Quem leu o roteiro dessa forma simplesmente não estava prestando atenção ao que de fato foi negociado nos bastidores, nem cogitou porque Xi Jinping sentou-se com Trump no Grande Salão do Povo e levantou-se de lá com um aceno discreto, porém decisivo, indicando a retomada das compras agrícolas americanas em escala.
Enquanto isso o Brasil, sentado do outro lado do planeta, com nossa balança comercial dependurada na soja, faria bem em começar a digerir com calma e sem o otimismo automático que costuma nos anestesiar. A aritmética é cruel, e como toda aritmética cruel, ela aparece sempre quando deixamos de olhá-la por algum tempo.
Em 2022, a China importou cerca de US$ 38 bilhões em produtos agrícolas americanos, dos quais quase US$ 18 bilhões em soja. Três anos depois, em 2025, esse mesmo total tinha desabado para US$ 8 bilhões, com a soja recuando a apenas US$ 3 bilhões. Esse espaço que se abriu na mesa do importador chinês foi ocupado pelo Brasil com uma naturalidade que poderia até ser chamada de ingênua.
Mais de 70% da soja importada pela China nos últimos dois anos saiu por Santos, Paranaguá, Rio Grande, Itacoatiara, Barcarena, sob a chuva equatorial do Arco Norte e sob o frio nem sempre tão frio do extremo sul, e o que escutávamos em Brasília era sempre a mesma melodia confortável de que o ciclo era estrutural e que tínhamos virado, por mérito próprio, o celeiro indispensável do gigante asiático.
O Brasil como substituto, não protagonista
Não tínhamos. Tínhamos, isso sim, virado o substituto temporário e involuntário de um fornecedor americano, que Pequim resolveu castigar para mandar recado político à Casa Branca, o que é coisa bastante diferente.
A pergunta que se faz agora nas mesas de café de Sorriso, Rio Verde, Maracaju, Luís Eduardo Magalhães e Não Me Toque é direta e quase tímida, do tipo que o produtor faz mais para si mesmo do que para o consultor. Quanto desse espaço a China vai efetivamente devolver aos Estados Unidos e em que ritmo?
A resposta honesta é que ninguém sabe ainda com precisão, mas os números que começam a aparecer não permitem mais o tanto do conforto anterior.
Os 12 milhões de toneladas de soja prometidas em Busan (segunda maior cidade da Coreia do Sul), em outubro do ano passado, já estão sendo executados, e o USDA, Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, reportou na semana passada que os Estados Unidos exportaram 10,9 milhões de toneladas à China até 7 de maio, ou seja, o compromisso será cumprido com tranquilidade até o fim do ano-safra americano em 31 de agosto.
Em cima disso, a Casa Branca anunciou no domingo passado um pacote anual de US$ 17 bilhões em compras chinesas de produtos agrícolas americanos para 2026, 2027 e 2028, focado em carne bovina e frango, mas com porteira aberta para milho e mais soja. E aqui chegamos ao detalhe que muita gente preferiu não ler.
Junto da delegação de Trump em Pequim, ao lado dos CEOs da Apple, da Nvidia e da Tesla, viajou Brian Sikes, presidente da Cargill, que é uma das maiores compradoras de soja brasileira e operadora pesada no porto de Santarém. Quando uma trading desse porte se senta na mesa que negocia a retomada das compras chinesas de soja americana, ela não está fazendo turismo. Está executando.
A geopolítica do prato chinês, convenhamos, é mais sofisticada do que costumamos admitir em Brasília. Xi compreendeu já na primeira metade dos anos 2010 que segurança alimentar é segurança nacional e construiu, com paciência mandarim, uma arquitetura de fornecedores diversificados em que o Brasil, a Argentina e o Uruguai funcionam como amortecedores estratégicos contra a possibilidade de Washington usar grãos como arma.
Essa arquitetura não vai desaparecer simplesmente porque o presidente americano foi recebido com banquete no Grande Salão. A China continuará nos comprando soja por razões logísticas, climáticas, de janela contra-sazonal e de risco político, e seguirá nos tratando com a polidez de quem precisa de nós.
