Executivos da Vale apresentam estratégia da Vale Base Metals em Toronto, com foco na expansão da produção de cobre e geração de valor no longo prazo (Foto: Adobe Stock)
A Vale (VALE3) foi a Toronto, no Canadá, para ampliar a narrativa sobre seu futuro. No primeiro VBM Day desde a segregação da Vale Base Metals em 2023, a companhia apresentou ao mercado um plano de crescimento ancorado em cobre e níquel. Segundo a Genial Investimentos, o evento “foi positivo para a tese de re-rating [reprecificação]”, principalmente porque reforçou a percepção de que a VBM “completou sua transformação e está entrando em fase de crescimento”.
Ainda assim, a casa acredita que “a história de equity[patrimônio líquido] da Vale permanece, por ora, uma história de minério de ferro“, o que ajuda a explicar por que o mercado ainda não precificou plenamente esse novo vetor. No centro da tentativa de convencer investidores está o cobre.
A empresa projeta uma expansão relevante da produção, de 350 a 380 mil toneladas em 2026 para cerca de 700 mil toneladas em 2035, um crescimento anual de 4% a 6%, acima de pares globais. Para a Genial, esse é o “principal argumento de reprecificação do dia”, já que “o mercado ainda não está modelando a produção total de cobre da VBM”, com um gap entre guidance(projeções) e consenso que se amplia a partir de 2028. Na prática, isso sugere que revisões de lucro podem surgir ao longo dos próximos anos, à medida que essa produção se materialize.
“700Kt é guidance. A ambição além disso é tecnicamente fundamentada”, destaca a Genial, indicando que há espaço adicional caso o cenário de preços siga favorável.
A mudança de perfil também aparece nos números
A participação da VBM no lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) da Vale saiu de 10% em 2024 para cerca de 26% em 2026, e pode atingir entre 30% e 35% a partir de 2035. Marcelo Bacci, vice-presidente financeiro, reforçou que a unidade é “um pilar da estratégia e crescimento da Vale”, enquanto a própria companhia passou a se definir como um negócio de “duplo motor”: minério de ferro, ainda dominante, e metais básicos, como plataforma de crescimento.
Essa evolução, no entanto, é gradual. A Genial ressalta que a mudança estrutural no mix de resultados “é uma história de 2028 a 2035, não de 2026”. Ou seja, embora o mercado já tenha começado a reconhecer parte desse potencial, o grosso da transformação ainda está no horizonte de longo prazo.
A disciplina financeira entre no mix
A expansão da VBM será financeira com geração própria de caixa, sem necessidade de aportes adicionais.
“Estamos nos autofinanciando”, afirmou o CEO Shaun Usmar, acrescentando que a companhia está “dois ou três anos à frente” do esperado.
Bacci complementou que, caso surjam oportunidades de acelerar o crescimento, “a Vale e a Manara [Minerals] ficarão felizes em financiar o projeto” mas, por ora, isso não é necessário.
A empresa projeta um capex (investimento) de US$ 1,6 bilhão em 2026, subindo para cerca de US$ 2 bilhões em 2027, enquanto o fluxo de caixa livre pode variar entre US$ 400 milhões e US$ 1,9 bilhão, dependendo dos preços de cobre, níquel e ouro. A alavancagem permanece baixa, com dívida líquida inferior a 1x Ebitda, o que reforça a capacidade de execução sem pressão no balanço.
O pano de fundo macro sustenta o discurso
A diretora comercial Tina Gauthier destacou que a demanda global por eletricidade deve crescer 50% até 2040, impulsionando metais críticos. No cobre, a expectativa é de alta de 20% na demanda em dez anos, puxada por transição energética, veículos elétricos e data centers, enquanto a oferta enfrenta restrições estruturais, como projetos mais caros e menor qualidade de reservas.
“Precisamos garantir produção confiável de cobre”, disse Usmar, ao enfatizar que o foco agora está na execução.
Ele também reconheceu que o ambiente geopolítico (com tensões no Oriente Médio e efeitos residuais de guerras tarifárias) pode gerar volatilidade, mas afirmou que a empresa está concentrada no que pode controlar.
Apesar do discursos consistente, o mercado ainda parece dividido. As ações da Vale, no primeiro dia do encontro em Toronto, terça-feira (31), avançaram 2,05% mesmo com a queda do minério de ferro, refletindo a recepção positiva ao novo guidance da VBM. Ainda assim, a Genial pondera que parte relevante da reprecificação já aconteceu, o múltiplo EV/Ebitda está acima da média histórica (o projetado para 2026 é de 5,5x e a média gira em torno de 5,0x) e o yield (rendimento) de fluxo de caixa caiu nos últimos meses.