A Gerdau apresenta os resultados do 4T25 nesta segunda (23), num contexto de forte valorização. (Imagem: AdobeStock)
A Gerdau (GGBR4) apresenta os resultados do quatro trimestre de 2025 (4T25) nesta segunda-feira (23), após o fechamento do pregão, em um contexto de forte valorização das ações nos últimos três meses e com o mercado financeiro de olho em suas margens operacionais.
A companhia enfrenta um contexto difícil para conseguir repassar aos preços seu custo de produção. Por outro lado, seus papéis se beneficiaram da entrada de investidores estrangeiros na Bolsa brasileira, valorizando 30% desde outubro.
Esses pontos fazem alguns analistas rebaixarem a recomendação de compra, visto que a empresa passou a ser negociada próxima de seu preço justo, limitando potencial de valorização do papel. Para outros, no entanto, Gerdau é uma tese que pode engatar novas altas.
“O resultado do quatro trimestre deve corroborar a mensagem de que o setor de siderurgia vive um contexto difícil de mercado“, comenta Lucas Daghi, analista da XP Investimentos. “Uma margem de 6% a 7% é muito fraca”, comenta, referindo-se à estimativa da casa para o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) da companhia. Esse indicador mede a geração operacional de caixa.
O analista lembra que parte dos resultados mais tímidos esperados no 4T25 de Gerdau se deve à sazonalidade do negócio, com paradas de fornos que aumentam os custos da empresa. No entanto, o contexto dejuros altosno Brasil adiciona pressão sobre a operação.
Apesar de a siderúrgica ter uma alavancagem baixa, seus principais clientes no Brasil são altamente sensíveis a juros. “Uma parte relevante da demanda de aços longos no Brasil vai para construção civil. Então, os juros têm um efeito indireto na ótica de demanda”, comenta Daghi.
Na parte de aço plano, que representa 30% do negócio, a Gerdau também enfrenta desafios com a concorrência chinesa. Com as duas categorias sofrendo com preços mais baixos e menor volume de venda de final de ano, a expectativa é de piora de rentabilidade na comparação trimestral no Brasil.
A XP Investimentosespera resultados mais fracos no 4T25, com receita de R$ 16,7 bilhões (-7% na comparação trimestral e -1% na anual) e Ebtida de aproximadamente R$ 2,3 bilhões (-15% t/t; -3% a/a). O BTG Pactual(BPAC11) estima um Ebitda consolidado de R$ 2,4 bilhões, o que representaria rentabilidade medida por esse indicador de 14,6%.
Medidas de proteção ajudaram no rali d GGBR4
Uma parte da forte valorização das ações GGBR4 nos últimos meses tem a ver com a China. Para a Genial, alguns fundos domésticos assumiram posições compradas nas ações da companhia como forma de apostar na aprovação de medidas antidumping em várias categorias de aço, que deverão ser julgadas pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), por meio do Comitê Executivo de Gestão (Gecex) ao longo deste ano.
A medida mais recente do MDCI, publicada no dia 12 de fevereiro, aprovou a aplicação de direito antidumping, com validade de até cinco anos, às importações brasileiras de laminados planos a frio e revestidos vindos da China. A medida atendeu ao pleito das empresas associadas ao Instituto Aço Brasil, que comemorou a decisão.
“Trata-se de mais um movimento em favor do reforço ao sistema de defesa comercial para conter as importações predatórias de aço“, disse a entidade em nota, que defende o monitoramento contínuo dos volumes que chegam ao país. Segundo o instituto, em 2025 as importações de laminados cresceram 20,5%, fechando em 5,7 milhões de toneladas, das quais 63,7% oriundas da China.
Clientes da Gerdau (GGBR4) no Brasil são altamente sensíveis a juros, como as empresas do setor de construção civil. (Imagem: NVB Stocker em Adobe Stock)
Em janeiro, o Gecex já havia elevado para 25% a alíquota do imposto de importação para nove nomenclaturas comuns do Mercosul (NCMs) de produtos de aço.
