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Comportamento

8 lições do seriado “Succession” para empresas reais

A série da HBO saiu com sete estatuetas na última edição do Emmy Awards

Por E-Investidor

04/12/2020 | 19:36 Atualização: 04/12/2020 | 19:44

Elenco de Succession, seriado da HBO (Foto: Jesse Dittmar/The New York Times)
Elenco de Succession, seriado da HBO (Foto: Jesse Dittmar/The New York Times)

(Murilo Basso, Especial para o E-Investidor) – Na última edição do Primetime Emmy Awards, a série “Succession” saiu como nada menos que sete estatuetas. Trata-se de um drama satírico cuja terceira temporada deve começar a ser rodada ainda no fim de 2020, adiada devido à pandemia do novo coronavírus.

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Em cena, o telespectador acompanha a saga da disfuncional família Roy, à frente de um dos maiores conglomerados de mídia dos Estados Unidos, o fictício Waystar Royco, tudo em meio às incertezas sobre a condição de saúde do patriarca Logan.

O dramalhão tem o selo de qualidade HBO e envolve o público do início ao fim. Em tempos de covid-19, quando o streaming é um grande aliado para combater o tédio, o seriado é uma ótima pedida. Além disso, é capaz de passar uma série de lições sobre negócios, em especial negócios familiares, que empreendedores da vida real também podem aproveitar. Confira:

1. O momento de deixar a presidência

Na série, uma das principais dificuldades do protagonista e patriarca da família Roy, Logan, é deixar a presidência da empresa que ele fundou, por mais que ele já esteja com uma idade avançada e com a saúde frágil. Muitas vezes, em um negócio, é chegado o momento em que é preciso separar “criador da criatura”, por assim dizer. Além disso, não necessariamente o fundador da empresa vai ser a pessoa mais indicada para ocupar o cargo de CEO.

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A administradora Emanuelle Nava Smaniotto, docente da Escola de Gestão e Negócios da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), comenta que o fundador da empresa costuma ser uma pessoa muito apaixonada pela companhia e, como todo ser apaixonado, pode fechar os olhos para eventos negativos que ocorrem, e que poderiam ser mitigados, e até mesmo quanto a boas oportunidades que está deixando passar.

Ainda, a especialista diz que é comum que em empresas nas quais o fundador atua como principal tomador de decisão, os processos tenham por demais a “cara” dessa pessoa. Não significa, entretanto, que a opinião de um único sujeito seja, necessariamente, a melhor opinião.

“Em virtude disso, quando instrumentos de governança corporativa são incluídos na empresa, com a entrada de administradores profissionais e a formação de conselhos, a tomada de decisão se torna mais profissional, alinhada com o mercado e impessoal, o que pode ser benéfica para a perpetuidade da companhia. É claro que o fundador da empresa saberá de muitas informações que ninguém mais sabe, mas ele pode contribuir como uma figura consultiva, e não como uma figura de único tomador da decisão”, afirma Emanuelle.

Leia também: Maioria dos conselheiros de empresas fechadas ganha até R$ 15 mil por mês

2. Família, família, negócios à parte?

De alguma forma, Logan envolveu toda a família Roy na Waystar Royco, ainda que muitos claramente não tenham aptidão para o negócio. Muitos negócios de sucesso são familiares, é verdade, mas isso não significa que todo negócio familiar será um sucesso.

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Quando se trabalha ou tem como sócios pessoas da família, cônjuge ou até mesmo amigos, o que se constrói é uma relação profissional com indivíduos com os quais há uma ligação afetiva. E resolver um conflito profissional com um indivíduo com o qual se tem um vínculo afetivo é bastante delicado.

“Tal estreitamento pode promover uma quebra nos laços profissionais e de amizade. Ainda está na dúvida? Pense comigo: é muito mais fácil discordar e discutir detalhes técnicos de um projeto com um colega de trabalho com quem você possui um convívio estritamente profissional do que com um irmão. Os papéis se misturam e, geralmente, não possuímos um nível elevado de inteligência emocional para lidar com essa questão”, alerta a especialista.

