Dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) mostram que o mercado segue em transformação. Em março deste ano, o setor alcançou 52,9 milhões de beneficiários em planos médico-hospitalares e 35,8 milhões nos odontológicos. Ao mesmo tempo, a média dos aumentos das mensalidades está em 9,9% por mês. Ou seja, um plano que custa R$ 1 mil passará a custar R$ 1.099,00 por mês após o reajuste anual do contrato.
É nesse ambiente de maior sensibilidade a preço e busca por eficiência que os planos digitais e mais enxutos ganham espaço. Um levantamento da Click Planos aponta que a migração para modelos digitais pode gerar economia média de cerca de 28%, chegando a mais de 50% em determinadas operadoras e faixas de contratação. Entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, o número de simulações com intenção de contratação saltou de 140 para 3.304.
Como o reajuste de planos pode impactar os gigantes da saúde?
Para Lucas Barbosa, analista da Ativa Investimentos, o movimento combina fatores conjunturais e estruturais. “A parte conjuntural está relacionada à renda da população e ao momento econômico. Já os fatores estruturais envolvem a digitalização do setor, o crescimento dos planos voltados para pequenas e médias empresas (PMEs), mudanças regulatórias e outras transformações que, na nossa visão, vieram para ficar”, afirma.
Na avaliação do especialista, o impacto tende a ser diferente entre as companhias listadas.
A Hapvida (HAPV3), por exemplo, possui um modelo verticalizado (quando uma empesa controla diferentes etapas da cadeia do serviço que fornece), mas ainda convive com desafios após a fusão com a NotreDame Intermédica.
Para Régis Chinchila, analista da Terra Investimentos, ferramentas como telemedicina, prontuário integrado e automação operacional ajudam a reduzir custos administrativos e melhorar a gestão de sinistralidade (o gasto que uma operadora tem com despesas médicas). Por outro lado, alerta que a competição em planos populares pode limitar reajustes e manter a pressão sobre a rentabilidade no curto prazo.
Já a Bradsaúde (SAUD3) depende menos de ganhos associados à verticalização, embora conte com “disciplina técnica e operacional”, explica do analista da Ativa.
A Rede D’Or (RDOR3), por meio da SulAmérica, aparece como uma das mais preparadas para enfrentar o novo cenário, segundo Barbosa, por combinar “estratégia de preços mais eficiente, mix de produtos e uma integração bem executada, com foco em um perfil de maior valor agregado”.
Chincila pondera que parte dessa pressão pode ser compensada por “ganho de escala, maior verticalização e eficiência operacional”.
O resultado dos players de saúde
Os resultados mais recentes do setor, compilados pelo BTG Pactual, indicam que as grandes operadoras começam a mostrar melhora operacional após um período mais pressionado. O banco afirma que o primeiro trimestre trouxe resultados “melhores do que se temia”, com maiores margens, alívio na sinistralidade e ganhos de eficiência.
No caso da Hapvida, o BTG destacou melhora sequencial nos indicadores, com queda de 330 pontos-base no cash MLR (Cash Medical Loss Ratio, índice de sinistralidade caixa) para 72,2% e expansão de 300 pontos-base na margem de lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) ajustada.
Ainda assim, o banco pondera que “o conjunto de resultados ainda não representa uma inflexão clara”, diante da continuidade da saída líquida de beneficiários e do nível elevado de provisões judiciais.
Já a SulAmérica, braço de saúde da Rede D’Or, apresentou melhora de 140 pontos-base no MLR, para 77,2%, enquanto o Ebitda ajustado avançou 29% na comparação anual. Segundo Chinchila, a companhia parece seguir uma estratégia híbrida, apoiada na integração entre hospitais, seguros e serviços de maior complexidade. “A companhia deve utilizar sua capacidade de verticalização para equilibrar expansão da base de clientes com preservação de margens”, afirma.
O BTG também destacou a Bradsaúde como um dos pontos positivos da temporada de balanços (1T26). O relatório aponta queda de 140 pontos-base no MLR e crescimento de 34% no lucro líquido. Para Chinchila, porém, a companhia enfrenta um desafio adicional por atuar historicamente em segmentos de ticket mais elevado e perfil corporativo tradicional.
“A expansão dos modelos digitais e mais enxutos exige ajustes mais rápidos de precificação e estrutura operacional”, diz. Ainda assim, o analista ressalta que a seguradora mantém vantagens em marca, distribuição e fidelização empresarial.
Cenário é incerto para o investidor
Na visão dos analistas, o setor não caminha necessariamente para uma deterioração estrutural das margens, mas para um novo equilíbrio competitivo. Operadoras com maior capacidade tecnológica, integração vertical e gestão de dados tendem a conseguir compensar parte da compressão do ticket médio por meio de eficiência operacional e expansão de escala. “Vai depender inteiramente de quem souber surfar e aproveitar melhor as oportunidades. É mais um vetor de mudança do setor”, resume Barbosa, da Ativa.