Os contratos futuros recuavam após a forte alta do dia anterior. O WTI para maio tombou cerca de 7,87%, a US$ 91,28, enquanto o Brent para junho encerrou em queda 4,6%, a US$ 94,79, depois de ambos terem voltado a negociar acima dos US$ 100 no pico mais recente de tensão.
Após ter rompido essa barreira, o barril passou a oscilar com mais volatilidade diante de declarações do vice-presidente americano, JD Vance, indicando progresso nas conversas com Teerã e sinalizando que a continuidade das negociações agora depende do lado iraniano.
O mercado ainda incorpora um cenário de oferta potencialmente restrita após o fracasso das negociações no fim de semana e a ameaça do presidente Donald Trump de bloquear portos iranianos, ampliando o risco para além do Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde passa cerca de 20% do petróleo global.
Do lado iraniano, a resposta mantém o nível de tensão elevado, com alertas de que nenhuma infraestrutura energética na região estaria segura em caso de avanço das restrições. Ainda assim, autoridades do país avaliam uma proposta americana que envolve a renúncia ao enriquecimento de urânio como possível caminho para encerrar o conflito.
Nem mesmo aliados tradicionais acompanham a estratégia americana. O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, afirmou que o Reino Unido não apoiará um eventual bloqueio, reforçando o foco na reabertura da rota marítima, um sinal de que a coordenação internacional está longe de ser homogênea.
Petrobras e setor reagem
No Brasil, por volta das 16h25 (de Brasília), as ações da Petrobras (PETR3; PETR4) tinham queda, acompanhando a commodity, com recuos de 4,15% nas ordinárias, a R$ 52,68, e de 3,50% nas preferenciais, a R$ 48,04. O movimento acompanha a perda de fôlego do Brent e ocorre apesar de um noticiário corporativo mais construtivo.
A estatal segue avançando em frentes estruturais. Na última segunda-feira (13), anunciou a aquisição de 50% da participação da Petronas nos campos de Tartaruga Verde e Espadarte, na Bacia de Campos, por até US$ 450 milhões, retomando o controle integral dos ativos. Também informou a identificação de hidrocarbonetos em poço exploratório no pré-sal da mesma bacia, no bloco C-M-477, reforçando a agenda de recomposição de reservas.
Ao mesmo tempo, a companhia afirmou não ver risco de interrupção em suas operações de importação e exportação, destacando que seus fluxos estão majoritariamente fora da região de conflito e que possui rotas alternativas, o que reduz a exposição direta ao Estreito de Ormuz. A Petrobras também aprovou novos aportes no projeto Sergipe Águas Profundas (SEAP), além de retomar as obras da UFN-III, em Três Lagoas, com investimento estimado em cerca de US$ 1 bilhão e operação prevista para 2029. A empresa ainda avalia uma possível contraproposta ao Mubadala pela refinaria de Mataripe.
O movimento negativo se espalha pelo setor. Às 11h (de Brasília), a Prio (PRIO3) recuava 3,25%, para R$ 64,64, a PetroReconcavo (RECV3) caía 1,23%, para R$ 13,68, e a Brava Energia (BRAV3) cedia 1,74%, para R$ 20,88, todas entre as principais perdas do Ibovespa no dia, em linha com a correção do petróleo.
No campo fundamentalista, o Citigroup elevou o preço-alvo da PetroReconcavo para R$ 15, citando o petróleo mais alto como vetor positivo para geração de caixa e dividendos, ainda que tenha mantido recomendação neutra diante da incerteza sobre crescimento da produção. No setor, o banco segue apontando a Prio como sua principal escolha.
Choque já altera o mapa global do petróleo
A Agência Internacional de Energia (AIE) passou a projetar contração da demanda global de petróleo em 2026, estimando queda de 80 mil barris por dia, uma guinada relevante frente à expectativa anterior de crescimento.
No curto prazo, a demanda deve cair 1,5 milhão de barris por dia no segundo trimestre, refletindo preços elevados e disrupções nas cadeias de suprimento. Do lado da oferta, a agência também revisou suas projeções e passou a estimar retração de 1,5 milhão de barris por dia neste ano.
Brasil surfa o ciclo, com efeitos colaterais
O BTG Pactual revisou para cima suas projeções e passou a estimar superávit comercial de US$ 90 bilhões em 2026 e 2027, impulsionado pela combinação de preços mais altos e aumento da produção doméstica.
Segundo o banco, o país deixou de ser vulnerável à alta do petróleo e passou a se beneficiar desse tipo de choque. Um aumento de US$ 10 no barril pode melhorar o saldo em transações correntes em cerca de US$ 5,9 bilhões, com ganhos concentrados na exportação de petróleo bruto.
Há, contudo, efeitos colaterais relevantes. O encarecimento da energia pressiona custos de insumos estratégicos, como fertilizantes, e amplia o risco inflacionário global, um fator que pode prolongar o ciclo de juros elevados.
Esse impacto já começa a se espalhar pela economia real. No setor de turismo, o aumento do combustível elevou em até 30% o preço das passagens aéreas, acendendo alertas sobre a demanda por viagens e empresas como a CVC (CVCB3).