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Mercado

Trafalgar: “Com os juros altos, teremos menos compradores de ações”

Paulo Corchaki, CEO da Trafalgar, comenta a postura mais dura do BC e os impactos do ajuste na Selic

Paulo Corchaki, CEO da Trafalgar
Paulo Corchaki, CEO da Trafalgar. Foto: Divulgação/Trafalgar
  • O Copom elevou a Selic de 4,25% para 5,25% na última semana. Em nota, a autoridade também mencionou a possibilidade de elevar juros acima do patamar neutro
  • Para Paulo Corchaki, CEO da Trafalgar, o ritmo mais cauteloso do BC em reagir à inflação é justificável, por vivermos um momento atípico devido à pandemia
  • Em Bolsa, o especialista vê oportunidades no setor de commodities. Na renda fixa, os prefixados ainda trazem riscos relevantes por conta das incertezas políticas e fiscais

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) em subir a Selic em 1 ponto percentual, passando de 4,25% a 5,25% ao ano, não foi uma surpresa para o mercado. Ainda assim, essa foi a primeira vez, desde fevereiro de 2003, que houve uma elevação dessa magnitude.

Em nota, a autoridade monetária mencionou riscos relevantes referentes à inflação e a possibilidade de subir a taxa para um nível acima do neutro, ou seja, para um patamar que poderia desestimular a economia. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador que mede a inflação, já acumula alta de 8,35% até junho.

Frente a essa escalada, os agentes financeiros já projetam o IPCA finalizando o ano muito acima da meta – o que levantou um debate se a resposta do BC ao aumento de preços não foi tardia. Para Paulo Corchaki, CEO da Trafalgar Investimentos, a cautela da instituição é justificável.

“Óbvio que a inflação já estava dando vários sinais, mas estamos voltando de uma pandemia. Essa é uma situação muito atípica que precisa ser levada em consideração”, afirma o especialista. “Na minha leitura, está dentro do que o BC deveria ter feito, não está atrasado e o ajuste acabou sendo bem-recebido.”

Em um contexto de juros mais altos, circula a preocupação de que o fluxo de novos entrantes na Bolsa seja afetado, com investidores ‘confortáveis’ com aplicações conservadoras atreladoa ao juros ou CDI. De acordo com a projeção da Trafalgar, a Selic deve fechar 2021 entre 7% a 8%. “Certamente teremos menos compradores de ações”, afirma Corchaki.

Na renda fixa, as melhores oportunidades estão nos pós-fixados, em especial nos títulos e debêntures atrelados à inflação. Na visão do executivo, os prefixados estão com um risco embutido que não é desprezível, principalmente por conta das eleições em 2022.

“O risco maior de um prefixado é sair da posição no meio do caminho porque você não sabe como estará o mercado naquele momento. E é preciso considerar que teremos riscos ‘especiais’ no ano que vem”, afirma.

Leia os principais trechos da entrevista:

E-Investidor – É a primeira vez, desde 2003, que o Copom sobe a Selic em 1 ponto percentual. Como você interpreta essa medida?

Paulo Corchaki – A primeira leitura sobre a alta de 1% é positiva, no sentido que precisava mesmo fazer isso. O quanto antes fizermos, evita que tenhamos que correr atrás mais para frente. O mercado leu positivamente o fato de o Banco Central ter endurecido um pouco mais.

E-Investidor – Você acha que o Copom pesou a mão no aperto monetário tarde demais, visto que a inflação já estava mostrando sinais de alta nos últimos meses?  

Corchaki – Na prática, o Banco Central vinha demonstrando que estava de olho e que se precisasse, iria agir. Óbvio que a inflação já estava dando vários sinais, mas estamos voltando de uma pandemia, é uma situação muito atípica que precisa ser levada em consideração. O mundo todo está vivendo com esse dilema de a economia estar reativando fortemente e rápido, mas com riscos de fechar tudo novamente.

Justifica, sim, a autoridade monetária ter sido até o momento mais cautelosa na mão, apesar de ter acelerado para 0,75% na penúltima reunião e agora com um movimento ainda mais forte, de 1%. Na minha leitura, está dentro do que o BC deveria ter feito, não acho que está atrasado e o ajuste acabou sendo bem-recebido.

E-Investidor – O Copom também sinalizou que talvez será preciso subir juros para um patamar acima do neutro. Caso isso aconteça, qual é o reflexo na economia e na Bolsa?

Corchaki – Em 2021, realmente a inflação já foi, podemos esquecer. Mas, para garantir que a inflação fique dentro da meta em 2022, existe o entendimento que é necessário passar do neutro, para dar uma apertadinha na economia e garantir essa meta. Isso só acontece porque a economia também está muito mais forte do que se esperava. Se você pegar as previsões do começo do ano, eram muito menos otimistas em crescimento do que hoje.

Para a Bolsa, onde afeta negativamente é no fluxo de pessoas físicas. O grande aumento de volume e de demanda por ações nos últimos anos veio de CPFs. Antigamente, o mercado era muito dominado por investidores institucionais. Com os juros mais altos, esse fluxo de pessoas físicas diminui e teremos menos compradores de ações porque muita gente ficará confortável com o patamar da Selic.

E-Investidor – E para a renda fixa, como os juros acima do neutro impactam os ativos?

Corchaki – Na renda fixa existe a questão fiscal, que é onde podemos ter uma desancoragem de expectativas em relação à inflação. Considerando que ano que vem haverá eleição, se os gastos do Governo ficarem muito acima e deixarem uma percepção que o lado fiscal enfrentará uma deterioração mais forte, isso pode prejudicar bastante os juros.