O que muda, e muda de forma material, é que o prêmio da exclusividade involuntária, aquele bônus inesperado que recebemos como efeito colateral do confronto entre as duas maiores economias do planeta, está chegando ao fim do seu ciclo mais generoso. Não é o fim do agro brasileiro. É o fim de uma anomalia que confundimos com destino.
Vale fazer aqui uma pausa para uma observação que talvez incomode quem prefere ver o Brasil no centro do palco. Desde 2018, quando Trump iniciou em seu primeiro mandato a guerra comercial com Pequim, todo recrudescimento da tensão sino-americana nos beneficiou de forma tão automática que paramos de pensar nele como circunstância e passamos a pensá-lo como vantagem competitiva nossa.
Construímos elevadores de grãos no Arco Norte, multiplicamos o esmagamento em Mato Grosso, atraímos investimento chinês para a logística do Tapajós e do Madeira e tudo isso aconteceu sob o guarda-chuva involuntário do desentendimento entre Washington e Pequim. Essa é, talvez, a parte mais delicada da história.
Nossa prosperidade agrícola dos últimos sete anos não foi inteiramente fabricada por nós. Ela foi, em grande parte, terceirizada para o desconforto alheio, e quando esse desconforto se ameniza, nossa equação se aperta. É um daqueles momentos em que o país precisa se lembrar que dependência também tem cara de bonança.
O impacto já chegou aos preços
Em termos de preço, o efeito já apareceu na Bolsa de Chicago na sexta-feira da semana passada, com o contrato de soja recuando sobre a expectativa de retomada da demanda americana, e para o produtor brasileiro que entrou em 2026 endividado em insumos cotados em dólar e com hedge (proteção que diminui os efeitos da volatilidade do mercado sobre ativos) cambial fechado lá no comecinho do ano, a combinação de soja mais barata e dólar mais comportado funciona como um abraço de urso bastante apertado.
A indústria de esmagamento, que tem capacidade ociosa, pode até respirar melhor com matéria-prima interna mais competitiva, mas essa é uma compensação parcial e setorial, não uma boa notícia agregada.
Caberá ao Ministério da Agricultura, à CONAB, à CNA e à FPA fazer essa leitura desagregada com a frieza que o momento exige, antes que ela seja capturada pela retórica eleitoral que se aproxima e vire, como tantas vezes vira, uma briga pelo microfone em lugar de uma discussão pela balança.
Há ainda um terceiro vetor, mais sutil e talvez mais interessante, que é o de governança bilateral. Trump retornou a Washington sem ter formalizado o pacote de US$ 14 bilhões em armas para Taiwan, falou abertamente em tratar essas vendas como moeda de negociação com Pequim, e enfrenta agora reação institucional pesada no Congresso, no Pentágono e no Departamento de Estado.
Se essa pressão obrigar a Casa Branca a endurecer com a China no campo da segurança no segundo semestre, é razoavelmente provável que Pequim cobre o preço do recuo justamente onde mais dói no eleitorado rural americano, ou seja, no ritmo de execução das compras de soja, milho e carne do Meio-Oeste.
Esse cenário, em que os compromissos agrícolas costurados em Busan e em Pequim se deterioram ao longo de 2026, é, paradoxalmente, o melhor cenário possível para o agro brasileiro. Vale dizer, com toda a honestidade analítica que o tema merece, que a estabilidade entre os Estados Unidos e a China nos prejudica e a turbulência nos favorece, e essa frase, que soa cínica, é apenas a descrição fria do lugar estrutural que ocupamos nesse jogo.
O Brasil precisa, enfim, parar de tratar a soja como destino manifesto e começar a tratá-la pelo que ela é, ou seja, uma variável dentro de uma equação que está sendo escrita em outras capitais e por outras canetas.
A visita de Trump a Pequim foi um capítulo dessa equação, possivelmente menos dramático do que mereceria ser, e o próximo será a visita de Xi a Washington, marcada para 24 de setembro. Entre uma cena e outra, decide-se silenciosamente quanto do nosso saldo comercial em 2026 ainda dependerá, como tem dependido nos últimos anos, da gentileza alheia.