Berkshire pós-Buffett: diversificação e longo prazo são as lições da conferência, segundo a Avenue
Especialista que esteve no evento diz que se surpreendeu com perfil dos executivos da companhia; sucessão planejada por anos deve assegurar a cultura da organização
Acionistas se reúnem em Omaha para o tradicional encontro da Berkshire Hathaway, marcado pelo legado e pelas reflexões de Warren Buffett ao longo de seis décadas. (Imagem: Adobe Stock)
A conferência anual da Berkshire Hathaway, realizada no fim de semana em Omaha, teve como principal marco a transição de liderança para Greg Abel, que sucede Warren Buffett. Segundo Bruno Yamashita, coordenador de alocação e inteligência da Avenue, que acompanhou o evento, a troca deve garantir a continuidade da estratégia da companhia. O especialista destaca, porém, que a mensagem do evento vai além da “passagem de bastão” ou das discussões sobre tecnologia, e deixou claro a importância da diversificação e da visão de longo prazo, ainda mais em períodos de volatilidade.
“Percebemos o quão diversificado é o portfólioda Berkshire em diferentes segmentos e setores”, afirma Yamashita. O especialista chama a atenção sobre “não ter todos os ‘ovos na mesma cesta'” em termos geográficos. “Por que manter todo o capital no Brasil?”, questiona, recomendando o acionista a investir em outros países. A Avenue é uma plataforma de investimentos internacionais.
Além disso, o especialista orienta que, em momentos geopolíticos turbulentos – como este, de conflito entre Estados Unidos e Irã – a visão de longo prazo aparece como aliada importante. “Eventualmente, a gente vai passar por mais momentos turbulentos ao longo da nossa vida”, diz, e a disciplina e a calma são importantes para atravessar esses períodos sem perder o foco da carteira.
Seguir dentro da estratégia e evitar decisões precipitadas é o que diferencia investidores consistentes dos de menor sucesso no futuro, uma filosofia que, ao que tudo indica, deve seguir guiando a Berkshire mesmo após a saída de Buffett. Veja aqui tudo que rolou na conferência no Estado norte-americano de Nebraska.
De acordo com Yamashita, Abel explicou durante a reunião, assim como já havia feito em sua carta anual, o compromisso de preservar a cultura construída ao longo das últimas décadas. O objetivo é manter o modelo descentralizado e a filosofia de investimentos que marcaram a trajetória da Berkshire.
Um dos momentos mais simbólicos veio do próprio Buffett. Sentado na plateia, o especialista narra que o agora ex-diretor segurou o microfone e recorreu a um paralelo com a Apple. O investidor relembrou a sucessão após a morte de Steve Jobs, quando Tim Cook assumiu o comando.
À época, havia incertezas sobre o futuro da companhia, mas, como destacou Yamashita, “a história mostrou que os executivos são preparados” para dar continuidade e gerar valor – a Apple saiu de cerca de US$ 350 bilhões em valor de mercado, em 2011, para aproximadamente US$ 4 trilhões atualmente.
“Esses investimentos já não vinham sendo decisão 100% dele [de Buffett]”, explica Yamashita, que acrescenta a tentativa do megainvestidor de tranquilizar o público em relação à transição, “que não acontece de um dia para a noite”.
Executivos experientes sempre são bem-vindos
Outro ponto que chamou atenção foi o perfil dos executivos da Berkshire. De acordo com o coordenador da Avenue, muitos deles têm, em média, mais de 30 anos de casa. Isso significa que “eles já trabalham juntos há muitos e muitos anos, já tomam decisões juntos há muitos e muitos anos”, o que contribui para uma estabilidade quando chega o momento de mudança na liderança.
A conferência também abriu espaço para a inteligência artificial(IA). Abel destacou que a Berkshire está atenta às oportunidades da tecnologia, especialmente para ganho de escala e eficiência operacional em suas subsidiárias. Ao mesmo tempo, alertou para os riscos. Um exemplo apresentado na conferência foi um deepfake (conteúdo falso criado por IA) do próprio Buffett, utilizado para ilustrar como os avanços tecnológicos podem ser positivos, mas também trazer ameaças relevantes.
Abel: ‘Seremos tratados de forma justa’
Greg Abel, disse que os negócios de produtos químicos do grupo sofrem pressão, no curto prazo, da escalada nos preços de insumos derivados do petróleo por conta dos conflitos no Oriente Médio. O executivo ressaltou, no entanto, que a companhia tem encontrado um reequilíbrio repassando, na medida do possível, o aumento de custo.
O novo CEO da Berkshire Hathaway observou que o custo de insumos da indústria química praticamente dobrou em um período muito curto. “Vamos administrar isso, e essa é a beleza de fazer parte da Berkshire. Primeiro vamos cuidar do cliente, vamos encontrar a resposta certa, vamos gerenciar os desafios e criar valor”, disse Abel.
Conforme o CEO, o lucro do negócio químico estaria em queda, ou estável para baixo, por conta da alta dos insumos, mas a divisão está “entregando o que o cliente precisa”. “Isso se reequilibra ao longo do tempo, quando nossos preços vão subir conforme os contratos. No fim, seremos tratados de forma justa: os preços serão reajustados e depois talvez recuem um pouco mais lentamente”, comentou o executivo.
Abel ressaltou ainda que a operação dos negócios da companhia visa retornos de longo prazo, descartando investimentos que buscam explorar a valorização recente do petróleo. “Não vamos colocar o ativo em risco para tentar obter um resultado de curto prazo só porque o preço do petróleo está mais alto”, declarou.
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*Com colaboração dos repórteres Eduardo Laguna e Júlia Pestana, do Broadcast.