Com isso, efetivamente poderemos ter a inflação subindo mais, assim como a taxa de juros. O ponto é: ainda existe uma assimetria, um risco razoável no lado de juros prefixados. Não é o nosso mercado favorito, preferimos Bolsa, porque o resultado robusto das empresas está dando conforto mesmo com as questões fiscais, políticas e afins. Gostamos também de câmbio. Com o juro subindo, há o benefício de o País ficar mais atrativo.

Na nossa cabeça a prioridade é Bolsa, depois câmbio e pós-fixados. Esses últimos dão um conforto para investidores conservadores, que até ano passado estavam recebendo 2% ao ano e agora a expectativa é que vá para 7% ou 8%. Isso também vai tirar demanda de ativos de maior risco. Os menos atrativo são os juros prefixados, por conta dos riscos fiscais.

E-Investidor – E para qual tipo de investidor o prefixado é indicado?  

Corchaki – Para os investidores que não precisam de liquidez e que podem levar o ativo até o vencimento. O risco maior é sair da posição no meio do caminho porque você não sabe como estará o mercado naquele momento. E é preciso considerar que teremos riscos ‘especiais’ no ano que vem.

O prefixado obviamente tem um bom nível de juros no momento, mas o ponto é que o risco existe e não é desprezível. Entre correr o risco de prefixados e estar em pós-fixados, achamos que vale mais a pena não ter os prefixados, achamos perigoso. Gostamos bastante dos ativos ligados à inflação e debêntures. Nesse caso, o investidor se beneficia do juro real maior e ainda tem a proteção contra a inflação.

E-Investidor – Mesmo com o ciclo de alta da Selic, tivemos fuga de capital estrangeiro da Bolsa em julho. Esse é um reflexo do risco-Brasil aumentando?

Corchaki – Sim, mas ainda não acho relevante. Na prática, temos uma percepção mais positiva, primeiro olhando os resultados das empresas, que no fim das contas é o que faz a Bolsa a subir. E existe uma questão macro específica que achamos que pode fazer diferença em breve: a vacinação do Brasil começou muito atrasada, com discussões e problemas, mas o fato é que as pesquisas mostram que o brasileiro é mais aberto à vacinação do que vários outros países. Vemos a possibilidade grande de que o Brasil passe outros países na quantidade de pessoas vacinadas nos próximos meses, como o próprio Estados Unidos. Isso pode fazer uma diferença positiva porque vacinação tem a ver com reabertura da economia.

Antes achávamos que o Brasil iria demorar mais para reabrir, mas agora temos a possibilidade de passarmos porque a população de vários outros países tem restrição à vacina. Esse movimento de saída de investidores (estrangeiros) não é tão relevante no momento e pode se reverter em breve.

E-Investidor – Na nota do Copom também é citada uma possível desaceleração das commodities, que impactaria a inflação para baixo. Você vê esse boom do setor se dissipando ou os papéis ainda têm fôlego?

Corchaki – Gostamos de olhar a economia em ciclos econômicos, ou seja, analisar em que momento do ciclo nós estamos. De um lado há a recessão, que puxou tudo para baixo no ápice da pandemia, depois o início de recuperação e agora a retomada mais acelerada. Estamos no ‘meio-ciclo’, que é o momento após esse período mais acelerado, em que as commodities explodiram. É normal que entremos em um ritmo muito mais lento do que no início. Ainda estamos otimistas com as commodities e a recuperação econômica, mas em uma velocidade bem diferente da que vimos no começo do ciclo.

E-Investidor – Vemos um Ibovespa desanimado, lateralizado. Na sua visão, o que é preciso para deslanchar, visto que o saldo da temporada de balanços está positivo até agora?

Corchaki – A grande questão é a fiscal, que vem impactando juros e Bolsa. Tivemos recentemente tanto o assunto dos precatórios, quanto a discussão sobre o valor do Bolsa Família, dois assuntos diretamente ligados ao fiscal. Esse é o peso que existe sobre os mercados brasileiros, com uma ligação direta com as eleições também, porque teoricamente em um ano de eleição o incentivo a gastar é maior. Se tivermos mais conforto nesse assunto, os mercados terão uma performance muito melhor.

E- Investidor – E quando falamos de Bolsa, as quedas recentes abrem oportunidades em quais setores?

Corchaki – Por estarmos no meio do ciclo natural que haja uma desaceleração, é natural esse desânimo momentâneo, mas esse é um fenômeno mundial. Os números de atividades estão um pouco mais fracos, mas isso não quer dizer que deixamos de recuperar. Vejo o movimento de queda recente como oportunidade de compra. Continuamos gostando de commodities.

E-Investidor – Esse pode ser o momento de o investidor se posicionar em papéis que podem se beneficiar da reabertura econômica, como aéreas, por exemplo?

Corchaki – Temos usado nessa situação a parte ligada a carros usados, porque há uma questão muito forte com a falta de carros novos. No mundo inteiro há uma valorização grande de carros usados e aqui temos empresas que fazem aluguéis de veículos, que são companhias que gostamos e têm relação com a melhora da pandemia. Mas não estamos indo nesse caminho mais especulativo da reabertura em aéreas, não está no nosso escopo.

Preferimos commodities, que acaba sendo ligadas à reabertura também, porque a utilização dos insumos acaba subindo. Esse é um call de reabertura, mas com um pouco mais de segurança. E do lado das commodities temos uma relação com o dólar também. A Vale, por exemplo, tem receitas em dólar. Ou seja, mesmo em um cenário de desvalorização do real, essa é uma posição mais protegida. É uma forma mais defensiva de pegar os benefícios da reabertura.

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