O problema, que vai além de um descontrole financeiro, reflete uma combinação de fatores estruturais, como renda insuficiente e sobrecarga de responsabilidades.“Quando pensamos em endividamento feminino, muitas vezes não se trata de descontrole, erro ou falta de caráter. Às vezes, é necessidade”, afirma Flávia Meireles, analista de research da Ágora Investimentos.
O endividamento foi o tema debatido no quinto episódio do programa Da Conta Delas, que contou com a participação da planejadora financeira Clay Gonçalves, da Planejar, e da analista da Ágora. As convidadas discutiram caminhos práticos — e também emocionais — para sair do vermelho.
Dívida vai além da falta de controle
Durante a conversa, as convidadas destacaram que a inadimplência entre mulheres está frequentemente associada à necessidade. Segundo Meirelles, o crédito muitas vezes funciona como uma forma de cobrir despesas básicas, diante de uma renda que não acompanha o volume de responsabilidades, especialmente em lares chefiados por mulheres.
Clay reforçou que, embora a falta de controle financeiro possa existir, ela não é o único fator. Questões como baixa renda e a realidade de mães solo têm peso relevante na formação das dívidas.
O impacto emocional também aparece como um elemento central. As especialistas apontaram que as mulheres tendem a enfrentar maior pressão social e julgamento em relação ao “nome sujo”, o que pode gerar ansiedade e até adiar a busca por soluções.
Para quem busca sair do endividamento, o primeiro passo não é pagar dívidas imediatamente. A recomendação de Meirelles é ganhar clareza sobre a situação financeira antes de tomar qualquer decisão. Isso inclui mapear o valor total das dívidas, identificar os credores e entender as taxas de juros envolvidas. Também é importante analisar as causas do endividamento para evitar a repetição do ciclo.
Rede de apoio e renda extra fazem diferença
Outro ponto destacado foi a importância do apoio social. Segundo Clay, nem sempre a solução passa apenas por mais dinheiro. Parcerias informais, como o revezamento no cuidado com filhos, podem liberar tempo para o trabalho e ajudar na reorganização financeira.
Na busca por renda extra, a orientação é começar por atividades acessíveis, aproveitando habilidades já existentes ou demandas próximas, como serviços no próprio bairro ou condomínio.
As especialistas também chamaram atenção para o uso do FGTS em situações específicas, como doenças graves de dependentes. O recurso, muitas vezes desconhecido, pode evitar que gastos inesperados se transformem em dívidas maiores.
Sair do endividamento não acontece de forma imediata, mas como um processo gradual de reorganização financeira. Na avaliação delas, começar pelas dívidas mais simples pode ajudar a recuperar o senso de controle e criar o impulso necessário para avançar na reorganização financeira.