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Colunista

Os diversos tipos de capital para a bioeconomia na Amazônia

Não basta dinheiro, negócios sustentáveis dependem de lideranças locais, formação de equipes, capacidade de gestão, sucessão, governança e execução

Por Fernanda Camargo

03/04/2026 | 8:00 Atualização: 03/04/2026 | 7:48

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Negócios sustentáveis na Amazônia ainda são percebidos como de alto risco: cadeias produtivas fragmentadas, baixa previsibilidade, distância dos centros consumidores, desafios regulatórios, sazonalidade e pouca padronização de métricas, o que provoca o afastamento do capital tradicional. (Imagem: Francisco em Adobe Stock)
Negócios sustentáveis na Amazônia ainda são percebidos como de alto risco: cadeias produtivas fragmentadas, baixa previsibilidade, distância dos centros consumidores, desafios regulatórios, sazonalidade e pouca padronização de métricas, o que provoca o afastamento do capital tradicional. (Imagem: Francisco em Adobe Stock)

Em março fui convidada para participar da “Imersão Amazônia” com a Endeavor. A viagem foi um lembrete do potencial empreendedor que existe no território. A abundância não é apenas de recursos naturais, mas de pessoas incríveis, inovação, empreendedores, sabedoria, conhecimentos da floresta e das infinitas soluções que nela habitam.

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Para que a floresta seja preservada, é importante que a população local tenha qualidade de vida e alternativas de trabalho e renda. Apesar de concentrar enorme riqueza natural, a Amazônia brasileira ainda convive com baixo acesso a serviços de qualidade e uma tensão constante entre ativos ambientais e desenvolvimento econômico.

Segundo o Banco Mundial, atualmente 36% da população amazônica vive abaixo da linha da pobreza e muitos ainda não têm acesso adequado a saneamento, educação e saúde. O estudo “Amazônia 2030, a Amazônia Legal” também mostra um mercado de trabalho com alta informalidade e desocupação de jovens. Consequentemente, as taxas de desmatamento sugerem que a economia ainda não é capaz de proteger a floresta e gerar valor por meio da bioeconomia.

A Amazônia brasileira tem abundância de recursos naturais, biodiversidade, conhecimento tradicional, empreendedores resilientes, inovação adaptada à realidade local e soluções que nascem da floresta e de quem vive nela.

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Acredito que o maior desafio hoje não seja a falta de capital, mas orquestrar diferentes tipos de recursos para transformar conservação e regeneração em ativos “investíveis”. Para catalisar negócios na Amazônia é preciso pensar de forma sistêmica e conectar capitais: financeiro, humano, conhecimento técnico e redes de relacionamento.

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Nos dias que passei lá, falamos muito sobre como estruturar e tornar escaláveis projetos da região. O primeiro, e mais óbvio, é o capital financeiro. Ele segue sendo indispensável para financiar crescimento, infraestrutura, logística, tecnologia e expansão comercial.

Uma saída financeira para a Amazônia

Mas na Amazônia muitos negócios ainda são percebidos como de alto risco: cadeias produtivas fragmentadas, baixa previsibilidade, distância dos centros consumidores, desafios regulatórios, sazonalidade e pouca padronização de métricas. Isso afasta parte do capital tradicional, especialmente o investidor com mandato restrito de alto retorno.

É justamente nesse ponto que o blended finance ganha relevância. A lógica é simples, embora sua execução seja sofisticada: combinar capital público, filantrópico e privado para tornar viáveis projetos que geram valor econômico, ambiental e social, mas que ainda não se encaixam no perfil clássico de investimento. Combinar recursos concessionais (públicos ou filantrópicos) para reduzir riscos e assim atrair capital privado, que de outra forma não tomaria esse risco. Isso pode ocorrer por meio de uma variedade de estratégias.

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A primeira é o uso de first-loss capital (primeira perda), pode ser recurso público ou filantrópico que absorve potenciais primeiras perdas de um projeto para proteger investidores privados com menor apetite a risco. O Fundo Vale é um grande provedor de first-loss ou subordinação para estruturas de soluções baseadas na natureza. Para o investidor deste tipo de cota subordinada (first loss) a mensuração de impacto é essencial.

Outro mecanismo é o de garantias – pode ser de compra da produção ou seguros em determinadas operações. Hoje vemos grandes compradores de commodities dando garantia de compra para produtores que trabalham com sistema agroflorestal. Essa garantia entra como mitigante de risco em uma operação de crédito.

