Com juros elevados, Tesouro Direto mantém retornos atrativos, mas volatilidade da curva exige atenção do investidor (Foto: Adobe Stock)
Os títulos do Tesouro Direto atravessam um dos momentos mais atrativos dos últimos anos para investidores em busca de rentabilidade real elevada. Em meio a um cenário de juros ainda pressionados e expectativas cautelosas para a política monetária, os papéis voltaram a oferecer retornos considerados historicamente raros, sobretudo nos vencimentos mais longos. O Tesouro Educa+ tem a taxa de retorno mais alta, pagando IPCA + 7,95%.
André Matos, CEO da MA7 Negócios, lembra que a combinação entre inflação persistente, incertezas externas e um provável tom mais duro dos bancos centrais tem sustentado os prêmios elevados dos títulos públicos.
“Os títulos do Tesouro Direto estão em um dos melhores momentos para quem busca rentabilidade real”, afirma.
Investidores encontram taxas mais altas nos títulos prefixados e nos atrelados à inflação. O Tesouro Prefixado 2029 opera próximo de 13,33% ao ano, enquanto o Tesouro IPCA+ 2029 negocia em torno de IPCA + 7,56%. Já o Tesouro IPCA+ 2060 voltou a superar a marca de IPCA + 7% – patamar que, historicamente, aparece apenas em períodos de forte estresse ou elevada percepção de risco.
O que estimula esse movimento
O mercado passou a revisar para cima as projeções de inflação e, consequentemente, as expectativas para os juros básicos da economia. O Boletim Focus mais recente apontou IPCA de 4,86% para 2026, registrando a sétima alta consecutiva das estimativas. Isso consolidou a percepção de uma Selic terminal em 13%, indicando que o processo de corte de juros deverá ser mais lento do que o esperado no início do ano.
Para Matos, o comportamento das taxas daqui para frente dependerá principalmente de três fatores. O primeiro é a chamada Superquarta, dia em que ocorrem as decisões de juros do Federal Reserve, nos Estados Unidos, e do Comitê de Política Monetária (Copom), no Brasil. O mercado deve concentrar atenção nos comunicados das autoridades monetárias.
Mercado monitora cenário geopolítico
O segundo ponto monitorado pelo mercado é o cenário de tensão geopolítica envolvendo Estados Unidos e Irã. As negociações seguem travadas após o presidente Donald Trump rejeitar a última proposta iraniana, aumentando o risco de pressão adicional sobre o petróleo. O desfecho dessa disputa será decisivo para determinar se o barril do Brent permanecerá acima dos US$ 100, o que poderia reacender preocupações inflacionárias globais.
A terceira frente envolve a política monetária americana. O especialista cita a possível confirmação de Kevin Warsh para a liderança do Fed como um fator relevante para os mercados emergentes. Na avaliação de Matos, Warsh tende a adotar uma postura mais “hawkish” (postura rígida do BC para conter a inflação, elevando taxas de juros e reduzindo estímulos econômicos) em relação ao balanço do banco central. Mas ele pode mudar para uma orientação “dovish” (BC prioriza o crescimento econômico e redução do desemprego, optando por juros baixos ou cortes de taxas) nos juros, o que teria impacto direto sobre o fluxo de capital para países emergentes, como o Brasil.
Apesar do cenário volátil, Matos avalia que o momento ainda favorece o investidor de longo prazo, com títulos oferecendo um “carrego” elevado.
“Travar essas taxas hoje significa proteger poder de compra por uma década, ainda que oscilações no caminho façam parte do jogo”, conclui.
Tesouro Selic: pouca volatilidade
No caso do Tesouro Selic, a taxa adicional permanece bastante baixa, em torno de 0,0453% ao ano no papel com vencimento em 2028, o que indica pouca volatilidade e manutenção do perfil conservador desse título. O preço unitário gira próximo de R$ 18,2 mil, com aplicação mínima na casa de R$ 182,89, mantendo-se como principal alternativa para reserva de liquidez e proteção contra oscilações de mercado.
Veja um exemplo:
Tesouro IPCA+
Já os títulos Tesouro IPCA+ (sem juros semestrais) seguem oferecendo prêmios expressivos. O papel com vencimento em 2029 paga cerca de IPCA + 7,63%, enquanto os mais longos, como 2040 e 2050, oferecem taxas de 7,07% e 6,95%, respectivamente.
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A inclinação da curva, com taxas mais altas nos prazos intermediários, sugere um prêmio maior concentrado no médio prazo, refletindo expectativas de inflação e juros ainda elevados no horizonte mais próximo, com alguma acomodação no longo prazo.
No segmento de IPCA+ com juros semestrais, o título com vencimento em 2035 apresenta taxa de IPCA + 7,48%, também em patamar elevado. Esse tipo de papel continua sendo mais indicado para investidores que buscam fluxo de renda periódica, embora com maior sensibilidade à marcação a mercado.
Tesouro Renda+
Os produtos voltados a objetivos específicos, como o Tesouro Renda+ (aposentadoria), mostram uma curva longa relativamente estável, com taxas que partem de IPCA + 7,20% em 2049 e vão caindo gradualmente até cerca de 7,02% nos vencimentos mais longos, como 2084. Esse comportamento indica uma ancoragem das expectativas de inflaçãono longo prazo, ainda que em níveis elevados de juros reais.
Tesouro Educa+
Da mesma forma, o Tesouro Educa+ apresenta taxas reais bastante atrativas, principalmente nos vencimentos mais curtos, como 2030 (IPCA + 7,95%) e 2031 (IPCA + 7,82%). Ao longo da curva, há uma leve queda nas taxas até cerca de IPCA + 7,02% em 2046, reforçando o mesmo padrão observado nos demais títulos: prêmios mais altos no curto e médio prazo.
O quadro atual do Tesouro Direto mostra juros reais ainda elevados, curva levemente inclinada e oportunidades mais interessantes nos prazos intermediários, enquanto o Tesouro Selic segue como instrumento de estabilidade.