O movimento devolve as perdas da semana passada e sinaliza uma mudança de regime, com o mercado migrando da expectativa de negociação para o risco concreto de interrupção prolongada da oferta.
A escalada retórica e operacional dos Estados Unidos ocupa o centro dessa virada. Após o fracasso das negociações com o Irã no fim de semana, o presidente Donald Trump confirmou a intenção de bloquear portos iranianos, ampliando o alcance do conflito para além do Estreito de Ormuz. A resposta de Teerã classificou a medida como “ato de pirataria” e sinalizou que nenhuma infraestrutura energética na região estará segura em caso de avanço americano.
Ao mesmo tempo, surgem sinais ainda difusos de tentativa de reabertura de diálogo. Autoridades iranianas avaliam uma proposta dos Estados Unidos que envolve a renúncia ao enriquecimento de urânio como condição para encerrar o conflito, embora entraves operacionais e políticos ainda dificultem avanços concretos.
O movimento, no entanto, não encontra consenso entre aliados. O primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, afirmou que o país não apoiará um eventual bloqueio e que não pretende se envolver diretamente no conflito, indicando foco na reabertura da rota de navegação.
Impacto na Bolsa e Petroleiras
No Bolsa do Brasil, a B3, as ações da Petrobras (PETR3; PETR4) avançam em linha com o barril, refletindo tanto a exposição às exportações quanto o peso da estatal na composição do índice. Por volta das 14h (de Brasília), os papéis ordinários subiam 1,20%, a R$ 54,65, enquanto as preferenciais avançavam 0,63%, a R$ 49,34.
Além do efeito direto do petróleo, a companhia também reforça sua agenda operacional. A estatal anunciou a compra da participação de 50% da Petronas nos campos de Tartaruga Verde e Espadarte, na Bacia de Campos, por até US$ 450 milhões, retomando o controle integral dos ativos. Em paralelo, a Petrobras identificou hidrocarbonetos em poço exploratório no pré-sal da mesma bacia, no bloco C-M-477, avanço relevante na estratégia de recomposição de reservas.
A companhia também afirmou não identificar risco de interrupção em suas operações de importação e exportação, mesmo diante das tensões no Oriente Médio. Segundo a empresa, os fluxos são majoritariamente realizados fora da região de conflito e há rotas alternativas disponíveis.
A leitura no mercado é de que o choque atual vai além do ruído geopolítico de curto prazo. Segundo análise da StoneX, a retirada potencial de mais de 1 milhão de barris diários exportados pelo Irã agrava um balanço global já apertado, sobretudo em mercados asiáticos e europeus, que operam com déficit de oferta desde o início das tensões na região.
O movimento se espalha pelo setor. A Prio (PRIO3) liderou ganhos às 11h (de Brasília), mas arrefeceu e às 12h30 subia com alta de 0,40%, a R$ 68,48, enquanto a PetroReconcavo (RECV3) cedia 2,03%, a R$ 14,01, e a Brava Energia (BRAV3) com perda de 2,39%, a R$ 21,25. O Ibovespa chegou a testar alta, mas voltou a cair 0,17% aos 196.953 pontos, acompanhando a melhora parcial em Nova York e a moderação dos ganhos do petróleo ao longo da sessão.
Ormuz segue como epicentro
Mesmo antes da nova ameaça, o Estreito de Ormuz já operava sob forte restrição. A via, responsável por cerca de 20% do petróleo mundial, segue refém de condicionantes políticos e militares, sem garantia de funcionamento contínuo.
A possibilidade de bloqueio ampliado, agora não apenas do estreito, mas também de portos iranianos, altera a dinâmica de formação de preços. O mercado reage não apenas ao fluxo físico e passa a precificar risco de infraestrutura, um estágio mais avançado de tensão geopolítica.
Grandes consumidores seguem adotando medidas defensivas. O Japão anunciou nova liberação de reservas estratégicas equivalente a cerca de 20 dias de consumo, além de intensificar a busca por rotas alternativas que evitem Ormuz.
Esse ruído também se reflete nos mercados globais. Em Nova York, os índices reduziram perdas e passaram a oscilar próximos da estabilidade, enquanto o petróleo arrefecia parte dos ganhos diante da possibilidade, ainda incerta, de descompressão diplomática.
Oferta brasileira e novo vetor externo
O choque de petróleo também começa a redesenhar as contas externas brasileiras. O BTG Pactual revisou para cima suas projeções de superávit comercial, estimando saldo de US$ 90 bilhões em 2026 e 2027, impulsionado pela combinação de preços mais altos e aumento do volume exportado.
Segundo o banco, o Brasil hoje se beneficia de ciclos de alta da commodity, em contraste com o passado. Um avanço de US$ 10 no barril pode melhorar o saldo em transações correntes em cerca de US$ 5,9 bilhões, com ganho concentrado na exportação de petróleo bruto.
Há, contudo, efeitos colaterais. O encarecimento da energia eleva o custo de insumos estratégicos, como fertilizantes, o que pode adicionar cerca de US$ 1,5 bilhão à conta de importações. Além disso, aproximadamente 14% dessas compras têm alguma exposição logística ao Estreito de Ormuz, ampliando o canal de contágio via preços globais.
Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostram que o Brasil segue ampliando sua relevância no mercado global. As reservas provadas cresceram 3,84% em 2025, para 17,5 bilhões de barris, com taxa de reposição superior a 140%.
A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) anunciou que sua produção em março caiu quase 8 milhões de barris diários e 27,5% em relação à verificada em fevereiro devido à guerra no Irã e ao bloqueio do estreito de Ormuz. A entidade manteve a projeção de crescimento da produção brasileira, estimando avanço para cerca de 4,6 milhões de barris por dia em 2026, com expansão puxada por projetos como Búzios e Mero.
Inflação, juros e o efeito prolongado do petróleo
A disparada recente do petróleo volta a pressionar as expectativas de inflação global. Nos Estados Unidos, dirigentes do Federal Reserve, o banco central dos EUA, já indicam que o choque de energia pode atrasar a convergência dos preços à meta, prolongando o período de juros elevados.
No Brasil, o impacto também começa a aparecer, com reflexos sobre combustíveis e cadeias produtivas. A combinação entre petróleo caro, câmbio volátil e incerteza geopolítica tende a manter o Banco Central em postura cautelosa.
Com informações da Broadcast