A assistência técnica é outro capital importante – em geral, são doações feitas para o desenvolvimento de capacidades do empreendedor ou produtor e a profissionalização de projetos. A assistência técnica pode ser feita por um instituto ligado ao negócio. Um exemplo é a Belterra, que faz regeneração por meio de sistemas agroflorestais, trabalhando com pequenos produtores enquanto o Instituto Belterra recebe doações para financiar a assistência técnica desses produtores.

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Investidores de blended finance também podem operar via instrumentos de dívida concessional ou participação no capital (equity) paciente. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), por exemplo, por meio do Fundo Clima, oferece crédito com taxas e condições mais favoráveis para incentivar projetos de impacto ambiental.

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O equity (participação no negócio) paciente se refere a investidores dispostos a aceitar retornos menores ou horizontes de saída mais longos para investimentos que tem uma expectativa de impacto mais relevantes que o retorno financeiro. Muitas vezes, o equity paciente pode ser combinado com mecanismos de subordinação (first loss) dentro de estruturas de financiamento criativo de projetos.

O blended finance nesses casos destrava capitais – cada real de capital concessional pode mobilizar um volume muito maior. O grande desafio, nesses casos, além da captação, está na estruturação e na execução. É preciso coordenar diferentes tipos de investidor (stakeholders) com prazos, mandatos e objetivos distintos.

Só dinheiro não é suficiente

Quando falamos da criação de ecossistemas, o capital financeiro por si só não é suficiente. Negócios sustentáveis dependem de lideranças locais, formação de equipes, capacidade de gestão, sucessão, governança e execução. Um empreendedor pode ter acesso a um produto extraordinário ou até a uma tese ambiental robusta, mas sem pessoas capacitadas para operar, negociar, reportar resultados e crescer, o investimento não se sustenta.

Nos dias que passei na Amazônia conheci negócios incríveis. O Centro de Bionegócios da Amazônia vem ajudando empreendedores locais no desenvolvimento de empreendimentos por meio da ciência e da tecnologia. Conhecemos também o Centro de Incubação e Desenvolvimento Empresarial (CIDE) que trabalha com inúmeras startups.

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Muitos desses negócios recebem capital inicial do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam), que trabalha com diversos tipos de capital – doações, lei da informática, investimento em participações – e faz desde a aceleração, capacitação até o investimento de longo prazo.

Outro exemplo que mostra como é possível grandes grupos do Sudeste contribuírem para o desenvolvimento da região amazônica é o Grupo Trigo. Estão começando a trabalhar com produtores locais, como fornecedores de ingredientes para rede de restaurantes – para isso eles tem trabalhado em conjunto com o Idesam, o Instituto Arapyaú e outros na região e recentemente estão apoiando a criação do Investe Território.

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Estivemos com Denis Minev, CEO da Bemol. Além de investir no desenvolvimento sustentável da economia da floresta, ele é, sem dúvida, um canal de oportunidades para a região, conectando inúmeros investidores de outros lugares a empreendedores locais.

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Redes de confiança, conexões entre empreendedores, investidores, grandes empresas, cientistas, aceleradoras, especialistas e formuladores de política pública permitem que oportunidades da região não fiquem apenas na intenção.

O papel da liderança

A imersão aproximou empreendedores locais de investidores, empresas e grandes grupos do Sudeste e do Sul. Foi inspirador ver a reunião de grandes empreendedores da Endeavor Brasil trabalhando juntos, com generosidade e ambição, pelo desenvolvimento de uma região.

E na volta, vim pensando como os aprendizados que tive com meu amigo indiano Sanjay Purohit se aplicam nos desafios que vimos na Amazônia. Ele diz que o papel do líder sistêmico não é executar tudo, mas orquestrar. Desafios sociais, climáticos e institucionais não são quebra-cabeças estáticos, mas sistemas vivos, adaptativos e em aceleração. O erro é tratar complexidade como algo que se “fecha” com uma solução final.

O ideal é desenhar capacidades contínuas de resposta que se adaptam no caminho. Escala não significa ficar maior. Escala é a magnitude da transformação necessária.

Se aprendermos com a floresta, entenderemos que não adianta desenhar soluções isoladas. É preciso desenhar o sistema que torna soluções possíveis.

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