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Direto da Faria Lima

Como as gestoras de cripto se preparam para não encolher junto com o bitcoin

Desde outubro, criptomoeda cai quase 60%, uma desvalorização que afeta diretamente o patrimônio líquido das gestoras

Por Luíza Lanza
Editado por Geovana Pagel

20/02/2026 | 5:30 Atualização: 19/02/2026 | 20:22

Novo ciclo de baixa das criptomoedas exige maior disciplina de gestão dos negócios, dizem gestores. (Arte: Victoria Fuoco/Imagens: Adobe Stock)
Novo ciclo de baixa das criptomoedas exige maior disciplina de gestão dos negócios, dizem gestores. (Arte: Victoria Fuoco/Imagens: Adobe Stock)

O bitcoin acumula quase 60% de desvalorização desde outubro de 2025, quando superou os US$ 126 mil pela primeira vez na história. O movimento foi brusco e rápido, afastou muitos investidores e, junto com eles, levou os recursos de muitas gestoras de investimento focadas na tese.

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Por terem o patrimônio líquido de boa parte dos fundos atrelados à cripto, as casas viram o AuM (Assets under Management) derreter junto com o valor de mercado do ativo, ainda que a captação continuasse positiva. Com isso, a receita dos negócios também oscilou.

É uma realidade natural dos negócios ligados a ativos tão voláteis, mas que vem exigindo maior disciplina na gestão desde outubro do ano passado, quando o bitcoin começou a derreter.

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Na Hashdex, a maior gestora de criptos do Brasil com R$ 4,87 bilhões em AuM e 341 mil investidores, as baixas do BTC desde o ano passado mostram que o perfil dos cotistas mudou. Entre maio e agosto de 2025, enquanto a cripto disparava, os fundos tiveram meses de resgates. Desde outubro, quando a cripto passou a cair, a captação voltou a ficar positiva.

É um sinal de que os investidores estão comprando na baixa e vendendo na alta, aproveitando as brechas da cotação para rebalancear os portfólios. Um resultado que a Hashdex atribui aos esforços feitos na educação dos cotistas, mas também à mudança do perfil dos clientes, de varejo para institucionais.

“O que estamos vendo é que a nossa base de clientes acredita na tese e está rebalanceando a alocação. Mas tentamos ser bem conservadores na gestão do nosso caixa para ter uma posição financeira bem robusta, independentemente do cenário de preço de cripto”, diz Samir Kerbage, CIO da Hashdex.

A queda do valor de mercado das criptos não muda a visão de longo prazo da gestora, mas pode levar a uma revisão dos produtos disponibilizados na prateleira da casa. “Temos produtos que já estão completando 3,5 anos. É normal fazer uma revisão de grade em algum momento, vendo quais têm apetite, quais não têm para eventualmente fazer uma consolidação”, destaca Kerbage.

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Na QR Asset, outra grande gestora 100% focada em criptomoedas com R$ 650 milhões em AuM e 50 mil investidores, os fundos de gestão ativa – os primeiros lançados pela casa – seguem modelos quantitativos, que vêm conseguindo se descolar da queda do BTC. Enquanto a cripto cai cerca de 30% em 2026, o produto cai 10%.

Mas eles são apenas uma parte pequena do PL sob gestão. O carro-chefe na QR são os Exchange Traded Funds (ETFs), que seguem índices. O BTC cai, os produtos também e, com isso, a receita da gestora via taxa de administração.

“Sempre fomos uma casa enxuta, muito responsáveis do lado do custo, o que ajuda muito em momentos como esse de mercado. O que temos tentado fazer para mitigar o risco é alavancar a captação dos fundos de gestão ativa, dado que os modelos estão funcionando, para que essa parte seja um percentual maior do todo. E, assim, nos dar maior margem de segurança”, conta Theodoro Fleury, sócio e gestor de investimentos da QR Asset.

Inverno cripto ou bear market?

