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Colunista

O paradoxo de 2026: investidor estrangeiro toma risco, local busca proteção e a curva longa fecha

Enquanto o investidor local mantém postura defensiva e privilegia o CDI, o capital estrangeiro entra com força na B3, apostando no fechamento da curva de juros e na compressão dos prêmios de risco no Brasil

Por Marco Saravalle

16/02/2026 | 11:00 Atualização: 16/02/2026 | 11:14

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B3, a Bolsa de Valores do Brasil (Foto: Adobe Stock)
B3, a Bolsa de Valores do Brasil (Foto: Adobe Stock)

Se 2025 foi definido pela aversão ao risco, o início de 2026 desenha um cenário de divergência extrema entre os fluxos de capital. Enquanto o investidor local, tanto o varejo quanto o institucional, mantém uma postura defensiva, drenando recursos da Bolsa para a segurança do CDI, o capital estrangeiro inunda o mercado brasileiro, apostando na compressão dos prêmios de risco de longo prazo.

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Dados exclusivos consolidados pela plataforma DataBay revelam que o ano começou com uma dinâmica de “cabo de guerra” na liquidez, onde a Renda Fixa continua soberana na preferência doméstica, mas com sinais importantes de reacomodação na indústria de fundos.

Segundo o levantamento da DataBay, janeiro de 2026 confirmou a resiliência da Renda Fixa, mas trouxe uma surpresa positiva para os gestores macro.

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A classe de renda fixa liderou com folga a captação, registrando uma entrada líquida de R$ 42,6 bilhões apenas no primeiro mês do ano. Esse movimento reflete a manutenção da Selic em patamares restritivos (15% a.a.), o que mantém o custo de oportunidade do capital elevadíssimo para o investidor local. O “colchão de liquidez” continua sendo a prioridade.

No entanto, diferentemente da sangria observada em 2025, a indústria de multimercados apresentou uma recuperação vigorosa, com captação líquida positiva de R$ 14,8 bilhões em janeiro. O dado sugere que o investidor começou a realocar risco de forma tática, buscando gestores que conseguem capturar distorções nos juros futuros e moedas.

Na ponta negativa, os fundos de ações continuam sofrendo. A classe registrou resgates líquidos de R$ 3,4 bilhões. O investidor local, machucado pela volatilidade e atraído pelo juro real sem risco, segue capitulando de suas posições em equities.

Fluxo na B3: o “gringo” carrega o piano

Se o investidor local vende, quem está comprando? A resposta nunca foi tão clara. O fluxo de investimento na B3 no primeiro bimestre de 2026 expõe uma assimetria de expectativas.

Enquanto os Institucionais Locais (fundos de pensão e gestoras) venderam R$ 26,3 bilhões no acumulado de janeiro e fevereiro — pressionados pelos resgates citados acima e pela necessidade de rebalanceamento —, e as Pessoas Físicas liquidaram R$ 5,3 bilhões, o Investidor Estrangeiro atuou como a contraparte massiva.

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Os não residentes aportaram R$33,5 bilhões em apenas dois meses (R$26,3 bi em janeiro e R$7,2 bi em fevereiro).

Esse apetite estrangeiro não é aleatório. Ele reflete uma leitura de que os ativos brasileiros estão descontados em dólar e, principalmente, uma antecipação ao movimento da curva de juros. O estrangeiro está comprando a tese de que o Brasil, apesar dos ruídos fiscais, oferece um prêmio de risco exagerado na parte longa da curva.

Curva de juros

A tese do investidor estrangeiro ganha sustentação quando olhamos para o comportamento da curva de juros.. Ao compararmos o fechamento de 2025 com o cenário atual de meados de fevereiro de 2026, nota-se um fechamento expressivo da curva longa.

  • Curto prazo: os vértices curtos (vencimento em 2026) permanecem estressados, orbitando os 14,90%, praticamente inalterados em relação ao fim de 2025. Isso reflete a postura do Banco Central no combate à inflação de serviços corrente.
  • Médio e longo prazo: o contrato com vencimento em janeiro de 2029, que negociava a 13,22% no fim do ano, recuou para a casa dos 12,70%. Já o vencimento janeiro de 2031 cedeu de 13,52% para 13,10%.

Esse achatamento da inclinação (flattening) indica que, embora o juro presente seja alto, o mercado reduziu o prêmio de risco fiscal para o futuro. O mercado futuro está “pagando para ver” uma convergência da inflação, permitindo cortes de juros mais agressivos à frente do que o precificado anteriormente.

O que esperar para o restante de 2026?

O cenário desenhado pelos dados sugere um ano de oportunidades para quem tiver estômago (e caixa).

  1. Renda fixa segue Rei, mas o reinado pode ter pico: com a curva longa fechando, o ganho de marcação a mercado nos títulos pré-fixados e IPCA+ longos começa a se materializar. 
  2. Bolsa técnica: a Bolsa brasileira virou um ativo de “gringo”. Isso adiciona volatilidade (o capital externo entra e sai rápido), mas sustenta preços. Para o investidor local voltar, será preciso ver o CDI ceder de forma consistente.
  3. Multimercados em renascimento: a captação positiva em janeiro sinaliza que o mercado está dando um novo voto de confiança à gestão ativa. Com a volatilidade dos juros (fechamento da curva), esses fundos têm um prato cheio para gerar alfa.

*Colaborou no artigo Guilherme Carter, economista e especialista em finanças, com carreira dedicada à análise de mercados e inovação em investimentos.

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