Títulos atrelados à inflação ganham força com juros reais elevados e cenário global mais incerto, atraindo investidores ao Tesouro Direto. (Foto: Adobe Stock)
O atual patamar de juros no Brasil — a 14,75% ao ano, com expectativas de fechar 2026 rondando os 13% ao ano — tem colocado o Tesouro Direto no radar de investidores em busca de retornos mais robustos na renda fixa. Com a taxa Selic elevada e um mercado ainda sensível às expectativas de juros futuros, os títulos públicos passaram a oferecer prêmios mais atrativos.
Nesse contexto, instrumentos como o Tesouro IPCA+ e o Tesouro Prefixado ganham protagonismo. Eles atendem a diferentes estratégias: enquanto o primeiro protege o investidor contra a inflação ao garantir uma taxa real, o segundo permite travar uma rentabilidade nominal em um cenário de possível queda de juros no futuro.
“Atualmente, os títulos do Tesouro Direto estão com rendimentos elevados devido à Selic alta e às expectativas de juros futuros, o que torna os investimentos em renda fixa mais atrativos”, afirma Antonio Patrus, diretor da Bossa Invest.
Segundo ele, o movimento não é isolado, mas resultado direto de um conjunto de variáveis que moldam o comportamento do mercado.
O que impacta a rentabilidade do TD?
Entre fatores, destacam-se a condução da política monetária, o nível de inflação e o ambiente global de risco. Mudanças nas expectativas sobre qualquer um desses elementos tendem a impactar imediatamente a precificação dos títulos públicos. Isso significa que os investidores precisam acompanhar não apenas a taxa básica de juros, mas também sinais do Banco Central, indicadores inflacionários e o humor dos mercados internacionais.
Patrus ressalta que esse cenário tem efeitos que vão além da renda fixa tradicional. “Para o ecossistema de startups, isso eleva o custo do capital e pode tornar os investidores mais seletivos”, diz. Com retornos mais altos e menor risco nos títulos públicos, há uma migração natural de recursos que antes poderiam ser destinados a ativos mais arriscados, como venture capital (capital de risco).
Ainda assim, o especialista pondera que o Tesouro Direto deve ser analisado dentro de uma estratégia mais ampla. Em um ambiente de incertezas, a diversificação segue como princípio central.
“Numa estratégia de composição e diversificação de carteira, essa classe de ativos deve ser avaliada com a devida atenção pelo mercado”, conclui.
Tesouro Selic
No caso do Tesouro Selic, a taxa adicional permanece bastante baixa, em torno de 0,0453% ao ano no papel com vencimento em 2028, o que indica pouca volatilidade e manutenção do perfil conservador desse título. O preço unitário gira próximo de R$ 18,2 mil, com aplicação mínima na casa de R$ 182,89, mantendo-se como principal alternativa para reserva de liquidez e proteção contra oscilações de mercado.
Veja um exemplo:
Tesouro IPCA+
Já os títulos Tesouro IPCA+ (sem juros semestrais) seguem oferecendo prêmios relevantes. O papel com vencimento em 2029 paga cerca de IPCA + 7,63%, enquanto os mais longos, como 2040 e 2050, oferecem taxas de 7,04% e 6,82%, respectivamente.
A inclinação da curva, com taxas mais altas nos prazos intermediários, sugere um prêmio maior concentrado no médio prazo, refletindo expectativas de inflação e juros ainda elevados no horizonte mais próximo, com alguma acomodação no longo prazo.
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No segmento de IPCA+ com juros semestrais, o título com vencimento em 2035 apresenta taxa de IPCA + 7,48%, também em patamar elevado. Esse tipo de papel continua sendo mais indicado para investidores que buscam fluxo de renda periódica, embora com maior sensibilidade à marcação a mercado.
Tesouro Renda+
Os produtos voltados a objetivos específicos, como o Tesouro Renda+ (aposentadoria), mostram uma curva longa relativamente estável, com taxas que partem de IPCA + 7,12% em 2049 e vão caindo gradualmente até cerca de 6,79% nos vencimentos mais longos, como 2084. Esse comportamento indica uma ancoragem das expectativas de inflaçãono longo prazo, ainda que em níveis elevados de juros reais.
Tesouro Educa+
Da mesma forma, o Tesouro Educa+ apresenta taxas reais bastante atrativas, principalmente nos vencimentos mais curtos, como 2030 (IPCA + 7,95%) e 2031 (IPCA + 7,60%). Ao longo da curva, há uma leve queda nas taxas até cerca de IPCA + 6,95% em 2046, reforçando o mesmo padrão observado nos demais títulos: prêmios mais altos no curto e médio prazo.
O quadro atual do Tesouro Direto mostra juros reais ainda elevados, curva levemente inclinada e oportunidades mais interessantes nos prazos intermediários, enquanto o Tesouro Selic segue como instrumento de estabilidade.