A queda das criptomoedas desde 2025 chama a atenção não só pela magnitude, mas porque acontece em um momento positivo para ativos de risco no geral. Em 2024, quando o bitcoin iniciou o último ciclo de alta, boa parte dos ganhos veio na esteira de eventos positivos para a tese – aprovação dos ETFs de bitcoin nos Estados Unidos, a eleição do presidente americano Donald Trump e uma agenda pró-criptos e um halving.

A desvalorização do BTC agora, mesmo com todos esses fatores no radar e o apetite global por ativos de risco, fez muita gente começar a se perguntar se a criptomoeda estaria iniciando um novo ciclo de baixa, o temido inverno cripto.

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O termo é muito usado na indústria para se referir a longos períodos de baixas consecutivas, em que os ativos não conseguem ensaiar uma reação. O último inverno do bitcoin foi em 2022, quando a cotação chegou a US$ 16 mil depois de ter batido o então recorde de US$ 69 mil ao final de 2021.

Mas os gestores não acreditam que o atual momento do bitcoin possa ser considerado um novo inverno cripto. Ao menos, não por enquanto.

Samir Kerbage, da Hashdex, destaca que o cenário tem distinções importantes da queda de 2022. Naquele ano, além da desvalorização dos ativos, houve também uma série de episódios de crise: a quebra da corretora FTX, o colapso da stablecoin Luna. Relembre os casos aqui.

“É preciso fazer uma distinção técnica entre um inverno cripto e um bear market. Estamos definitivamente em um mercado de baixa, mas a infraestrutura do mercado e os fundamentos seguem robustos, a adoção institucional não parou, assim como a evolução regulatória”, diz Kerbage.

Em 2022, no auge dos problemas, o sentimento geral era de que a indústria tinha acabado. Hedge funds interromperam a alocação, não havia apetite para falar de cripto com grandes instituições financeiras. O que não está acontecendo agora, apesar da desvalorização do bitcoin.

“É difícil dizer se estamos em um inverno cripto, depende de quanto tempo vai demorar para recuperar. A queda foi relevante, mas não temos aquela sensação de ostracismo, de marasmo na indústria”, destaca Theodoro Fleury, da QR.

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Fleury lembra que, tradicionalmente, o bitcoin opera em ciclos de quatro anos. Isso tem a ver com o halving, o processo de criação de escassez dessa indústria que corta na metade a recompensa dos mineradores dos ativos.

Historicamente, logo após o halving, a cripto engata uma sequência de altas até o pico. Depois, vai se desvalorizando em um novo ciclo de baixa, que só acaba quando o próximo evento de escassez estiver perto. Esses ciclos costumam durar cerca de 70 semanas. Ou seja, 70 semanas antes do halving a criptomoeda atinge seu menor valor do ciclo; 70 semanas depois, o maior.

Foi assim em 2016, 2020 e, agora, no halving de 2024. A cotação recorde de US$ 126 mil do bitcoin aconteceu cerca de 76 semanas após o evento. Considerando apenas o ciclo, o momento atual seria de baixa naturalmente.

“O bitcoin caiu sozinho agora, enquanto todos os outros ativos tidos como reserva de valor estão batendo recordes. Dá a impressão de que a queda aconteceu por motivos próprios e não por fatores macro”, explica o gestor da QR.

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O que também pode estar acontecendo é um movimento de realização de lucros, em uma indústria que migrou o perfil de investidor nos últimos anos. As criptomoedas se popularizaram muito no varejo, mas já há alguns anos ganharam foco especial dos institucionais – que costumam usar a alta de um ativo para colocar os ganhos no bolso.

“O bitcoin acima de US$ 100 mil virou um ponto de venda, o que é natural pensando no investidor que vinha carregando o ativo há cinco anos. O feedback que temos dos clientes é de que nada mudou na tese, eles continuam acreditando, apenas fizeram um rebalanceamento das posições para colocar parte do lucro no bolso”, diz Kerbage, da Hashdex.

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