O que está em jogo é o nióbio. E as terras raras. E o grafite. E o que daqui a dez anos vai ser lembrado como a primeira grande negociação brasileira do século 21.
Lula chega a Washington logo depois de duas derrotas internas pesadas. O Senado rejeitou Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal, e o Congresso derrubou o veto da dosimetria. As pesquisas mostram o candidato e senador do PL Flávio Bolsonaro empatado tecnicamente com ele no segundo turno. Lula precisa de um troféu internacional, e precisa rápido. Trump, do outro lado, está saindo de uma guerra com o Irã que custou caro, perdeu a tentativa de coordenação na Opep com a saída dos Emirados Árabes, e tem urgência em fechar acordos de minerais críticos para reduzir dependência da China antes que Pequim use as terras raras como arma de novo.
Os dois precisam um do outro. Mas precisam por motivos diferentes, e essa assimetria define a negociação inteira.
Em fevereiro, a embaixada americana realizou um summit de minerais críticos em São Paulo. Lula não mandou ninguém. O vice-presidente Geraldo Alckmin tinha “agenda cheia”. Alckmin, também ministro de Minas e Energia, não foi. Darren Beattie, vice-secretário de Estado para Diplomacia Pública, foi proibido de entrar no Brasil porque planejava visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro na prisão. Em paralelo, Washington estava fechando um memorando direto com o governador Ronaldo Caiado, de Goiás, base da Serra Verde, única produtora de terras raras do Brasil. A DFC (U.S. International Development Finance Corporation, agência federal dos EUA que atua como banco de desenvolvimento) já tinha aprovado US$ 565 milhões para a empresa, com cláusula de opção de compra de participação acionária pelos americanos.
O governo americano vinha tratando o Brasil como se a República fosse uma confederação. Negociava com governadores, com mineradoras, com a Serra Verde diretamente. O Planalto reagiu mal e, em abril, formalmente recusou Terrabras, a estatal de minerais críticos proposta pela ala do PT. Em vez disso, deixou o Supremo reforçar restrições sobre aquisição estrangeira de terras agrícolas. Lula escolheu defender soberania por via constitucional, não por via empresarial.
Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do planeta, mas não extrai em escala
Quinta-feira, em parte, é o dia em que Lula vai dizer a Trump que conversa de Estado se faz com Estado. Que se Washington quer minerais brasileiros, vai ter que parar de jogar com governadores e empresas como se Brasília não existisse.
O Brasil tem 94% das reservas globais de nióbio. Tem a segunda maior reserva de terras raras do planeta. Tem 26% do grafite mundial. E produz 0,09% da cadeia global de minerais críticos. Repete: 0,09%.
O Brasil não consegue extrair em escala, não consegue refinar, não consegue processar, não consegue transformar. A Serra Verde é a única mina de terras raras em operação comercial, e ela só existe porque a DFC americana injetou meio bilhão de dólares. A produção de grafite caiu 8,4% ao ano entre 2017 e 2023, enquanto a global crescia 10. A CBMM, que tem o monopólio do nióbio, é privada e basicamente vende minério bruto para Japão, China e Estados Unidos.
Lula diz que quer “valor agregado dentro do Brasil”. É uma posição correta e quase impossível. Construir uma indústria de processamento de terras raras leva entre sete e dez anos, custa entre US$ 4 e 8 bilhões por planta, requer transferência tecnológica chinesa ou japonesa, e exige um regime tributário que o Brasil não tem. Lula está em ano de reeleição, com pesquisas apertadas, e qualquer compromisso assumido em Washington vai ser julgado pelo eleitor antes mesmo de virar política pública.
Quando Lula chegar em Washington dizendo “queremos parceria com processamento doméstico”, Trump vai oferecer alguma coisa. A questão é o que, e quanto desse “alguma coisa” o Brasil tem capacidade de absorver na velocidade política que importa.
Afinidade de Trump com Lula é real: o que pode sair desse encontro?
Trump disse em outubro, depois do encontro de 39 segundos na ONU, que ele e Lula tinham “química excelente”. Repetiu em Kuala Lumpur, capital da Malásia. Repetiu numa ligação em dezembro: “I like him” (“gosto dele”). Para quem acompanha Trump há dez anos, essa frase parece protocolar e não é. Trump opera por afinidade pessoal, não por estratégia. E a afinidade dele com Lula é mais real do que muita gente em Brasília percebe.
É difícil prever com precisão o que vai sair da reunião, mas pode ser que vejamos algo nessas linhas.
Primeiro, sinalizações vagas sobre cooperação em minerais críticos, sem números nem cronograma. Talvez a criação de um grupo de trabalho bilateral, talvez a menção de uma agenda futura de conversas técnicas, talvez um parágrafo no comunicado conjunto reconhecendo a complementaridade entre as economias. É o tipo de redação que serve de fachada para ambos os lados sem comprometer ninguém. Lula evita o desgaste de ceder soberania mineral em ano eleitoral, e Trump preserva o canal aberto para retomar a negociação adiante, com mais alavancagem.
Segundo, alguma forma de cooperação em PCC e Comando Vermelho que evite a designação como organizações terroristas estrangeiras. Lula precisa disso desesperadamente porque a designação criaria efeitos secundários devastadores em compliance bancário brasileiro. Trump pode oferecer adiamento da decisão em troca de cooperação operacional, e Lula vai aceitar, mesmo sabendo que parte da esquerda do PT vai gritar.
Terceiro, e mais importante: um silêncio elegante sobre Venezuela. Lula não pode endossar a ofensiva americana, e Trump não pode aceitar que Brasil continue oferecendo cobertura diplomática a Maduro. A solução vai ser não falar do assunto. Comunicado conjunto sem uma vírgula sobre Caracas. Para quem entende como o Itamaraty trabalha, esse silêncio será o sinal mais alto que o encontro pode emitir.
O Brasil chega à mesa de Washington com uma carta excepcional, o monopólio de nióbio, a segunda reserva de terras raras, o terceiro lugar em níquel. E vai sair de lá com o quê? Possivelmente com uma declaração de princípios sobre cooperação em minerais críticos, sem cronograma, sem números, sem cláusulas vinculantes. Talvez com a remoção de algumas barreiras tarifárias que ainda persistem em produtos brasileiros. Possivelmente com uma promessa americana de não avançar com a designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras, em troca de cooperação operacional ampliada.
Nada disso é desprezível, e nada disso captura o tamanho da carta brasileira. Você só recebe valor proporcional ao seu poder de negociar com prazo. O Brasil tem o produto, mas não tem a indústria que dá ao produto seu valor. Trump tem a indústria, mas só vai compartilhar nos termos dele.
A história longa dessa reunião, daqui a dez anos, vai ser lida como o momento em que o Brasil começou a testar, em condições reais, o que significa ter recursos sem ter cadeia produtiva. O encontro é, antes de mais nada, um diagnóstico. Vai mostrar quanto da pauta brasileira sobre processamento doméstico se sustenta na mesa quando o interlocutor é Washington, e não os fóruns mais simpáticos do Sul Global.
Os indicadores a observar nas 48 horas seguintes são três. O texto exato do comunicado conjunto, com atenção especial à presença ou ausência das palavras “processamento”, “industrialização” e “transferência tecnológica”. A reação dos governadores estaduais com reservas minerais relevantes, em particular Goiás, Minas Gerais e Pará, que vão ler o documento procurando margem para suas próprias negociações bilaterais. E o tom da cobertura chinesa, que vai indicar se Pequim considera o resultado uma ameaça ao seu acesso preferencial a nióbio e terras raras brasileiras.
O resto é teatro político. A substância está nessas três variáveis.