Assim como ocorre em “Succession”, portanto, os dramas familiares podem, muito bem, ser arrastados para a empresa. Além disso, é importante separar a família do negócio porque há o risco de transformar a empresa em uma espécie de “monarquia”, com príncipes, princesas e decisões absolutistas de um soberano. Mas se mesmo assim o empresário ainda quiser envolver a família na companhia, Emanuelle diz que o caminho deve ser o mesmo que seria tomado em relação a qualquer outro funcionário: designar uma função a cada pessoa por meio de um processo seletivo e análise de perfil.

“Além disso, deve-se tratar essa pessoa como qualquer outro colaborador. Ou seja: não pode cobrar menos, falar diferente ou deixar para conversar sobre o trabalho durante momentos pessoais e familiares”, pontua.

3. Reuniões somente se necessárias

Em “Succession”, Logan Roy faz muitas reuniões com a alta cúpula da empresa, que envolve seus familiares, a fim de lidar com as crises que surgem a cada episódio – estamos falando de um drama, afinal. Apesar de o diálogo ser importante, com o tempo, as pessoas envolvidas conseguem desenvolver a aptidão para “ler” Logan e respondem sempre o que acreditam que ele vai querer ouvir.

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Travar conversas constantes com sócios e colaboradores, obviamente, é importante. Ao mesmo tempo, é preciso ter cautela para que esses encontros não se tornem, justamente, artificiais, como acontece na produção da HBO.

“Esse é um drama central enfrentado não só pelas empresas familiares, mas de uma forma geral. É muito comum que o CEO, o mais alto cargo numa companhia, use essas reuniões de alta cúpula somente como uma forma de reforçar suas ideias, e não de validá-las ou discuti-las, que deveria ser o motivo para esse tipo de reunião”, diz Fernando Domingues, coordenador do StartupLab da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), em São Paulo (SP).

Uma tática interessante para ouvir sócios e colaboradores pode ser alterar o estilo de reunião e de tomada de decisão, lançando mão, por exemplo, de uma dinâmica por grupos ou pares. Primeiro, as pessoas analisam o caso em questão separadamente, em pequenos grupos. Depois, cada grupo apresenta sua percepção, o que evita tendências. Outra pedida pode ser a técnica de brainstorming.

4. Tente não voltar atrás

Na série, não é incomum que Logan reveja muitas decisões da Waystar Royco que antes pareciam definitivas, principalmente depois de ser influenciado por algum tipo de lobista. A imagem que uma empresa que constantemente volta atrás em sua tomada de decisão passa, contudo, pode não ser muito boa.

“Durante muito tempo, uma empresa que volta muito em suas decisões foi vista pelo mercado como uma companhia muito dependente de seu fundador ou do CEO. Essa empresa teria um nível de risco muito alto, pois a base da ideia do relacionamento entre empresas é, basicamente, confiança e constância.

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Se esse processo é abalado porque a empresa muda de direção e de foco a toda hora, basicamente, ela vai ser vista como frágil, e as outras empresas que têm parceria com ela vão ver risco no negócio. E o alto nível de risco, principalmente para uma empresa de capital aberto, como é o caso do conglomerado da série, faz com que a própria empresa fique desvalorizada”, esclarece Domingues.

5. Medo e humilhação ficaram no passado

Logan Roy provavelmente é um leitor de Nicolau Maquiavel, vez que parece levar bastante a sério a clássica máxima de que “é melhor ser temido do que ser amado” tanto com amigos e colaboradores quanto com seus inimigos e concorrentes de negócio.

Medo e humilhação são práticas relativamente constantes nos negócios da Waystar Royco. Em plena década de 2020, porém, a tática da “cultura do medo” não encontra mais respaldo nos negócios.

“A cultura que havia antes de submissão, de que a empresa está cuidando de você e, por isso, você precisa aceitar essas coisas, ela morreu; começou nos anos 1980, mais ou menos, e agora, em 2020, isso praticamente não faz mais sentido. A cultura do medo cria um problema gigante pois transforma os colaboradores em meros executores e os inibe como pessoas que pensam. Essa cultura deve ser substituída por uma cultura de autonomia e motivação, para que a empresa seja pensante e que os envolvidos estejam empenhados em evoluir”, afirma Domingues, da ESPM.

