Os números ajudam a explicar essa estratégia. Mesmo com valor de mercado de R$ 3,37 bilhões, típico de uma small cap, o banco tem entregado um dividend yield difícil de encontrar entre os grandes: nos últimos cinco anos, a média foi de 11,83%, segundo o Investidor 10, sem nunca cair abaixo de 9%.
O novo vetor de crescimento do BMG está no crédito consignado privado. Ainda incipiente, o produto deve ganhar escala rapidamente e pode responder por entre 30% e 45% da originação total de crédito, segundo analistas.
A coluna Dividendo à Vista conversou com Flávio Pentagna Neto, vice-presidente executivo e diretor de Relações com Investidores do BMG. Como de praxe, trago minhas opiniões sinceras sobre a empresa
O erro de diversificar — e a correção de rota
No passado, o banco cometeu um erro: tentar expandir para áreas que não eram a sua expertise. Lançou um banco digital, abriu lojas físicas de crédito, entrou em adquirência e expandiu em seguros. Mas os resultados não foram muito satisfatórios.
Foi então quando o BMG decidiu voltar às raízes e focar no que realmente era bom: o crédito consignado, principalmente o INSS. Carlos Herrera, analista da Condor Insider, destaca o cartão de crédito consignado, que hoje é o coração da operação. “O desconto da parcela sai direto do benefício do INSS ou contracheque, antes mesmo de chegar ao cliente, diminuindo risco de inadimplência e proporcionando boas margens de lucro”, explica Herrera.
Mas desde 2025, o BMG enxergou oportunidade em um novo nicho, o crédito consignado privado. Embora com participação ainda modesta, a empresa espera liderar o crescimento da carteira de crédito nos próximos anos.
“É um negócio diferente do consignado público, tem suas particularidades, mas é um negócio que conseguimos navegar com bastante expertise e eficiência”, diz Neto.
O mercado de consignado privado ainda está muito incipiente e pode saltar até R$ 100 bilhões pelas projeções de Neto. Contudo, há melhorias necessárias. O vice-presidente executivo destaca, por exemplo, que quando um cliente muda de emprego, o processo para estruturar a operação com o novo empregado ainda é manual, mas a tendência é que isso vire automático.
Neto não descarta que no futuro o consignado privado consiga superar o consignado INSS em receita do banco.
Alavancas do ROE
O ROE (Retorno sobre Patrimônio Líquido) também teve um salto surpreendente e apresenta tendência de alta. Em 2025, o BMG fechou com ROE de 14,4% acima dos 10,7% de 2024 e os 5,2% de 2025. Só no 4ºTRI de 2025, o ROE do BMG chegou a 19%, mas foi puxado por um evento fiscal extraordinário.
Neto explicou à coluna que o ROE deve continuar em amplo crescimento, contudo de forma mais moderada do que nos últimos três anos, mas acima do custo de capital. “Um ROE em patamar mais alto facilita a geração de capital e permite que o BMG distribua mais dividendos”, comenta.
Na visão do executivo, existem duas alavancas que impulsionam esse ROE crescente. A primeira é a possibilidade de fazer recapitalização, um movimento pelo qual o BMG emite novas ações no mercado com o objetivo de arrecadar dinheiro e fortalecer o caixa da empresa.
E a segunda é o fato de o consignado INSS ser um ativo de alta liquidez, de forma que quando há excesso na carteira o banco vende parte da carteira a terceiros, com ganhos que ajudam a desalavancar a operação. “A nossa capacidade de originar créditos é muito maior do que a que o BMG tem no balanço para carregar esses ativos do consignado INSS”, destaca.
Na visão de Neto, o próximo grande salto do ROE virá da substituição de ativos menos rentáveis por mais lucrativos. Isso significa melhor eficiência, graças a esses ativos rentáveis que diminuem o custo.
Outros fatores de crescimento viriam do reaproveitamento de mais créditos tributários e a diminuição de ações cíveis contra o banco, um dos calcanhares de aquiles do BMG.
Impactos na rentabilidade
Outro fator que tem contribuído com a rentabilidade do BMG é a capacidade de o banco lidar melhor com processos cíveis, que oneram bastante a operação. O BMG já provisiona esses recursos quando uma ação é protocolada, mesmo sem saber se haverá ganho ou perda do processo no futuro.
Neto explica que nos últimos três anos o banco passou a utilizar vídeos na contratação, além do processo normal do cliente tirar selfie e enviar documentos para validação do contrato. “Agora fazemos uma videoconferência com o cliente, e explicamos detalhadamente os produtos que está contratando”, comenta.
Neto aponta que o volume de ações cíveis ainda não despencou, mas o BMG ganha 98% dos processos, o que favorece a rentabilidade futura, já que os recursos provisionados são revertidos para o caixa do banco nos próximos trimestres.
“Acreditamos que em algum momento essa indústria de processos vai ser desestimulada uma vez que não consegue ter êxito contra o BMG”, afirma. Segundo Neto, existe uma indústria de milhares de advogados que prospectam clientes para entrar com essas ações.
Dividendos e JCP
Passando para a parte favorita da jacarezada, Neto comentou que o BMG tem como política pagar dividendos trimestrais, com um payout (parcela do lucro destinada a proventos) de 25%, contudo o banco tem distribuído nos últimos anos 50% e tudo indica que mantenha esse patamar em 2026 e 2027.
Uma das estratégias preferidas do BMG é a maximização de juros sobre capital próprio (JCP), sendo o instrumento mais utilizado pelo banco para reduzir a alíquota tributária.
Segundo Neto, a intenção do BMG é continuar usando o máximo possível de JCP que as regras permitirem. Embora não descarte que um dia o banco distribua menos proventos para financiar crescimento, no curto prazo não enxerga essa necessidade, dada a possibilidade de captar recursos rapidamente com recapitalização e venda de ativos do consignado INSS.
“Na nossa visão, o dinheiro na mão do acionista tem mais valor do que na empresa. Não pretendemos mudar nossa estratégia de maximizar o uso de JCP no curto e médio prazo”, destaca.
Em relação ao dividend yield do BMG, que é mais alto do que outros bancos da Bolsa, Neto acredita que tenha a ver com o desconto das ações e descarta ser algo intencional da companhia. Segundo ele, após a abertura de capital, o banco começou a ter baixos resultados, o que afastou investidores pessoa física e principalmente institucionais e pressionou o preço dos papéis BMGB4.
Mas, com o consignado privado, o BMG voltou a ficar nos holofotes do mercado – segundo Neto, apesar de ter avançado 60,57% nos últimos 12 meses, ainda está aquém do potencial da ação.
“Há dois anos a ação custava R$ 1,98 e agora está acima de R$ 5. Ainda há muito potencial, mas já começou a reagir”, diz.
Além disso, é importante lembrar que o mercado endereçável do banco, que era de 40 a 50 milhões de clientes, pode chegar a 100 milhões diante da entrega no consignado privado e produtos além do crédito, fundamentos que também devem beneficiar as ações.
Maga sincera
O BMG é realmente um banco fora do radar, mas parece muito atrativo para quem busca dividendos, desde que o investidor conheça bem o modelo da empresa.
Atuando em um segmento bastante nichado, como o consignado público e privado, está passando por uma reestruturação positiva que deve consolidar seus fundamentos nos próximos anos.
Enquanto muitos lamentam uma bolsa cara, o BMG ainda é claramente uma pechincha. Vale a pena dar a chance mas observar pacientemente. Para quem curte ter bancos na carteira, uma pimentinha destas deixa a jornada de renda passiva mais interessante.
Ficaremos atentos aos próximos desdobramentos para ver se além de conquistar o coração dos aposentados 50+, o BMG consegue cativar o coração da jacarezada.