A leitura encontra eco imediato no pregão desta quarta-feira (29). Por volta das 17h (de Brasília), BBAS3 recuava 3,46%, a R$ 21,76, enquanto BB Seguridade (BBSE3) cedia 1,06, a R$ 33,68.
Embora o papel negocie a múltiplos comprimidos, de 6,3 vezes lucro e 0,6 vez valor patrimonial projetados para 2026, o banco americano avalia que o desconto não compensa o aumento de risco.
No radar figuram a piora na qualidade dos ativos ligados ao agronegócio, pressionados pela alta dos fertilizantes, clima incerto e preços de commodities sem o mesmo fôlego. A consequência aparece na conta de provisões, que o Goldman já projeta em R$ 64 bilhões em 2026, acima do teto do guidance. (projeção, no jargão econômico)
Em termos práticos, isso reduz a visibilidade sobre lucros e dificulta o cumprimento das metas anunciadas pelo próprio banco. A estimativa da casa é de lucro líquido de R$ 21 bilhões, abaixo do piso do guidance, com revisões negativas que chegam a 14% para 2026.
O Citi também adota uma leitura cautelosa. Em comentário recente, o banco afirmou que o Banco do Brasil “não parece ser um investimento viável no momento”, reforçando o tom mais defensivo que tem prevalecido sobre o papel.
Para Artur Horta, analista da The Link Investimentos, o movimento de hoje é uma resposta direta a esse ajuste de expectativas. “O rebaixamento vem do pressuposto de que o Banco do Brasil terá dificuldade para cumprir o guidance. O cenário para o agro está mais desafiador, com custo de fertilizante elevado e riscos climáticos, o que mantém a inadimplência pressionada”, afirma.
Segundo ele, esse ambiente tende a forçar um “re-rating” do papel, com o mercado reprecificando o banco a níveis mais baixos. “Com a inadimplência mais alta, o banco não entrega o lucro que prometeu. Isso leva a uma revisão de valor”, diz.
O crédito rural, que responde por cerca de 30% da carteira, tem peso desproporcional no resultado. No quarto trimestre de 2025, concentrou cerca de 60% das provisões. A inadimplência do sistema nesse segmento também avançou nos primeiros meses do ano, reforçando o sinal de alerta.
Já o impacto sobre a BB Seguridade é mais indireto. “São dinâmicas diferentes. Não deveria haver um contágio relevante. O que pesa mais em BBSE3 é fluxo, especialmente saída de investidor estrangeiro”, explica Horta. Ainda assim, o papel acompanha o mau humor do setor financeiro no curto prazo, funcionando como espécie de “efeito carona” do banco controlador.