O Ibovespa vinha embalado. Mas, após atingir seu 18º recorde no ano e se aproximar dos 200 mil pontos, o índice perdeu fôlego nas últimas semanas e ficou no zero a zero em abril. O que mudou?
Para Dalton Gardimam, economista-chefe da Ágora Investimentos, a resposta depende menos de um único fato : é um combinação de variáveis, com destaque para o fluxo de capital estrangeiro.
Desde o fim de 2025, o Brasil passou a atrair mais capital externo. Com juros elevados, Bolsa descontada e um cenário global mais turbulento, investidores internacionais voltaram a olhar para o País como uma oportunidade entre emergentes.
Esse movimento ganhou força em 2026, impulsionando a alta do mercado acionário. Mas, com a perspectiva de redução das tensões geopolíticas e rearranjos globais, esse fluxo começou a perder intensidade, o que ajuda a explicar a recente correção.
“Quando esse capital para de entrar com a mesma força, a Bolsa naturalmente sente. Foi isso que vimos quando o índice ensaiou os 200 mil pontos e recuou”, diz Gardimam.
Guerra, petróleo e efeitos indiretos
O cenário internacional também teve papel relevante na perda de fôlego do índice. O vai e vem das negociações e a instabilidade no Estreito de Ormuz afetaram diretamente o petróleo e, consequentemente, as ações de petroleiras, que têm peso relevante no índice.
Com o preço do barril de óleo sob alta volatilidade – variando entre US$ 85 e US$ 125 em abril -, Petro Recôncavo (RECV3) fechou o mês com queda de 7,48%, enquanto Prio (PRIO3) avançou 0,24% e Petrobras (PETR4) subiu 1,72%.
Com a guerra e a pressão inflacionária, esse cenário foi revisto. A queda dos juros ficou mais lenta e impactou diretamente setores mais sensíveis, como varejo e educação.
“A escadinha de cortes de 0,50 ponto virou de 0,25 ponto. Isso muda completamente o tempo de ajuste e mantém a renda fixa muito atrativa”, diz Gardimam.
Renda fixa segue dominante
Com a Selic ainda elevada, investimentos em renda fixa continuam oferecendo retornos robustos, o que reduz o apetite do investidor local por ações.
Esse fenômeno, segundo Gardimam, também ajuda a explicar por que a Bolsa brasileira permaneceu descontada por tanto tempo e por que precisou do investidor estrangeiro para sustentar a alta recente.
Perspectiva para maio
Para este mês, a expectativa é de um ambiente ainda volátil. Contudo, a temporada de balanços deve trazer mais visibilidade sobre os resultados das empresas, que, segundo o economista, continuam sólidos.
Além disso, a tese estrutural para a Bolsa permanece: preços ainda atrativos, possibilidade de queda de juros no médio prazo e um cenário externo que, apesar dos ruídos, pode melhorar.
“O investidor precisa tomar cuidado para não olhar só o curto prazo. Se a guerra arrefecer, o que é provável, e os juros voltarem a cair com mais consistência, a Bolsa tende a ganhar novo impulso”, afirma o economista-chefe.
Dividendos no radar
Para maio, a Ágora Investimentos mantém a estratégia focada em dividendos em sua carteira de ações. Entre os setores preferidos, estão o de empresas de serviços essenciais, conhecidas pela previsibilidade de fluxo de caixa.
Publicidade
A lógica é simples: empresas com geração de caixa estável e disciplina na distribuição de resultados tendem a atravessar melhor ciclos adversos e a entregar retorno consistente no longo prazo. “A Bolsa segue oferecendo boas alternativas para quem pensa além da renda fixa”, analisa Gardimam.
Fazem parte da carteira recomendada da corretora nomes como Auren Energia (AURE3), Copel (CPLE6), Itaúsa (ITSA4) e TIM (TIMS3).