Continuamos a acompanhar coletas de preços diárias (mais de uma!) e o País é referência global na especialização de projeções de curto prazo para os índices de preços. De fato, o índice oficial de inflação – o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) – é divulgado a cada 15 dias.
Ainda existem pelos menos dois outros índices de preços formulados por fundações privadas com significativa visibilidade – o Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M) e o Índice de Preços ao Consumidor do município de São Paulo, calculado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (IPC-Fipe). São sinais que houve muitos avanços, mas que ainda existe algum trabalho a ser feito nesse campo.
É bastante aceito e pacificado internacionalmente que a inflação prejudica o funcionamento de uma economia e que, em geral, é um reflexo de desequilíbrios importantes [1]. A inflação corrói o poder de compra, reduz os salários reais, atinge mais os grupos de menor renda, prejudica desproporcionalmente ocupados em empregos informais, distorce o orçamento público, dificulta o planejamento das empresas, confunde os consumidores e há muitos outros efeitos.
Apesar da estabilização, nos últimos 30 anos a inflação acumulada no Brasil foi de mais de 600%. Traduzindo de forma mais palpável, para obter o mesmo poder de compra de R$ 100 de janeiro de 1995, seriam necessários hoje cerca de R$ 730.
Com base no diagnóstico que a inflação brasileira permanecia ainda relativamente elevada e superior a de outros países, houve mudanças no sistema de metas de inflação nos últimos anos. Em 2015 houve redução do intervalo de tolerância, que caiu de 2,0 ponto porcentual (pp) para 1,5 pp (com a meta em 4,5%). Dois anos depois, foi iniciado um processo de redução gradual da meta ao passo de 0,25 pp por ano. Passamos de 4,5% de objetivo em 2018 para 3,0% em 2024.
A transição, contudo, ocorreu em meio à pandemia, o que dificulta uma análise sobre esse período. Seguindo o exemplo anterior, podemos notar a diferença entre ter uma inflação de 3,0% e ter o teto da meta anterior (6,5%): para ter o mesmo poder de compra de R$ 100 depois de 10 anos, no primeiro caso seriam necessários R$ 135, enquanto no segundo, R$ 190.
Indexação dos salários na economia
Uma característica marcante ainda presente na economia brasileira associada à inflação é a indexação de preços e salários. O que nasceu como uma solução para conviver com a inflação na década de 70, foi se sofisticando e, desde 1994, gradualmente sendo revertida. Contudo, ainda segue presente.
Participei de diversas discussões sobre mudanças ou desmonte desses mecanismos de indexação. Houve avanços relevantes também nessa dimensão, com o fim de contratos públicos indexados ao IGP-M, maior racionalidade nos critérios de reajustes e a disseminação de práticas mais “saudáveis” de vincular contratos de aluguel preferencialmente ao IPCA.
Houve alguma redução da indexação da economia e aprimoramentos, mas a indexação permanece disseminada. O maior exemplo é que toda negociação salarial parte do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) como base para o reajuste anual – esse é outro índice de inflação, parecido com o IPCA e igualmente calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Alguns argumentam que sem resolver o problema da indexação remanescente será inviável alcançar a nova meta de inflação (alguns anos atrás esse argumento era também utilizado para defender que o teto da meta, de 6,5%, seria inevitável). Entendo de outra forma.
A indexação é um mecanismo de proteção. Sem que haja um período prolongado de cumprimento das metas, dificilmente esses mecanismos serão abandonados. Seria possível promover mudanças regulatórias para facilitar o “desmonte” da economia indexada? Talvez seja possível, mas certamente será mais viável discutir mudanças regulatórias em ambiente de inflação baixa do que com inflação elevada.
É interessante notar que os modelos de projeção de inflação utilizados pelo Banco Central (BC) capturam essa característica da economia. A importância da inflação passada é grande para a determinação da inflação presente nesses modelos. O processo de desinflação, assim, tende a ocorrer de forma gradual (a chamada inércia da inflação). Temos observado isso nos últimos trimestres.
A inflação acumulada em 12 meses atingiu um pico, nesse ciclo, de 5,5% em abril do ano passado. Na recente divulgação dos dados de janeiro de 2026, observamos uma inflação já bem mais baixa, de 4,4% — resultado ainda influenciado pelo Bônus de Itaipu, pago em janeiro de 2025, que distorce a base de comparação e que será devolvido na leitura de fevereiro. Com o desaparecimento desse efeito, a projeção é de que o IPCA recuará para 3,5% no próximo mês.
O que fez a inflação diminuir no Brasil?
Além do aperto da política monetária e da desaceleração da atividade, a apreciação do câmbio, o arrefecimento dos preços de alimentos e a queda das expectativas de inflação explicam a desinflação. A valorização da taxa de câmbio no período (cerca de 8% em relação à média do último trimestre de 2024) contribuiu para reduzir a inflação de bens. Apesar da recente elevação, os preços do petróleo também apresentaram certa redução no período.
Mais importante foi a queda de preços internacionais e domésticos produtos agrícolas que resultaram em inflação de alimentos historicamente bastante baixa (0,4% em 12 meses, contra acima de 8% no pico recente).
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Também podemos observar os núcleos de inflação em alta frequência para capturar a tendência da inflação. A média dos cinco núcleos acompanhados pelo Banco Central em três meses em termos dessazonalizados e anualizados chegou a quase 6% no primeiro trimestre do ano passado e tem permanecido ao redor de 3,7% nas últimas leituras.
O processo de desinflação permitiu ao Banco Central sinalizar o início da redução da Selic. Uma “calibragem” do grau de restrição da taxa de juros está a caminho. Os desafios mais estruturais da inflação ainda seguem presentes e passam, de certa forma, por uma agenda para completar o plano de estabilização de 1994. Mudanças institucionais podem ser pensadas, mas um passo essencial é a credibilidade das metas de inflação.
[1] Em minha tese de doutorado, “Ensaios sobre a meta de inflação ótima para o Brasil” (2011) realizo uma recapitulação das razões pelas quais a inflação alta é desfavorável. Também analiso diferentes modelos sobre qual deveria ser a meta de inflação e defendo porque deveria ser realizada uma redução da meta. Naturalmente, a análise precisa ser lida à luz do contexto de quase 15 anos atrás.