À espera do Focus, mercado vê IPCA perto de 5% e BTG alerta para nova pressão inflacionária no Brasil
Banco revisa projeção do IPCA de 2026 para 4,9% e alerta para risco de novas altas nos combustíveis, impacto do petróleo e persistência da inflação de serviços
BTG Pactual avalia que alta do petróleo e dos combustíveis começa a contaminar alimentos, serviços e bens industriais no Brasil. (Foto: Adobe Stock)
Às vésperas da divulgação de um novo Boletim Focus, prevista para às 8h30 desta segunda-feira (11), o mercado segue atento à deterioração das expectativas para a inflação no Brasil. Na última edição do relatório do Banco Central, a projeção para o IPCA de 2026 subiu pela oitava semana consecutiva, alcançando 4,89% – acima do teto da meta de inflação de 4,5%. Nesse cenário, o BTG Pactual avalia que as pressões inflacionárias continuam ganhando força, impulsionadas principalmente pela alta do petróleo, combustíveis, serviços e alimentos.
A inflação voltou a se deteriorar, na avaliação do banco, após o processo de desinflação (redução na velocidade de aumento dos preços) observado ao longo do ano passado perder força antes mesmo da intensificação dos conflitos geopolíticos no Oriente Médio. Segundo o BTG, a piora começou a aparecer principalmente nos bens industriais e nas passagens aéreas, que trouxeram surpresas altistas nos índices de preços.
Agora, os efeitos da alta do petróleo começam a se espalhar de forma mais evidente pela economia brasileira. O banco destaca que os impactos já apareceram no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de março e no IPCA-15 de abril, especialmente nos combustíveis, como gasolina e diesel. Mas os reflexos não ficaram restritos a esse segmento.
O efeito cascata da inflação
De acordo com a casa, a elevação do diesel também começou a pressionar os alimentos consumidos no domicílio, enquanto os bens industriais passaram a refletir a alta observada no atacado pelos IGPs.
“Já começamos a observar os efeitos da alta do petróleo”, afirma o relatório, ao apontar que a inflação ganha tração em diferentes frentes.
No caso dos alimentos, o BTG avalia que há uma pressão de curto prazo causada tanto pelas chuvas, especialmente sobre produtos in natura (alimentos obtidos diretamente de plantas ou animais sem sofrer qualquer alteração industrial após saírem da natureza), quanto pelos efeitos indiretos da alta do dieselsobre a cadeia de distribuição. Já os bens industriais vêm mostrando maior pressão desde dezembro do ano passado.
Serviços continuam resilientes
O grupo de serviços segue como um dos principais pontos de atenção para o banco, sustentados por um mercado de trabalho apertado e expectativas de inflação ainda desancoradas. A expectativa da instituição é que esse grupo “permaneça acima do nível compatível com a meta“.
Outro foco de preocupação está na defasagem dos combustíveis. O relatório aponta que gasolina e diesel operam em “patamar elevado” de defasagem, ao redor de 45%, embora ressalte que a conta não considera eventuais subsídios, o que poderia reduzir essa diferença para perto de 10%.
BTG enxerga risco assimétrico para cima na inflação
O cenário-base da instituição considera o petróleo Brent a US$ 85 no fim do ano, mas o relatório destaca que preços elevados da commodity mantêm pressão altista sobre o IPCA. “O risco está assimétrico para cima nos reajustes de combustíveis”, afirma a casa.
O BTG também projeta que o governo poderá compensar parcialmente um eventual reajuste promovido pela Petrobras(PETR3; PETR4), por meio de redução de impostos federais, em linha com o projeto de lei complementar enviado ao Congresso Nacional. Ainda assim, a instituição pondera que existe limitação para esse mecanismo, já que, a partir de determinado nível de compensação, seriam necessárias medidas envolvendo Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) estadual ou subsídios adicionais.
Além da questão energética, o banco alerta para um possível aumento das pressões sobre alimentos no segundo semestre, diante da maior probabilidade de ocorrência de um El Niño entre forte e “superforte”.
Inflação revisada beira os 5%
Diante desse ambiente mais pressionado, o BTG revisou suas projeções para a inflação. A estimativa para o IPCA de 2026 passou de 4,7% para 4,9%, refletindo tanto a manutenção do petróleo em níveis elevados quanto uma atividade econômica mais forte do que o esperado anteriormente. Para 2027, a projeção subiu de 4,1% para 4,2%, incorporando uma maior inércia inflacionária e uma piora adicional das expectativas dos agentes econômicos.
BTG Pactual diz que cenário pode exigir uma postura mais cautelosa do Banco Central (Fonte: BTG Pactual)
Nas contas da instituição, os serviços devem continuar como um dos componentes mais pressionados da inflação nos próximos anos. A projeção para o grupo é de alta de 6,3% em 2026, enquanto alimentação no domicílio deve avançar 6,3% no mesmo período. Já os bens industriais têm expectativa de inflação de 2,7%.