Segundo William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, com a temporada de balanços, o mercado passa a observar as oportunidades no setor à medida que as companhias reportam seus resultados. Como os Estados Unidos reúnem o principal polo de tecnologia do mundo, o fluxo de capital dos investidores tende a ficar direcionado para as bolsas americanas.
“O fôlego visto nas bolsas americanas nas últimas semanas de abril não foi visto no Ibovespa. O índice da B3 não rompeu os 200 mil pontos, mas os índices Nasdaq e o S&P 500 estão próximos da sua máxima histórica. Isso é um sinal de alerta”, diz William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, durante participação de live do E-Investidor. “Vejo que o mercado está voltando a olhar as oportunidades em tecnologia”, acrescenta.
Segundo a agência Reuters, o S&P500 e o Nasdaq estão devem encerrar o mês de abril com os maiores ganhos desde 2020. Além disso, na quarta-feira (29), a Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft reportaram resultados sólidos, com crescimento do lucro líquido em comparação ao mesmo período do ano passado.
A dona da Google foi o grande destaque. Como mostramos nesta reportagem, a companhia reportou lucro líquido de US$ 62,58 bilhões, quase o dobro dos US$ 34,54 bilhões do mesmo período de 2025. O ganho por ação de US$ 5,11 ficou bem acima da estimativa consensual de Wall Street de US$ 2,63, e acima dos US$ 2,81 do ano passado.
Entenda a queda do dólar
Em abril, o dólar caminha para encerrar o mês abaixo dos R$ 5, seu menor nível desde março de 2024, com queda acumulada de quase 4%. A depreciação recente da moeda americana, porém, não reflete apenas um movimento pontual do mercado financeiro com a escalada das tensões geopolíticas.
Castro Alves ressalta que, desde a chegada de Donald Trump ao poder, o mundo acompanha de perto a agenda política e econômica da Casa Branca, que fragilizou a percepção do papel do dólar como porto seguro e alterou parte do fluxo de capital. Logo no início do seu mandato, o republicano anunciou um amplo pacote de tarifas de importação que atingiu mais de 90 países.
“Quando Trump assumiu, muitos não acreditavam que ele iria implementar todas as políticas que havia prometido, especialmente no campo das tarifas. Mas ele fez”, ressalta Castro Alves. Já em 2026, novos riscos geopolíticos entraram no radar do mercado. Antes da guerra contra o Irã, houve a captura do ditador Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, e as ameaças de Trump em usar a força militar para anexar a Groenlândia.
A sucessão desses eventos, aliada à imprevisibilidade dos desfechos, desencadeou um movimento de rotação de portfólio, com os investidores reduzindo suas alocações nos EUA e redirecionando para mercados emergentes, como o Brasil. Em 2026, os estrangeiros aportaram R$ 62,4 bilhões na Bolsa brasileira, segundo dados mais recentes da B3.
Além disso, a taxa Selic ainda permanece em patamares elevados em comparação a outras economias e atrai investidores estrangeiros que visam obter lucro pela diferença entre a taxa de juros de dois países, estratégia denominada como carry trade. “O Brasil também se beneficia porque, dentro dos emergentes, ele acaba sofrendo menos do que outras regiões em determinados cenários. O país produz petróleo, por exemplo, e isso ajuda”, ressalta o estrategista.
Apesar do cenário favorável, Castro Alves compartilha da mesma percepção do consenso do mercado: os níveis atuais do câmbio são frágeis. Com a proximidade das eleições de 2026, os riscos fiscais devem voltar a atormentar o mercado financeiro e inverter a direção do câmbio. A percepção tem sido incorporada nas projeções do mercado para a moeda. O boletim Focus da última segunda-feira (27) estima o dólar a R$ 5,27 até o fim do ano.
“O risco fiscal continua sendo um grande problema. O governo atual continua gastando mais do que arrecada e flexibiliza algumas regras do arcabouço”, avalia Castro Alves.