. As ações da Vale (VALE3) recuam 5,43% neste mês e às 13h desta terça-feira (13) estavam cotados a R$ 60,64.

No mês, os ativos de Usiminas (USIM5) caem 9,39%, cotados a R$ 10,03. O papel da CSN Mineração (CMIN3) recua 2,80% (R$ 5,90) e os da CSN (CSNA3) estão praticamente estáveis (R$ 16,71).

Em Dalian, na China, o minério de ferro cai 4,17% no acumulado do mês, saindo dos 887 yuanes para os 850 yuanes. Na cotação americana, a commodity recua 9,5% na Bolsa de Chicago, indo dos US$ 124,86 por tonelada para os US$ 113 por tonelada.

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A baixa acontece devido ao aumento dos estoques do minério de ferro nos portos chineses, em um momento em que a segunda maior economia do mundo patina. A alta do estoque reflete a redução de consumo de minério de ferro e aço no país devido à crise do setor imobiliário, que se intensificou com a falência da Evergrande, uma gigante do setor, decretada pela Justiça de Hong Kong no fim de janeiro de 2024.

  • Crise na China coloca Vale e siderúrgicas contra a parede. E agora?

A produção de aço da China se voltou para a exportação ao não encontrar demanda interna. “O país está exportando uma quantidade de aço muito forte e não vista desde meados da última década. De janeiro a outubro de 2023, a China foi responsável por 56,1% da produção global de aço”, explica Ilan Arbetman, analista da Ativa Investimentos.

Ele comenta que o governo chinês tentou resolver o problema do setor imobiliário para melhorar o desempenho econômico da economia local, o que acarretaria em um aumento na demanda por aço e nem de minério de ferro, fazendo o preço da commodity subir.

Arbetman detalha que várias medidas foram tomadas pelo governo chinês para reaquecer o mercado imobiliário, como redução da exigência no valor da entrada para aquisição de casas, que foi de 80% para até 30%, além da redução das taxas de reservas bancárias necessárias, o que confere uma maior flexibilidade para os bancos concederem empréstimos.

“Apesar dos estímulos, dados fundamentais para o setor de real estate (mercado imobiliário), como o volume de construções realizadas e a variação porcentual de preços de imóveis no país, seguiram decepcionando ao longo de 2023”, diz Albertaman. Esse cenário frustrante resultou em receitas e lucros menores nas empresas de siderurgia e mineração do Brasil por conta da dependência da economia chinesa, a maior consumidora do minério de ferro brasileiro.

A Vale reportou um lucro líquido de R$ 39,94 bilhões em 2023, queda de 58,36% na comparação com o lucro de R$ 95,92 bilhões de 2022. Segundo a empresa, o resultado foi impactado pela queda de 9% do Ebitda ajustado proforma, que foi de US$ 20,9 bilhões em 2022 para US$ 19 bilhões em 2023. “A queda foi por causa pelo menor preço de minério de ferro, cobre e níquel durante o ano”, salientou a companhia.

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Já a CSN teve um lucro líquido de R$ 403 milhões em 2023, um tombo de 81% na comparação com o resultado de R$ 2,16 bilhões de 2022. Em sua defesa, a siderúrgica diz que o resultado foi impactado pelos desafios operacionais verificados em seu segmento e pelo aumento das despesas financeiras. A empresa não dá mais detalhes em seu balanço para esse forte recuo.

No mesmo período, a Usiminas reportou um lucro líquido de R$ 1,64 bilhão em 2023, baixa 22% na comparação com 2022. Segundo a empresa, o número foi menor em razão do resultado operacional inferior ao do ano anterior.

Os dados mostram que o resultado operacional foi menor por causa da queda de 22,1% na produção de aço bruto, que encerrou 2023 em 2,1 milhões de toneladas. “Isso é consequência da reforma do Alto Forno 3 e Aciaria 2, executadas ao longo de 2023”, diz a empresa.

