No horizonte de médio prazo, um possível cessar-fogo, ainda com incertezas, a queda dos juros para 13%, segundo o último Boletim Focus, e volatilidade em meio ao ano eleitoral. Segundo especialistas consultados pelo E-Investidor, não dá para afirmar que a Bolsa está uma pechincha, contudo também não está cara.
Bolsa cara ou barata?
Luiz Fernando Araújo, CEO da Finacap, observa que embora o Ibovespa tenha chegado a testar a marca histórica dos 200 mil pontos, quando dolarizada, a pontuação está próxima aos 40 mil pontos em dólar, um patamar já registrado há 20 anos.
“Para a Bolsa ser considerada cara deveríamos estar em um patamar bem acima do que os 40 mil pontos em dólar”, defende Araújo. Ele destaca que se comparado a década dos anos 70, o índice ficou estagnado em dólar. E acredita que, mesmo com incerteza e volatilidade nos mercados globais, há uma possibilidade de a Bolsa ter um crescimento muito forte nos próximos meses.
Marco Saravalle, estrategista-chefe da MSX Invest, avalia que um dos fatores que fez a bolsa encarecer foi o forte fluxo estrangeiro nos últimos meses, mas com o índice acima de 190 mil pontos, a assimetria de desconto é muito menor.
Para Saravalle, nos próximos dois ou três meses é possível que existam menos preocupações sobre conflitos geopolíticos, o que deve aliviar até o próprio índice americano S&P 500 e, em consequência, trazer mais fluxo de investidores gringos para o Brasil.
Mas a realização de lucros é inevitável, na visão do estrategista-chefe da MSX Invest, e fatores como as decisões de juros no Brasil e nos Estados Unidos, podem acabar travando a valorização do índice. “Se não houver novos cortes de juros, como o esperado, pode ser desastroso para o Ibovespa”, defende.
Já em relação às eleições, Saravalle acredita que não haverá volatilidade que mude os rumos do Ibovespa, porque o principal norte do índice está sendo definido por movimentos globais e apetite por mercados emergentes.
Vale a pena investir em ações para dividendos agora?
O investidor de dividendos e uma Bolsa cara, não são bons amigos. Afinal, este tipo de acionista busca comprar papéis descontados ou na baixa, para garantir um dividend yield (retorno em dividendos elevado). Quando o fluxo é o contrário, atrapalha na realização de aportes.
Bruno Oliveira, analista do Vida de Acionista, lembra um fator importante: o Ibovespa é um índice que reúne uma certa quantidade de empresas, mas não representa todo o universo da Bolsa. “Por tanto, mesmo que o Ibovespa esteja em tendência de alta e algumas ações que o integram caras, isso não significa que não existam bons ativos na bolsa que estejam descontados”, pontua,
Pela metodologia do Vida de Acionista, Oliveira considera uma ação barata para dividendos quando tem a capacidade de entregar um dividend yield de 8% ou mais em 2026. Desta forma, acredita que ainda há boas oportunidades para o investidor fazer aportes.
Na visão de Saravalle, o dividend yield de algumas empresas pode ser menor atualmente, mas o investidor focado em renda passiva, precisa olhar muito além dos próximos 12 meses, porque com a Selic caindo no final de 2026 ou em 2027, os dividend yields vão se tornar mais atrativos. “É importante olhar a perspectiva para dividendos nos próximos 2 ou 3 anos, de forma a usufruir também da reprecificação e valorização das ações”, aponta.
Setores descontados na Bolsa
Um consenso entre os analistas consultados é que em setores perenes ainda é possível encontrar ações com bons descontos. Entre estes, bancos, seguradoras, energia elétrica. Os clássicos portos seguros da Bolsa não perderam a sua atratividade.
Nas empresas de commodities, que acompanham principalmente petróleo e minério de ferro, também há boas pechinchas, na visão dos especialistas.
Para Juan Lopes, sócio e trader da Meraki Capital, o setor de construção também oferece desconto, aproveitando um mercado cíclico proveitoso para construtoras de baixa renda diante de programas governamentais e futuros cortes de juros.
Saravalle chama a atenção ainda para as small caps (ações com valor de mercado abaixo de R$ 10 bilhões) e que, na visão dele, não acompanharam tanto a valorização do Ibovespa, o que oferece um bom potencial de compra. “Tem empresa negociando a 3 ou 4 vezes EV/ebitda, com dividendos projetados ainda muito bons”, destaca.
Ações baratas apesar do Ibovespa em alta
Falando em ações específicas que ainda oferecem desconto, os analistas citam 13 papéis com dividend yield projetado para os próximos 12 meses entre 5,5% e 13%.
Uma que se destaca é a BB Seguridade (BBSE3). Oliveira, do Vida de Acionista, comenta que o setor de seguros no Brasil ainda é sub penetrado se comparado aos Estados Unidos, isso traz uma capacidade de crescimento robusto para BB Seguridade.
Já o analista Felipe Paletta, destaca que mesmo com juros altos a BB Seguridade se beneficia pelo resultado financeiro e com previdência. “A companhia tem uma geração de caixa estável mesmo em cenários desafiadores para a economia, então mesmo se os juros caírem, vai continuar sustentando por bastante tempo dividendos de dois dígitos”, avalia.
Nessa mesma linha, Luiz Barsi Neto e Alexandre Gaspar, especialistas da Barsi Investimentos citam o Banco do Brasil (BBAS3), controlador da BB Seguridade. Para eles, o banco apresenta uma assimetria relevante , porque não acompanhou a valorização de outros bancos no último ciclo, influenciado pelo risco político e exposição ao agronegócio, em crise.
“O BB é uma empresa com fundamentos robustos, negociada abaixo do valor patrimonial e com um P/VP ao redor de 0,7, o que reforça o seu potencial de longo prazo para investidores focados em renda passiva”, afirmam Neto e Gaspar.
Entre os bancos, outro que se destaca é o Itaú (ITUB4), que na visão de Lopes, da Meraki, não está exatamente muito barato, mas compensa o investimento com um retorno sobre patrimônio líquido (ROE) elevado na faixa dos 20%.
Veja abaixo as ações baratas atualmente na visão dos analistas:
O que o investidor de dividendos deve fazer quando a Bolsa está cara
Fica claro que a Bolsa não está 100% cara atualmente e ainda existem boas pechinchas, contudo, o que o investidor de dividendos deveria fazer se fosse o contrário?
Paletta aconselha como estratégia fracionar os aportes, em diversos dias ou meses. “Em vez de aplicar R$ 10 mil em ações de uma única vez, o investidor pode reduzir os investimentos para R$ 5 mil e fazer isso de forma fracionada observando o comportamento do mercado”, diz. Desta forma, indica investir R$ 1 mil em um dia, R$ 2 mil depois ou dividir os aportes ao longo de 15 dias ou mais.
Oliveira defende que nenhum investidor é obrigado a comprar ações quando a Bolsa está cara e que existem outros aportes que não envolvem dinheiro, por exemplo o aporte intelectual, onde ele passa a estudar e entender os fundamentos das ações à espera de uma boa oportunidade e com caixa para usufruir deste momento.