Em uma época na qual se fala tanto de soft skills e estruturas cada vez menos hierarquizadas, tratar sócios e colaboradores com humilhação está, portanto, fora de cogitação.

6. Seja autêntico

Kendall Roy, segundo filho mais velho de Logan, enxerga-se como herdeiro natural do pai na empresa. Ao mesmo tempo, acionistas, colaboradores e parceiros de negócios o acham “artificial”, vez que não enxergam paixão e verdade naquilo que ele fala e faz.

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Um líder precisa ser autêntico, afinal. “Não basta querer o status de líder na empresa sem procurar se desenvolver e se introduzir de forma natural na companhia. Primeiramente, é muito delicado e mau visto quando um herdeiro chega já em uma elevada posição e com alto poder decisório, sem ter se desenvolvido e se apropriado das rotinas, sem conhecer as pessoas. Kendall deveria participar de rotinas da companhia e aos poucos ir conquistando a simpatia e o respeito de todos.

Não basta chegar na empresa, é preciso pertencer no ambiente, ainda mais na época em que muito falamos sobre governança corporativa e processos justos e
transparentes para todos os stakeholders da companhia”, comenta Emanuelle, da Unisinos.

7. Não se deixe cegar pela cobiça

Poder e dinheiro guiam os personagens de “Succession”. Quando se faz parte de uma das famílias mais ricas do mundo é difícil que isso não aconteça. Mas um bom empreendedor precisa tomar cuidado para não se deixar cegar pela ganância e pela cobiça. Daí a importância de não somente o empresário ter valores e princípios bem consolidados, mas de a empresa também ter essas características bem delineadas.

Fernando Domingues, da ESPM, diz que a visão de que o papel da empresa é unicamente o de trazer lucro para seus acionistas já está superada. O lucro, diz o
especialista, é um meio para que a empresa se torne perene e possa sobreviver a momentos de crise, trazer bem-estar a seus associados e acionistas, oferecer ajuda a seus funcionários e, basicamente, ter um caminho seguro mesmo em tempos de incerteza, como o que se tem hoje devido à crise de covid-19.

“A função da empresa é gerar valor para seu público. Se eu coloco o dinheiro acima disso, muitas vezes eu vou começar a tomar decisões que afetam a capacidade que essa companhia tem de entregar esse valor e, com o tempo, o que acontece é que esses próprios consumidores começam a ir embora. Isso é visto na série, inclusive, porque eles estão desatualizados, são considerados a ‘antiga mídia’”, ressalta o especialista.

8. A importância de um plano de sucessão

Como o próprio nome da série indica, a trama de “Succession” gira em torno da sucessão na Waystar Royco. Por mais que esse ponto possa soar um tanto mórbido, não há como saber, com certeza, o dia de amanhã. Nesse sentido, ter um plano firme de sucessão é fundamental para evitar dramas como os vistos no seriado.

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Emanuelle diz que sem um plano de sucessão, a empresa fica “órfã”, sem uma pessoa preparada e com conhecimento necessário para dar continuidade ao negócio. O plano de sucessão, nesse sentido, é a essência para a perpetuidade das empresas, pois é por meio dele que são escolhidas as pessoas estratégicas para a companhia, para desempenharem funções de gestão e liderança.

“Ser líder, o tomador de decisão não significa apenas sentar na mesa e opinar: significa conhecer todos os processos, todos os agentes envolvidos nas operações. Para fazer acontecer o plano de sucessão da melhor forma possível, recomenda-se que as pessoas sejam escolhidas pelas suas competências e conhecimento e não pelo quanto simpatizam com o dono, por exemplo. A partir de então, é essencial que os escolhidos passem por todas as áreas da empresa e comecem a desenvolver um relacionamento com todos os agentes envolvidos com a companhia, sejam os principais clientes e fornecedores, acionistas e investidores, e também colaboradores.

Cair de paraquedas para gerir o negócio significa criar uma cultura questionável na companhia e provavelmente não conquistar o respeito dos liderados – e, consequentemente, a máxima eficiência da empresa”, conclui a administradora.

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