A Usiminas também viu sua receita de mineração cair 2,4%, indo de R$ 3,6 bilhões em 2022 para R$ 3,5 bilhões em 2023. “Isso foi em função da valorização do real frente ao dólar e dos menores preços de minério praticados no mercado”, afirma a companhia.

Enquanto isso, a CSN Mineração foi a única que ficou no positivo. A companhia apresentou um lucro de R$ 3,6 bilhões em 2023, uma alta de 21% em relação ao lucro de 2,95 bilhões de 2022. “Esse resultado é consequência da melhora no resultado operacional, com maiores preços e volumes, reforçando o excelente momento vivido pela companhia”, ressalta a CSN Mineração.

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Embora o minério de ferro tenha ficado abaixo do patamar de 2022 ao longo de 2023, a CSN Mineração lembra que a commodity encerrou o quarto trimestre de 2023 acima do valor praticado no trimestre anterior. “O preço do minério encerrou o quarto trimestre de 2023 com uma cotação US$ 14,30 por tonelada acima da média verificada no terceiro trimestre do mesmo ano”, diz a empresa, que foi a única a aproveitar esse rali de fim de ano da commodity para sustentar um melhor resultado na última linha do balanço.

CSN Mineração surpreende, mas papel está caro

A CSN Mineração foi a única companhia a contornar o grande furacão chinês com crescimento no lucro. Sendo assim, os investidores podem pensar que a empresa é uma boa alternativa para investir. No entanto, além de não ocupar o posto de favorita dos analistas do setor, a companhia, inclusive, não tem recomendação de compra por nenhuma casa consultada pela reportagem.

Segundo Frederico Nobre, líder de análise da Warren Investimentos, a CSN Mineração teve um resultado sólido que surpreendeu o mercado, mas a ação não está mais em um patamar atrativo de compra para o investidor. “A ação da CSN Mineração subiu mais de 90% no último ano, o que deixa a margem de segurança do investidor complicada”, argumenta Nobre, que tem recomendação neutra para o papel.

Ele diz que a ação pode ser interessante para o investidor por conta do dividend yield (retorno de dividendos) projetado para este ano, de 10%. “A empresa tem ótimos fundamentos e está muito bem gerida, mas o preço ativo já chegou no teto. Por isso, essa não é a hora de comprar”, detalha Nobre.

O BTG Pactual também tem uma visão neutra para CSN Mineração, recomendação que se estende para todas as empresas do setor de mineração e siderurgia. “Estamos cautelosos em relação às operações siderúrgicas, já que as importações permanecem elevadas no Brasil, o que tende a deixar as margens baixas e pressionadas nos próximos trimestres”, afirmam Leonardo Correa e Caio Greiner, que assinam o relatório do banco.

Além da própria CSN Mineração, o BTG diz que o investidor não deve comprar os papéis da CSN, visto que a companhia precisa apresentar alguns feitos para conquistar a confiança do banco, como a redução do seu endividamento, que é medido pela alavancagem. O indicador da encerrou 2023 em 2,58 vezes.

“Estamos relativamente cautelosos quanto às perspectivas para o grupo CSN nos próximos trimestres. Estaríamos preparados para rever o nosso cenário de investimento caso tivéssemos maior confiança na sua agenda de desalavancagem nos próximos trimestres”, afirmam os analistas do BTG.

Usiminas pode entregar bons dividendos, mas papel já está no preço justo

Correa e Greiner também estão receosos com a Usiminas. Eles comentam que a empresa tende a apresentar lucros incertos no médio e no longo prazo. Conforme os analistas, a companhia será impactada pelo preço do aço no médio prazo, neste quadro em que o apetite da China deixa a desejar.

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Já no longo prazo, a lucratividade tende a melhorar, mas ainda assim não há justificativa para uma compra do papel da companhia. “Embora a dinâmica dos lucros esteja definida para melhorar no longo prazo, acreditamos que as ações já estão refletindo de forma justa essa melhora na lucratividade. Assim, estamos neutros”, argumentam.

