Guerra no Irã pode impactar também a distribuição de dividendos do Banco do Brasil (BBAS3), caso piore o risco do agro devido à crise nos fertilizantes em meio à guerra no Oriente Médio. Foto: AdobeStock (Imagem: AlfRibeiro em Adobe Stock)
A previsão do Banco do Brasil (BBAS3) é de melhora na qualidade do crédito do agronegócio em 2026, com pontualidade de pagamentos estimada em 95%. O indicador recuou para 92% em 2025, abaixo dos 96% registrados em 2024 e dos 99% em 2023. Segundo o vice-presidente de Controles Internos e Gestão de Riscos, Felipe Guimarães Geissler Prince, o banco já ajustou seus modelos e espera avanço nos indicadores, o que deve reduzir o volume de operações encaminhadas para cobrança e manter alinhamento às regras da Resolução 4.966.
Realizado nesta quinta-feira (23), em São Paulo, o 32º BB Day – evento fechado exceto para analistas e imprensa – reuniu executivos da instituição para apresentar a leitura sobre os resultados recentes e as expectativas para o primeiro trimestre de 2026 (1T26).
No crédito rural, os vencimentos previstos para 2026 somam R$ 155,6 bilhões, sendo R$ 87,8 bilhões em operações de custeio e R$ 67,8 bilhões em outras linhas. A concentração de vencimentos entre abril e setembro deve cair de 73,7% em 2025 para 62,2% em 2026, indicando uma distribuição mais equilibrada ao longo do ano.
Prince destacou que cerca de 60% da carteira está ligada ao financiamento de custeio, com prazos ainda concentrados nesse período. Segundo ele, a dinâmica de pagamentos no setor depende “diretamente do ciclo produtivo, incluindo colheita, armazenamento e comercialização”, fatores que influenciam a capacidade de liquidação das dívidas.
O executivo ressaltou que a piora recente na alavancagem dos produtores reduziu a velocidade dos pagamentos e levou ao descumprimento de prazos. Em um ambiente de margens mais apertadas e maior concorrência por recursos, produtores que se antecipam tendem a ter prioridade no recebimento.
Apesar desse cenário, o banco espera melhora nos indicadores ao longo de 2026, com uso mais intensivo de dados para acelerar a recuperação de crédito e reduzir gradualmente a inadimplência. Mesmo quando o pagamento não ocorre de forma imediata, o foco passa a ser a velocidade de regularização.
Volume de recuperações judiciais diminui no 1T26
Entre os dados inéditos apresentados, o fluxo de vencimentos da carteira regularizada no âmbito da MP 1.314 – que estabelece condições especiais para produtores rurais negociarem e amortizarem dívidas – soma R$ 36,5 bilhões, ante R$ 35,5 bilhões no ano anterior.
A participação deve atingir 2,5% em 2026, com potencial de crescimento até 18% em 2028, antes de recuar para 0,6% em 2035. Já a carteira prorrogada totaliza R$ 64,5 bilhões, com previsão de representar 36% em 2026, caindo para 22% em 2027 e praticamente zerando em 2035.
Desse total, 91,8% contam com garantia real de imóvel e 72% possuem alienação fiduciária.
O volume trimestral de novos processos de recuperação judicial recuou para R$ 1,34 bilhão no primeiro trimestre de 2026 (1T26), ante R$ 1,59 bilhão no quarto trimestre de 2025 (4T25) e R$ 1,84 bilhão no terceiro trimestre do mesmo ano (3T25). A expectativa é de nova redução, diante da dificuldade de produtores em acessar crédito para financiar a safra durante o processo.
Prince também diferenciou os conceitos de carteira prorrogada e regularizada. No primeiro caso, há uma avaliação sobre a capacidade do produtor de recuperar perdas e retomar os pagamentos. Já a regularização envolve uma reestruturação mais profunda da dívida, com adequação ao fluxo de caixa ao longo dos anos. Segundo ele, a ampliação do uso de alienação fiduciária tem aumentado a segurança da carteira.
Oportunidades de expansão no crédito para o trabalhador
No segmento de crédito consignado privado, o banco vê oportunidades de expansão, mas mantém uma abordagem conservadora. Atualmente, a estatal opera apenas com clientes que já possuem conta, com análise individualizada de risco. Para empresas, são considerados fatores como rating interno, número de funcionários, natureza jurídica e nível de escrituração. Já para pessoas físicas, entram na avaliação aspectos como idade, renda, escolaridade, investimentos e ocupação.
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Desde o lançamento, o crédito do trabalhador soma R$ 17,2 bilhões em desembolsos, com participação de mercado (market share) de 13% e meta de atingir 20%. A base inclui 1,2 milhão de clientes, 300 mil novas contas abertas, R$ 2 bilhões em negócios gerados e 2,2 milhões de operações realizadas. Apesar do cenário desafiador, o vice-presidente de Agronegócios, Gilson Bittencourt, afirmou que o setor segue como “motor da economia”.
“O Banco do Brasil continuará financiando o agro, mas com melhorias nos processos de concessão para operar com menor inadimplência”, disse.
Segundo o executivo, o guidance (projeção da companhia) prevê manutenção da carteira, com operações mais estruturadas.
Ele destacou ainda a relevância do setor para os municípios e para a balança comercial brasileira. Bittencourt explicou que mais de 80% das operações registradas em abril têm origem em contratos fechados em maio e junho do ano anterior. A partir de abril e maio, no entanto, os produtores voltam a demandar crédito para aquisição de insumos, marcando o início de um novo ciclo.
Dados preliminares indicam melhora na inadimplência
Dados preliminares dos primeiros 15 dias do mês indicam melhora nos indicadores de inadimplência nas operações com alienação fiduciária. Segundo ele, o banco voltou a dar prioridade a garantias, estratégia que tem contribuído para reduzir o risco moral. Nesse contexto, os desembolsos com garantia real de imóvel atingiram 69% entre 2025 e 2026, enquanto a participação da alienação fiduciária chegou a 63% na mesma safra.
Do ponto de vista operacional, a maior parte dos insumos é adquirida a partir de junho. O banco também monitora riscos externos, como conflitos geopolíticos, possíveis restrições no transporte no Estreito de Ormuz e eventos climáticos, como o El Niño. Ainda assim, Bittencourt avalia que o fenômeno climático não deve ser interpretado como totalmente negativo, uma vez que a “produtividade média permanece em níveis históricos”, apesar das dificuldades enfrentadas por segmentos específicos.