Para a gestora, a produção sul-coreana de 2019 vai além da desigualdade social e ajuda a explicar a ilusão de ascensão econômica em um ambiente em que a estrutura não acompanha a aparência de progresso. “É essa a chave que usamos para pensar o consumidor brasileiro”, afirma.
A gestora pontua que, entre 2003 e 2013, o Brasil viveu seu momento mais forte de expansão do consumo de massa desde a estabilização monetária, impulsionado por fatores como a alta das commodities, a melhora dos termos de troca (quando os preços dos produtos que um país exporta sobem mais do que os preços dos produtos importados), o avanço do salário mínimo e a expansão do crédito.
No período, a Kinea observa que o País consumiu mais, sem que a base produtiva crescesse no mesmo ritmo. “Passamos, como consequência, a importar e depender mais da oferta externa para saciar esse consumo”, conclui.
A reversão de 2014 a 2016 foi o momento em que a “fantasia encontrou a realidade”, nas palavras da gestora. Com a queda nos termos de troca, os problemas domésticos se tornaram mais evidentes, como a crise fiscal, que se acentuou com a desconfiança dos investidores. Anos depois, a pandemia de Covid-19 atingiu uma economia que ainda não havia reconstruído sua base.
Na avaliação da Kinea, o resultado foi uma década perdida em termos de renda per capita, o que fez com que o padrão de vida do brasileiro passasse a ser defendido com outro instrumento: o crédito.
Dados mais recentes do Banco Central mostram que o endividamento das famílias brasileiras com o sistema financeiro atingiu 49,9% em fevereiro, ante 49,8% em janeiro. O resultado se igualou ao então pico histórico da série, que havia sido alcançado em julho de 2022 (49,9%). O comprometimento de renda das famílias com o Sistema Financeiro Nacional (SFN), por sua vez, subiu de 29,5% em janeiro para 29,7% em fevereiro.
Em ciclos anteriores, a Kinea pontua que a melhora do emprego e o avanço real dos salários tendiam a aliviar a situação financeira das famílias. Hoje isso não basta. “O padrão de vida que se consolidou no imaginário da classe média brasileira tornou-se, para uma fatia crescente da população, muito mais difícil de sustentar”, destaca.
Os efeitos para a carteira da gestora
Segundo a gestora, esse diagnóstico tem implicações diretas para o portfólio dos investidores. A primeira é que o desconto estrutural do mercado brasileiro não pode ser lido apenas como “acidente de humor” ou “oportunidade automática de reprecificação”. “Parte relevante desse desconto reflete crescimento fraco, produtividade baixa, custo de capital elevado, volatilidade política e um consumidor estruturalmente pressionado”, diz.
A segunda consequência se reflete em escolhas setoriais. Em um ambiente em que o consumo discricionário (de produtos e serviços não essenciais) da classe média segue comprimido, a Kinea prefere negócios com fluxos longos, demanda mais estável, receitas corrigidas pela inflação e menor dependência da renda disponível do consumidor médio. Entre os segmentos de preferência, estão os de saneamento e concessões, além dos de transmissão e distribuição de energia.
Por outro lado, merecem cautela maior os setores excessivamente dependentes de uma normalização do consumo discricionário das famílias. “O consumidor brasileiro endividado não é tema de um trimestre. É um regime. E regimes, mais do que manchetes, são o que moldam portfólios”, avalia a casa.
Segundo a Kinea, sem uma agenda focada em produtividade, educação, investimento e disciplina fiscal no País, os brasileiros seguirão tentando sustentar um padrão de vida mais alto do que o crescimento estrutural consegue entregar. Para investidores, o cenário favorece estratégias mais defensivas, com foco em empresas resilientes, em vez de uma aposta na retomada ampla do ciclo de consumo.