Ainda que a recomendação não indique compra, os analistas do BTG calculam que a Usiminas deve entregar um dividend yield de 9,5% em 2024. Para Nobre, da Warren, a companhia deve pagar cerca de 5% do valor da sua ação em proventos. Ele também se posiciona em recomendação neutra em relação à compra dos papéis.

A mesma conclusão adota a Ativa Investimentos, que acredita que o papel não deve entregar nem boa rentabilidade em termos de valorização de cota, nem de distribuição de dividendos. “Acreditamos fortemente que a foto do setor siderúrgico segue negativa e a Usiminas deve apresentar resultados fracos em função da dificuldade em repassar preços e da baixa competitividade comercial frente ao produto importado”, comenta Arbetman, da Ativa. Para ele, o investidor deve se afastar do papel.

A preferida para dividendos

De modo geral, os analistas estão com recomendação neutra para praticamente todo o setor de siderurgia e mineração. Segundo o analista da Ativa investimentos, isso ocorre por conta das expectativas para a economia chinesa, que para o analista deve crescer cerca de 4% em 2024, 1,2 ponto porcentual abaixo dos 5,2% vistos em 2023.

Justamente por causa dessa desaceleração, o especialista calcula que o minério de ferro deve encerrar 2024 a US$ 110 por tonelada. O número representa uma queda de 2,65% na comparação com o patamar atual de US$ 113 por tonelada da commodity. “Estimamos que o segmento ainda visualizará preços baixos, custos ainda altos e, assim, contribuições modestas aos resultados das companhias”, detalha Arbetman.

Em meio às dificuldades, o mercado recorre à empresa mais sólida do setor, a Vale. A recomendação para a companhia é neutra no BTG e na Ativa, mas os analistas comentam que a empresa oferece o maior dividend yield do setor. O BTG calcula que ação pode pagar cerca de 10% do valor da sua ação em dividendos, enquanto a Ativa projeta 10,1%.

Segundo o especialista da Ativa, o papel da Vale não deve subir de forma significativa nos próximos 12 meses e o investidor corre riscos se ele investir com a estratégia de valorização do papel. De acordo com ele, esse não é o caminho. Albertman, porém, comenta que a empresa pode seguir distribuindo 30% da diferença entre seu Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) e os investimentos em curso.

“Isso possibilita a empresa realizar pagamentos de dividendos extraordinários e continuar com programas de recompra de ações, que já atingiram cerca de 17% dos papéis de sua base desde 2021, fazendo com que a Vale seja a única do seu setor que o investidor pode comprar com a estratégia de dividendos”, afirma Albertman.

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Já Nobre, analista da Warren, enxerga a Vale de forma distinta. Ele acredita que, além de distribuir bons dividendos, a ação tende a não sofrer tanto com a volatilidade do mercado. O dividend yield projetado pelo analista para a companhia está em 9,3%, mas a empresa também deve fazer recompras de ações ao longo do ano, o que pode impulsionar o ativo. “Com a recompra, o retorno do ativo pode aumentar em 2,9 pontos porcentuais, deixando o yield total em 12,2%, o que muito interessante para o investidor”, explica.

Todavia, ele diz que a mineradora até apresenta riscos para o investidor, como a forte pressão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para colocar um indicado do governo na gestão da mineradora. “Isso trouxe temores do mercado, mas já é algo superado e que não deve trazer volatilidade para o papel se o governo não tentar interferir novamente na empresa”, argumenta Frederico Nobre, que recomenda compra para ação se o investidor quiser lucrar com dividendos.

Na última sexta-feira (8), o Conselho de Administração da Vale decidiu manter Bartolomeo no cargo de CEO da mineradora até o fim de 2024. O mandato do atual presidente estava previsto para acabar no fim de maio, mas o impasse entre os conselheiros da companhia sobre a escolha de um substituto motivou o adiamento da troca. Para saber a visão do mercado sobre essa decisão, leia esta reportagem.