No comunicado divulgado nesta noite, o Copom sinalizou que as projeções de inflação apresentam distanciamento adicional em relação à meta no horizonte relevante para a política monetária. Ao mesmo tempo, a incerteza sobre as projeções foi elevada “consideravelmente”, diante da falta de clareza sobre a duração e o impacto dos conflitos do Oriente Médio.
O Comitê estabeleceu uma projeção de inflação de 3,5% para o quarto trimestre de 2027, atual horizonte relevante de política monetária. Na reunião de março, quando o horizonte relevante ainda era o terceiro trimestre de 2027, a projeção estava em 3,3%.
Ainda no comunicado de hoje, o Copom reafirmou a necessidade de “serenidade” e “cautela” na condução da política monetária, termos já mencionados no texto de março. O Comitê também reforçou que os rumos futuros da Selic dependem de novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo.
Na visão de economistas, o recado dado foi de que o ciclo de queda dos juros continua, mas ficou mais dependente do cenário, com possibilidade de pausa antes do esperado. Ou seja, cada decisão daqui para frente vai depender do comportamento da inflação, do câmbio e do ambiente internacional.
Veja a reação inicial do mercado à decisão do Copom:
Beto Saadia, economista-chefe da Nomos
O parágrafo que justifica o corte de 0,25 ponto percentual é quase idêntico nos comunicados de março e de abril. Ambos citam “o período prolongado de manutenção da taxa básica de juros em patamar contracionista”. A diferença está em uma inserção no comunicado mais recente: “ajustes no ritmo e extensão dessa calibração”. Em março, constava apenas “ritmo”. A inclusão de “extensão” é uma porta aberta para encerrar o ciclo de queda antes do esperado. O Copom cortou, mas inseriu linguagem que preserva a possibilidade de parar.
Bruno Perri, co-fundador da Forum Investimentos
Ficou claro que o comunicado trouxe um tom mais pessimista em relação ao cenário externo, pela persistência do conflito e os desdobramentos sobre os preços de energia. Deram maior peso aos riscos do conflito. O comunicado também trouxe visão mais cautelosa quanto à inflação interna, reforçando que a inflação corrente vem se distanciando da meta.
Caio Megale, economista-chefe da XP
Por um lado, o texto indicou que o cenário para a inflação piorou, já que os dados correntes e as projeções, incluindo as do próprio Copom, estão “se afastando ainda mais da meta”. Por outro lado, o comunicado reiterou que as atuais condições monetárias restritivas têm sido eficazes para conter o crescimento da atividade. Em outras palavras, a piora do cenário inflacionário não foi suficiente para alterar o plano do Copom de continuar calibrando (ou seja, cortando) os juros.
Camilo Cavalcanti, gestor de portfólio da Oby Capital
O comunicado apresentou um tom mais duro que o anterior ao citar que as expectativas de inflação se distanciaram da meta e reforçar isso com sua projeção de 3,5% no cenário de referência, que antes estava em 3,3%.
Daniel Miraglia, economista-chefe da Integral Group
O comunicado foi um pouco mais cauteloso e ligeiramente mais duro em relação ao anterior, sinalizando que, apesar de a taxa de juros ainda estar em patamar elevado, a velocidade dos cortes de juros tende a ser mais lenta do que o mercado vinha projetando.
Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research
Em nossa leitura, há espaço para que o ciclo de calibração tenha continuidade, mas a concretização desse movimento depende de forma determinante da duração e da extensão do conflito geopolítico. O Banco Central foi claro ao sinalizar serenidade e cautela, e é com esses parâmetros que os próximos dados devem ser interpretados.
Ian Lima, gestor de renda fixa da Inter Asset
O plano de voo indica uma recalibração gradual, com o objetivo de ganhar tempo e ajustar o ritmo de flexibilização monetária conforme evoluam as informações sobre os conflitos no Oriente Médio e seus possíveis efeitos secundários decorrentes das restrições na oferta de petróleo.
Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset
O Banco Central revela um cenário de piora na margem da dinâmica de inflação, porém segue entendendo que há espaço para dar sequência à calibragem da taxa Selic. O colegiado deixa a porta aberta para a continuidade do ciclo de afrouxamento, ainda que trazendo forte ressalva sobre a postura cautelosa da autoridade monetária.
Pablo Spyer, conselheiro da ANCORD
Comparando com o comunicado anterior, a mudança principal foi no tom. Em março, o Copom parecia mais confiante na desaceleração da economia. Agora, a mensagem foi de prudência. O Banco Central deixou claro que os próximos cortes vão depender dos dados, principalmente da inflação.
Pedro Moreira, sócio da One Investimentos
Se antes havia mais clareza sobre a trajetória esperada de flexibilização, agora o conflito geopolítico introduz incerteza sobre o número total de cortes possíveis. Em outras palavras, os membros passaram a enxergar risco de redução no tamanho do ciclo, e não somente na magnitude de cada etapa.
Rafael Cardoso, economista-chefe do Daycoval
Nos parece que o Banco Central tem colocado à mesa a possibilidade de pausa em algum momento nas próximas reuniões. Então a gente ainda tem como cenário base o corte de 0,25 ponto percentual para a próxima reunião, mas acreditamos que o fato novo na comunicação do Banco Central de hoje é justamente essa sinalização de que uma pausa do ciclo nas próximas reuniões não está descartada.
Raphael Vieira, head de investimentos da Arton Advisors
Na prática, o Copom sinaliza que o processo de flexibilização deve continuar, mas em ritmo mais moderado e altamente dependente dos dados. Ou seja, o corte veio, mas acompanhado de uma mensagem firme: o Banco Central não está confortável com o cenário inflacionário e deve seguir com uma postura prudente nas próximas decisões.
Robson Pereira, economista-chefe da Brasilprev
Avaliamos, de um modo geral, que o Banco Central tem o “plano de voo” de continuar reduzindo juros, mas com muita incerteza e com cenário de desancoragem adicional das expectativas capturadas pelo Boletim Focus. Se o cenário internacional melhorar, com desaceleração da atividade e estabilização das expectativas de inflação, o BC pode acelerar os cortes. Por ora, porém, o plano segue com reduções de 0,25 ponto por reunião.