Desde o retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, os analistas de câmbio têm tido ainda mais dificuldade de prever os próximos eventos do mercado e seus respectivos efeitos na economia doméstica. A instabilidade se deve à agenda política e econômica da Casa Branca, que fragilizou a percepção do papel do dólar como porto seguro e alterou parte do fluxo de capital que, agora, se volta para mercados emergentes, sobretudo o Brasil.
Esse movimento trouxe reflexos imediatos para o mercado doméstico. Desde abril, o dólar opera nos menores níveis desde o primeiro trimestre de 2024. A realidade fez com que algumas casas revisassem suas projeções para a moeda em 2026. A XP, por exemplo, reduziu as suas estimativas para a taxa de câmbio de R$ 5,30 para R$ 5.
Segundo a corretora, o Brasil se mantém em uma posição de “vencedor relativo” do choque global de energia, de forma semelhante ao observado durante a elevação das tarifas comerciais no ano passado. Ao mesmo tempo, o Banco Central (BC) já demonstrou preocupação com os efeitos da guerra no Oriente Médio sobre a economia brasileira e as expectativas “desancoradas” para a inflação, conforme a ata da última reunião do Copom.
Esse cenário contribui para a manutenção dos juros em patamar elevado por mais tempo e sustenta a atratividade do mercado brasileiro para operações de carry trade, estratégia que busca lucro na diferença na taxa de juros de dois países.
“O BC enfrenta não apenas um relevante choque externo de energia, mas também um choque doméstico positivo de demanda, impulsionado por medidas fiscais e parafiscais. A atividade econômica e a inflação vêm ganhando tração desde o início do ano, pressionando para cima as expectativas de inflação de 2026, 2027 e 2028, que se afastam cada vez mais da meta”, destacou a corretora em relatório.
O BTG Pactual e o Banco do Brasil (BBAS3) seguem na mesma direção. O BB reduziu sua projeção para o dólar de R$ 5,20 para R$ 5 ao fim de 2026, enquanto o BTG cortou a estimativa de R$ 5,20 para R$ 4,90. Os bancos também destacam a posição favorável do Brasil ao choque energético, impulsionado pela disparada do petróleo no mercado internacional, e seus efeitos para a balança comercial.
O BTG, por exemplo, estima um superávit comercial (quando o volume de exportações supera o volume de importação) de US$ 90 bilhões em 2026, com viés de alta. “O fluxo cambial voltou a acelerar em abril, com entrada de US$ 9,3 bilhões, melhor resultado para o mês desde 2018″, informou.
Veja as projeções do mercado para o dólar em 2026
| Banco, corretoras e casas de análise |
Projeção do dólar para 2026
|
| XP |
R$ 5 |
| BTG Pactual |
R$ 4,90 |
| Banco do Brasil |
R$ 5 |
| Santander |
R$ 5,40 |
| Nomad |
R$ 5,40 |
| C6 Bank |
|
| EQI Investimentos |
R$ 5,20 |
Risco político impede consenso sobre o dólar
Algumas casas, porém, ainda veem espaço para o dólar voltar a subir. O Santander, por exemplo, reduziu sua projeção de R$ 5,60 para R$ 5,40, mas ainda trabalha com uma projeção de alta de 7,4% até dezembro, com base na cotação de quinta-feira (21).
A EQI, por sua vez, mantém uma estimativa mais baixa, de R$ 5,20. Embora esteja acima da cotação atual, a corretora explica que a precificação inclui margem para o stress adicional de fim de ano, diante das saídas de capital que costumam ocorrer no último trimestre e da volatilidade do período eleitoral.
Segundo Alexandre Viotto, chefe de banking da EQI Investimentos, o envolvimento do senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), no caso Master trouxe um risco adicional e antecipou os ruídos eleitorais. No pregão, quando os áudios da conversa entre o senador e o banqueiro foram divulgados, o dólar disparou 2,3%.
A alta refletiu dúvidas sobre a candidatura de Flávio, hoje um dos principais nomes da oposição para a disputa presidencial deste ano. Em paralelo, o governo federal anunciou em abril os setores econômicos que terão prioridade no acesso ao crédito de R$ 15 bilhões para mitigar os efeitos da guerra no Oriente Médio e das tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos.”Ou seja, a eleição, ao que parece, começou de vez”, diz Viotto.
Já Claudia Moreno, economista do C6 Bank, ressalta que os fatores que resultaram na apreciação do real, até o momento, tendem a ser temporários e o risco fiscal deve voltar à tona nos próximos meses. A instituição financeira ainda está revisando suas projeções de dólar, mas acredita que o câmbio deve encerrar até R$ 5,50 em 2026 e dificilmente ficar abaixo dos R$ 5. “Os investidores não estão olhando para o problema fiscal do Brasil e nós temos uma dívida bastante elevada, sem perspectiva de estabilização”, pontuou.
A saída de capital estrangeiro também pode reverter esse quadro. Até abril, investidores externos haviam aportado cerca de R$ 57 bilhões na Bolsa brasileira em 2026. Em maio, o fluxo mudou: houve saída líquida de R$ 9,8 bilhões, segundo dados mais recentes da B3. Por esse motivo, a Nomad decidiu elevar a projeção do dólar para o fim de ano, de R$ 5,20 para R$ 5,40. “Incertezas geradas principalmente pelo processo eleitoral no Brasil têm potencial de enfraquecer os fluxos internacionais de recursos para o País, pressionando a taxa de câmbio”, avalia Danilo Igliori, economista-chefe da casa.