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A indústria espera que novas medidas protecionistas sejam adotadas ao longo de 2026, “diante da crescente guerra no mercado de aço no mundo”. O Instituto Aço Brasil afirma que vários países já adotaram medidas de defesa comercial mais fortes que as adotadas no Brasil.
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Os analistas da Genial Investimentos avaliam, por outro lado, que as medidas protecionistas reforçam cautela em relação a Gerdau. “Embora a aprovação de direitos antidumping definitivos sobre importações de aço pré-pintado da China e da Índia, juntamente com aumentos tarifários temporários em outros NCMs de aço, confirme a disposição do governo de agir, o escopo e o mix de produtos das medidas evidenciam uma abordagem seletiva e politicamente cautelosa”, observam os analistas da casa.
Estados Unidos alavancam a rentabilidade da Gerdau
A projeção vem em linha com a do Itaú(ITUB3; ITUB4), que vê como destaque a operação da América do Norte, onde a Gerdau tem operações em dezenas de Estados dos EUA e no Canadá, compensando a pior performance do mercado brasileiro. “Provavelmente apresentará resultados resilientes”, avalia o banco em relatório.
Nos Estados Unidos de Donald Trump, o mercado doméstico mais protegido contra importações de aço deverá manter os preços firmes, sustentando margens elevadas, alavancando o resultado no consolidado.
A expectativa é que a margem Ebitda da operação norte-americana fique entre 20% e 21% no quarto trimestre, bem acima da rentabilidade no Brasil, na faixa de 7%.
“O grande ponto de debate da tese Gerdau é o quão sustentável é essa margem daqui para frente”, afirma Daghi. “Seja essa mais baixa no Brasil ou a mais alta nos EUA.”
O consenso de mercado projeta receita líquida de R$ 16,7 bilhões, com Ebitda de R$ 2,4 bilhões e lucro líquido de R$ 713 milhões. Veja as previsões na tabela:
Receita líquida
EBITDA
Lucro líquido
Margem EBITDA
Margem líquida
Consenso (em mi/R$)
16.711
2.426
713
14,5%
4,3%
4t24 x4t25
-0,2%
2,2%
267,9%
0,3 p.p.
5,2 p.p.
3t35 x 4t25
-6,7%
-10,7%
9,0%
-0,7 p.p.
1,0 p.p.
Na comparação anual (4T25 vs. 4T24), a receita deve recuar 0,2%, enquanto o Ebitda avança 2,2% e o lucro salta 267,9%. Já no comparativo trimestral, com o efeito de sazonalidade (3T25 vs. 4T25), a receita cai 6,7% e o Ebitda recua 10,7%, com leve alta de 9% no lucro.
Vale comprar Gerdau GGBR4?
Para a Genial, a rotação de capital estrangeiro para ações domésticas beneficiou de forma desproporcional empresas de grande capitalização como a Gerdau. Além disso, os investidores locais aumentaram exposição ao papel diante das expectativas de medidas antidumping – contra prática comercial predatória de venda de produtos abaixo do custo para eliminar concorrentes – que estão sob análise no Ministério do Desenvolvimento (MDIC).
O resultado disso foi uma alta relevante na cotação de GGBR4 (de 32% em quatro meses), elevando o papel para níveis próximos ao valor justo, que na visão da Genial é R$ 21,50. Por isso, a casa rebaixou a recomendação de compra para neutro.
“Não há nada problemático na tese de investimento da companhia, mas sim na sua materialização já refletida nos preços das ações“, observam os analistas da Genial.
A XP, por outro lado, reforça a recomendação de compra, com preço alvo de R$ 23. “A gente gosta da tese” diz Daghi. “O cenário de Estados Unidos está melhor do que a gente previa. No fim, essa dinâmica de preço tem surpreendido para cima. Eu diria que tem mais potencial de surpresa positiva do que negativa”, comenta.