Diversificação no crédito privado vai além do número de debêntures, alerta XP (Foto: Adobe Stock)
Reunir dezenas de debênturesna carteira não significa, necessariamente, se proteger contra calotes. A XP Investimentos afirma que muitos investidores confundem quantidade de ativos com diversificaçãoreal e acabam excessivamente expostos sem perceber. A instituição argumenta que, no crédito privado, o fator decisivo não é o número de emissores, mas como o risco está distribuído entre empresas, setores e indexadores.
A diversificação em crédito privado pode ser menos eficiente do que aparenta. “Uma carteira de crédito pode parecer diversificada sem de fato ser” e alerta a XP. Segundo a casa, muitos investidores confundem quantidade de ativos com dispersão efetiva de risco. “Contar nomes não equivale a diversificar risco”, afirma o relatório. Na prática, uma carteira pode reunir dezenas de emissores e, ainda assim, concentrar grande parte do patrimônio em um único setor econômico, elevando a exposição a choques específicos.
O estudo analisa justamente quais seriam as camadas necessárias para transformar um eventual calote “em um evento administrável, e não em uma perda relevante de patrimônio“. A XP destaca que o mercado brasileiro de crédito privado cresceu rapidamente nos últimos anos, ampliando o acesso do investidor pessoa física a debêntures e outros papéis. Ao mesmo tempo, episódios recentes de deterioração de crédito em empresas consideradas de boa qualidade recolocaram o debate sobre concentração no centro das discussões.
O relatório lembra que o mercado costuma trabalhar com um limite entre 3% e 5% por emissor, referência presente em regulamentos de muitos fundos. Ainda assim, a casa pondera que não existe “número mágico” para garantir segurança.
“O crédito é um jogo assimétrico: o ganho é limitado, mas a perda, quando o emissor quebra, pode ser severa”, afirma a XP.
Por isso, segundo a instituição, a diversificação não serve para aumentar ganhos, mas para limitar danos. A análise foi baseada em debêntures indexadas ao Certificado de Depósito Interbancário (CDI) entre 2016 e 2025. A XP explica que escolheu esse universo porque, nos papéis pós-fixados, a marcação a mercado reflete de forma mais limpa o risco de crédito, sem a interferência mais intensa das oscilações de juros reais presentes nos títulos IPCA+ (atrelados ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo).
As dicas da XP para evitar perdas
O relatório também argumenta que a diversificação começa antes mesmo da escolha de emissores. A primeira camada vem da divisão entre classes de ativos e indexadores. “Uma carteira inteira em IPCA+ longo é, antes de mais nada, uma aposta na trajetória do juro real“, afirma a casa. Assim, combinar CDI, IPCA+ e prefixados funcionaria como a primeira linha de defesa contra riscos de mercado.
Na segunda camada aparece a discussão sobre quantidade de emissores. Segundo o estudo, o benefício de adicionar nomes à carteira cresce rapidamente no início, mas perde eficiência depois. A XP calcula que o chamado “joelho da curva” – ponto em que novos emissores passam a trazer ganhos marginais de diversificação – fica entre aproximadamente 12 e 19 nomes.
Mesmo assim, a instituição alerta que perseguir um número elevado de ativos pode gerar outro problema: a dificuldade de monitoramento. “Cada emissor adicional significa uma escritura a ler, um resultado trimestral a monitorar, uma marcação a observar”, diz o relatório. Para a XP, acompanhar entre 15 e 20 emissores com profundidade já seria uma tarefa complexa para investidores individuais.
A recomendação de limitar o peso de cada emissor ganha ainda mais importância diante das perdas observadas em eventos recentes de crédito. A XP calculou que o chamado LGD (loss given default, um indicador que mede a porcentagem de uma dívida que a instituição credora não consegue recuperar após o cliente não realizar o pagamento e entrar em calote), ficou entre 70% e 95% nos principais casos analisados.
Com base nos últimos episódios de defaut, a XP conclui que, considerando um LGD entre 75% e 80% e uma tolerância de perda de 3% do patrimônio em um evento isolado, o peso máximo por emissor deveria ficar entre 3,75% e 4% da carteira.
O risco da concentração setorial
Além do limite individual, o relatório da corretora chama atenção para o risco de concentração setorial. Segundo a XP, emissores de um mesmo segmento tendem a compartilhar riscos regulatórios, operacionais e macroeconômicos. Assim, uma carteira pode obedecer ao limite por nome e, ainda assim, continuar excessivamente exposta a um único setor. “Nomes de um mesmo setor não são apostas independentes”, afirma o documento.
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A instituição observou que a correlação entre emissores varia significativamente de um segmento para outro, havendo setores em que os ativos “andam quase em bloco”. O estudo lembra ainda que o ciclo recente de juros elevados provocou aumento expressivo dos pedidos de recuperação judicial no Brasil em 2025, especialmente no agronegócio. Apesar disso, a XP ressalta que os dados não podem ser interpretados diretamente como inadimplência do mercado de debêntures, já que incluem empresas pequenas e de capital fechado.
Mesmo assim, o ambiente reforça a visão da instituição de que a inadimplência faz parte do mercado de crédito. “Quem empresta dinheiro, em algum momento, especialmente no longo prazo, perde com algum tomador”, afirma o relatório.
Ao fim do estudo, a XP resume a estratégia de proteção em três níveis: