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Comportamento

O que os empreendedores de hoje podem aprender com as crises passadas

Veja alguns exemplos que demonstram que é possível, sim, inovar em meio a um momento difícil

Por E-Investidor

25/09/2020 | 18:36 Atualização: 08/12/2023 | 17:35

A Bolsa de Nova York no pregão de 1º de janeiro de 1930, no auge do crash de 1929, que deu origem à Grande Depressão.(Stringer/ AFP)
A Bolsa de Nova York no pregão de 1º de janeiro de 1930, no auge do crash de 1929, que deu origem à Grande Depressão.(Stringer/ AFP)

(Murilo Basso, Especial para o E-Investidor) – O dia 24 de outubro de 1929 entrou para a história como “Quinta-feira Negra”. Foi nessa data que ocorreu o crash da Bolsa de Valores de Nova York, que desencadeou a crise econômica mais devastadora dos Estados Unidos até então.

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Por 12 anos os norte-americanos viveram a chamada Grande Depressão, que teve reflexos em todos os países industrializados dos Ocidente, inclusive o Brasil. Os EUA eram os maiores compradores do café brasileiro, o que fez a exportação e o preço do produto caírem, resultando no fatídico episódio da queima de toneladas de café pelo governo nacional.

Mesmo assim, o período foi marcado por importantes inovações, inclusive algumas que geram reflexos até hoje. No início dos anos 1930, a então quase centenária Procter & Gamble (P&G), multinacional conhecida principalmente por seus produtos de higiene, verificou uma redução drástica nos pedidos de seus produtos. Ao mesmo tempo, deu-se conta que a população não deixaria de comprar sabonetes, de qualquer marca que fossem, por se tratar de um item essencial do dia a dia.

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A solução encontrada foi uma verdadeira jogada de marketing: investir em dramas radiofônicos voltados, principalmente, a donas de casa. Em 1933 estreou “Ma Perkins”, a primeira soap opera patrocinada pela P&G. Com a chegada da televisão, na década de 1950, a P&G passou a patrocinar telenovelas, produto cultural existente até hoje, que rende milhões em publicidade.

Foi também em meio à Grande Depressão que foi lançado um produto presente até hoje em lares de todo o mundo: o jogo de tabuleiro Monopoly, conhecido no Brasil como Banco Imobiliário.

O conceito do jogo foi desenvolvido por Charles Darrow, que à época da Grande Depressão era um vendedor que, como milhões de outros americanos, estava com dificuldade para conseguir trabalho e sustentar sua família.

Um certo dia ele teve contato com um jogo de tabuleiro chamado de The Landlord’s Game (O Jogo do Senhorio, em português), criado três décadas antes por Elizabeth J. Magie Phillips, mas que não chegou nem perto de fazer o sucesso do Monopoly. Darrow promoveu modificações no jogo e após tentativas frustradas de vendê-lo a empresas maiores, começou a produzir o jogo à mão.

  • Leia também: 5 lições de jogos clássicos sobre empreendedorismo

O Monopoly fez sucesso porque, além de ser uma diversão barata em uma época na qual as famílias não podiam gastar muito com atividades de lazer, mexia com o imaginário popular sobre dinheiro e posses. Até hoje é o jogo mais vendido do mundo.

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Outra empresa que viu uma oportunidade de faturar durante a crise de 1929 foi a dos irmãos Walt e Roy Disney, que perceberam que desenhos animados tinham o poder de levar alegria às pessoas em meio a um momento tão sombrio.

Não é exagero dizer que os desenhos de Mickey Mouse guiaram os norte-americanos em meio à Grande Depressão e deram conta de manter o negócio dos irmãos Disney  funcionando. Em 1937, a companhia lançou seu primeiro longa-metragem, “Branca de Neve e os Sete Anões”, financiado pelo Bank of America, que foi um enorme sucesso de bilheteria.

Inovando em meio à crise

No momento em que o mundo enfrenta uma de suas piores crises recentes, causada pela pandemia da covid-19, esses são alguns exemplos que demonstram que é possível, sim, inovar em meio a um momento difícil. Muitas vezes, aliás, um período de escassez se mostra o cenário ideal para a inovação.

“Nas crises, surgem várias oportunidades; só é preciso estar atento e preparado para identificar e aproveitar o momento. Os efeitos negativos da crise de 2008 nos Estados Unidos foram o terreno fértil para o nascimento de soluções como Uber, por exemplo”, diz Leonardo Jianoti, economista, investidor-anjo e cofundador da Platta Investimentos. “Estou convencido que no mundo dos negócios a capacidade de adaptação é uma variável fundamental para o sucesso. Perceber tendências e criar estratégias de adaptação e inovação se tornaram campos fundamentais da cultura empresarial, por isso as startups têm conseguido ganhos exponenciais.”

Ao mesmo tempo, Thiago Gringon, coordenador da pós-graduação em Criatividade e Ambiente Complexo da ESPM diz que é preciso tomar cuidado ao relacionar falta de recursos com inovação, já que sem recursos os negócios morrem. O que acontece muitas vezes, diz Gringon, é que crises evidenciam produtos, serviços e experiências que já existiam mas que, muitas vezes, não tinha a atenção da sociedade. Contextos de crise, portanto, exigem uma nova postura das empresas.

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“A escassez se torna um cenário estimulante para estratégias que propiciam o surgimento de novas ideias. As empresas devem assumir um novo posicionamento, flertando com diferentes paradigmas, formatos e fantasias. O Monopoly se tornou atrativo na época porque seu preço era mais atrativo em comparação a outras opções de lazer”, diz Gringon. “As pessoas buscam na fantasia uma oportunidade de ‘desligamento’ da crise, como uma válvula de escape em termos saúde mental. Precisamos acreditar que as coisas serão melhores.”

Nesse sentido, não é exagero dizer, então, que a escassez desafia os seres humanos e os obriga a restabelecer os padrões e até mesmo a aprimorá-los. Aqui, a chave é a transformação.

Inovações trazidas pelo coronavírus

Apesar de recente, a crise do novo coronavírus trouxe inovações e provocou transformações profundas na sociedade. Para os especialistas entrevistados, o momento atual está evidenciando bastante produtos e serviços ligados à comunicação e ao gerenciamento à distância. Ao mesmo tempo, não significa que eles permanecerão em destaque no pós-pandemia, pois o contexto será outro. A verdade é que as crises trazem problemas a ser resolvidos.

“Depois de tantas mudanças em nossa rotina, jamais voltaremos ao normal. O retrocesso a modelos antigos pode sair mais caro do que assumir o trabalho remoto e a reestruturação de hierarquias, por exemplo. Se eu pudesse apontar um caminho mais ‘rentável’ aqui, seria o investimento de criações e inovações que favorecem a capacidade das pessoas de reorganizar suas rotinas. Principalmente, criações e inovações que permitissem mais tempo para si mesmas, pois o trabalho remoto não é inovador, mas propicia o espaço físico e mental para que inovações surjam. Hoje, precisamos de mais pessoas pensando em coisas novas do mais coisas novas para pessoas”, pontua Gringon.

Gerente de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), Sílvio Bitencourt afirma que a epidemia de Covid-19 trouxe dois tipos fundamentais de inovação.

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“De um lado, temos aquelas associadas às ações de enfrentamento do novo coronavírus, relacionadas ao contexto sanitário. Elas envolvem a busca global por uma vacina, a melhoria das condições ofertadas pelos serviços de saúde e soluções de combate ao avanço da pandemia. Por outro, as empresas têm buscado remodelar seus negócios quanto aos seus processos, canais e maneiras de se relacionar com seus clientes, especialmente por meio da adoção de estratégias de transformação digital”, diz.

O que também se verificou foi a aceleração de um conjunto de transformações que já vinham acontecendo em ritmos variados, mas que ganharam caráter de urgência em um prazo muito curto. O “novo normal” talvez não seja mais do que um atalho no tempo para a adoção de novas práticas e tecnologias.

Consciência para inovar

Ao mesmo tempo em que a crise possa se mostrar um cenário propício para novas oportunidades, é preciso que ter consciência para investir e não colocar “todos os ovos numa única cesta”. Em termos de negócios, ter prudência é fundamental, mas nos momentos de incerteza ela é ainda mais necessária.

“Temos que ter consciência de que nossas ações acontecerão num mundo complexo e afetarão não só o nosso público alvo, mas outras pessoas. A responsabilidade não está somente sobre a melhor maneira de gerir recursos, mas, principalmente, sobre o impacto do nosso trabalho na sociedade. Hoje, as inovações relevantes não são aquelas que serão úteis daqui a alguns anos, mas aquelas que as pessoas precisam daqui a um mês, uma semana, daqui a pouco”, afirma Thiago Gringon, da ESPM.

Na opinião de Leonardo Jianoti, da Platta Investimentos, as possibilidades dentro das companhias são, muitas vezes, infinitas. Segundo ele, há uma verdade econômica de que “os recursos são escassos e as necessidades são ilimitadas”. Por isso, é importante que haja priorização.

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“Acho válido sempre invocar o Princípio de Pareto nessas questões: 80% dos resultados virão de 20% das ações. Dentro do portfólio de possibilidades, quais delas são capazes de entregar os resultados com menor esforço possível? Pensemos sempre na acupuntura, que estrategicamente posiciona suas agulhas para produzir efeitos sistêmicos. Cada movimento de criação, reinvenção e adaptação precisa ser ágil e consciente, acompanhado de indicadores de performance e efetividade. Também não se deve permitir que o medo de errar trave as iniciativas. A maioria das iniciativas não terão o sucesso esperado, mas aquela que for bem sucedida será capaz de encontrar uma nova rota de geração de valor para a companhia”, aponta o economista.

Lições das crises

Todas as crises já vivenciadas pela humanidade deixaram importantes lições – com a do coronavírus não será diferente. Para Sílvio Bitencourt, da Unisinos, há três pontos principais que devem ser observados em relação ao momento atual: colaboração, o papel das inovações e o pós-pandemia.

“Diante de problemas complexos, a colaboração possibilita a obtenção de respostas mais ágeis e assertivas. Nessa direção, a humanidade dependerá cada vez mais de suas lideranças e da sua capacidade de coordenação de esforços locais, regionais, nacionais e globais. Já as inovações devem se voltar à melhoria da qualidade de vida das pessoas quanto às desigualdades sociais explicitadas diante da crise da covid-19 e que tornam a sua resolução ainda mais difícil”, explica o especialista.

Já o terceiro ponto está ligado ao período pós-pandemia. Promover o desenvolvimento de inovações e o suporte às empresas, especialmente as micro e pequenas, vai possibilitar a sobrevivência delas, a retomada das atividades e o crescimento da economia. Também será necessária maior atenção em relação à prevenção de novas pandemias, o que passa pela mediação de causas potenciais já conhecidas, como as mudanças climáticas e a perda da biodiversidade.

 

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