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Colunista

Pressão no mercado: da eleição no Brasil ao pacote fiscal britânico

Cenário de inflação alta no mundo, em meio a sinais de desaceleração econômica global, pressiona o mercado

Por Dan Kawa

05/10/2022 | 13:06 Atualização: 07/10/2022 | 9:38

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(Foto: Agência Brasil)
(Foto: Agência Brasil)

O mês de setembro foi marcado por nova rodada de pressão negativa nos ativos de risco. Permanece um cenário base de inflação alta no mundo, com evidente necessidade de ajuste das condições monetárias em meio a sinais de desaceleração econômica global.

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Antes de falarmos sobre a pauta internacional, aqui vale um breve comentário sobre as eleições no Brasil.

Com erros gigantescos nas pesquisas eleitorais, estamos caminhando para uma eleição com vitórias relevantes de aliados do atual presidente para os governos estaduais e o Senado. A bancada da Câmara também apresenta uma força relevante da direita e centro-direita.

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A eleição presidencial foi muito mais apertada do que as pesquisas apresentaram, mas ainda será um segundo turno bastante acirrado em meio a um cenário “em aberto”. Um trabalho árduo para o candidato à reeleição Jair Bolsonaro (PL) reverter o resultado do primeiro turno, em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ficou na primeira colocação.

De qualquer modo, a composição do Congresso mostra que a governabilidade do próximo presidente dependerá de alianças com o dito “Centrão”. Além disso, a força dos partidos de direita na casa e nos governos estaduais sinaliza que a governabilidade de Bolsonaro seria mais tranquila. Importantes reformas poderiam ser feitas com certa celeridade assim que ele fosse reeleito.

A vitória de diversos candidatos de direita e centro-direita reduz o risco de um eventual governo de Lula ser excessivamente a esquerda, dado a enorme oposição que irá encontrar.

Hábil articulador político, Lula seria capaz de conduzir o País, caso eleito. A oposição, contudo, reduz o risco de guinadas mais à esquerda de um eventual governo petista. Este, talvez, seja o grande ponto positivo do primeiro turno.

De volta à Europa

Ao final do mês, os eventos no Reino Unido concentraram a atenção de economistas e do mercado. Após o novo governo inglês anunciar um pacote de expansão fiscal, os ativos do país começaram a perder parâmetro.

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É importante frisar, contudo, que os eventos no Reino Unido nos parecem apenas um dos sintomas de um problema muito maior e mais espalhado pelo mundo. O contexto em que se encontra o país é de inflação alta, recessão, déficit fiscal, déficit externo, governo fraco e política fiscal frouxa.

O mercado, então, começou a pressionar, de maneira mais concreta e assertiva, por uma solução para estes problemas por meio de depreciação cambial, forte alta nas taxas de juros e queda da Bolsa.

Na ausência de políticas fiscais mais apertadas, o primeiro passo para estabilizar a economia e os mercados deveria ter sido um choque na taxa de juros e/ou um compromisso de ajuste fiscal futuro.

Depois disso, um longo e tortuoso processo de ajuste econômico seria necessário como plano de estabilização econômica. Um plano que mirasse a equalização dos déficits gêmeos (fiscal e externo), uma direção mais clara de crescimento sustentável de longo-prazo e o comprometimento com uma inflação mais baixa estruturalmente.

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Neste momento, não parece que existe esta lucidez por parte do governo inglês e do banco central do país em relação a este caminho. Isso nos leva a crer que teremos um longo processo, com enorme reverberação ao resto do mundo.

Diante de forte pressão nos mercados ingleses nos últimos dias de setembro, com forte abertura de taxa de juros, queda da bolsa e da moeda, o Banco da Inglaterra (BoE, a autoridade monetária) decidiu por adotar uma medida pouco ortodoxa no atual momento do ciclo econômico.

Com intuito de estabilizar o mercado de juros longos, o banco central anunciou que irá comprar títulos longos em caráter pontual e limitado. Além disso, irá atrasar o seu processo de venda de ativos, o aperto quantitativo.

Em um momento de inflação alta, tentativa de controle inflacionário e aperto das condições financeiras, esta é a última medida que poderíamos imaginar ser adotadas. Ela é confusa, pois vai na direção oposta do que precisa ser feito com afinco e consistência – o controle da inflação – e arriscada, pois não atua no cerne do problema, atacando apenas uma questão pontual de mercado.

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Existiam maneiras mais ortodoxas e eficazes de lidar com a situação. A medida tomada pode ajudar a estabilizar a curva de juros longa no curto-prazo, mas é sem dúvida alguma uma solução temporária e pouco eficaz.

Seria muito mais eficiente uma alta de juros acentuada e uma sinalização de política monetária mais apertada no curto-prazo, como sugeriu um ex-integrante do banco central do país, Adam Posen, ontem.

Uma outra solução seria uma sinalização de compromisso fiscal de longo-prazo por parte do governo.

As economias desenvolvidas estão “between a rock and a hard place”, expressão em inglês que indica que a escolha ocorrerá entre duas opções difíceis. Não há “bala de prata” para resolver todos os problemas e os riscos do cenário. Não existem soluções perfeitas. Contudo, a opção escolhida pela Inglaterra parece uma tentativa desesperada de ganhar tempo antes de adotar medidas fiscais e monetárias mais austeras.

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Talvez, o mercado venha a pressionar os ingleses até que essas medidas sejam adotadas. Infelizmente, há riscos e problemas semelhantes ao redor do mundo.

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