A participação do dólar nas reservas globais caiu de 73% em 2001 para algo em torno de 54% em 2025. É uma queda lenta, estrutural, que não aparece nas manchetes do dia a dia mas que os bancos centrais acompanham com atenção crescente. O euro ficou em segundo lugar com cerca de 20%. O yuan mal passa de 2%. Não há alternativa pronta. Mas o movimento está em curso.
O que acelerou tudo foi uma decisão tomada em fevereiro de 2022
Quando os Estados Unidos e seus aliados congelaram cerca de US$ 300 bilhões em reservas do banco central russo como punição pela invasão da Ucrânia, algo mudou no cálculo de risco de dezenas de países ao redor do mundo. A mensagem não foi sutil: o dólar não é apenas uma moeda. É um instrumento de política externa. E qualquer país que acumule reservas em dólar está, em alguma medida, aceitando que Washington mantenha as chaves do cofre em suas mãos.
Isso não é novidade para os adversários dos EUA. É novidade para quem achava que havia aí uma dose alta de neutralidade.
O próprio Vladimir Putin sintetizou o argumento na cúpula do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) em 2024, ao afirmar que os Estados Unidos “weaponizaram” (armaram) o dólar. O termo pegou porque descreve algo real: a transformação de uma infraestrutura financeira supostamente neutra num instrumento de coerção geopolítica. E quando países como Índia, Brasil, Emirados Árabes e África do Sul ouviram isso, não necessariamente concordaram com Putin, mas tampouco conseguiram refutar o argumento com facilidade.
Daí nasceu o que se convencionou chamar de desdolarização
Que não é, é importante dizer, o fim do dólar.
É a construção de um plano B.
A China já liquida cerca de metade do seu comércio exterior em yuan. O sistema China Interbank Payment System (CIPS), equivalente chinês ao Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication (SWIFT), processa volumes crescentes de transações diárias. O mBridge, plataforma multilateral de pagamentos digitais em desenvolvimento com participação de China, Emirados, Hong Kong e Tailândia, avança como alternativa concreta para transações sem passar pelo sistema americano. E os bancos centrais do mundo compram ouro em ritmo que não se via desde a década de 1960: mais de mil toneladas por ano nos últimos três anos consecutivos.
O Brasil está no meio de tudo isso de um jeito peculiar
O País presidiu o BRICS em 2025, foi anfitrião da cúpula que expandiu o bloco e aprovou a primeira declaração conjunta sobre governança global de Inteligência Artificial. O Pix é citado como modelo de infraestrutura de pagamentos digitais em discussões sobre plataformas de liquidação alternativas ao dólar. E o Banco de Desenvolvimento dos BRICS, com sede em Xangai, tem meta de realizar 30% de seus empréstimos em moedas locais dos países membros.
Ao mesmo tempo, o governo brasileiro foi rápido em esclarecer que não há planos para uma moeda BRICS e que o objetivo não é substituir o dólar. A formulação oficial é elegante: o Brasil não quer abandonar o dólar, quer garantir que, se o dólar for usado como arma, tenha alternativas à mão.
É uma posição que faz todo sentido estrategicamente. E que coloca o País numa corda bamba delicadíssima.
O presidente Trump já ameaçou impor tarifas de 100% sobre qualquer país que apoie a criação de alternativas ao dólar. A ameaça foi feita em campanha, mas o padrão da sua política comercial, com tarifas como instrumento de pressão direta, sugere que não era retórica vazia. O Brasil já foi alvo de tarifas americanas em 2025, motivadas por questões domésticas sem relação com câmbio. Imaginar que a participação ativa numa arquitetura financeira alternativa passaria despercebida em Washington seria ingênuo.
Por outro lado, não participar tem seus próprios custos. O Sul Global está se reorganizando. Países que ficarem de fora das novas infraestruturas de pagamento, das redes de swap (contrato derivativo para troca de fluxos de caixa) bilateral, dos mecanismos de liquidação em moeda local, podem descobrir, mais adiante, que o mapa foi redesenhado sem eles.
A boa notícia é que o Brasil tem algo que a maioria dos países nessa conversa não tem: credibilidade dos dois lados. Não é adversário declarado dos EUA. Não é satélite de Pequim. Tem uma economia real, uma moeda com alguma estabilidade e uma presença diplomática que lhe permite sentar em mesas diferentes sem ser expulso de nenhuma.
A má notícia é que essa posição de equilíbrio tem prazo de validade. À medida que o sistema financeiro global se fragmenta em blocos mais definidos, ficar no meio fica mais caro. As pressões para escolher lado vão aumentar, e o Brasil precisará de uma estratégia clara sobre onde quer estar quando o baralho for redistribuído.
O dólar não vai acabar. A libra esterlina também não acabou quando perdeu o status de moeda de reserva global, após a Segunda Guerra Mundial. Ela continua existindo, sendo usada, tendo valor. Só que o mundo parou de orbitar em torno dela. O que está sendo construído agora, silenciosamente, em acordos bilaterais, plataformas digitais e reuniões de cúpula pouco cobertas pela imprensa ocidental, é o sistema que vai decidir em torno de que o mundo vai orbitar nas próximas décadas. E o Brasil ainda pode influenciar esse desenho. Mas só enquanto o desenho ainda não está pronto.